"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. E, por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

GETÚLIO: 1882-1930

Dos anos de Formação à Conquista do Poder
Autor: Lira Neto
Editora: Companhia das Letras
Assunto: Biografias - Política
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 624

Sinopse: Esta obra procura reconstituir a trajetória pessoal e política de Getúlio Dornelles Vargas. O autor buscou se debruçar sobre documentos para ajudar a decifrar a 'esfinge Getúlio', e mostrar como foi possível que convivessem no mesmo indivíduo o revolucionário, o ditador, o reformador social e o demagogo. Lira Neto pretendeu se servir de cartas pessoais e memorandos oficiais, de diários íntimos, autos judiciais, boletins de ocorrência, notícias de jornal, anúncios de publicidade, charges, hinos, marchinhas, livros de memórias, entrevistas, depoimento, entre outros.
Comentários de Nivaldo Cordeiro: A Companhia das Letras fez chegar ao mercado o primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas (Getúlio – 1882-1930: Dos anos de formação à conquista do poder), de Lira Neto, prevista para ser uma trilogia. Um grande feito editorial, narrado em detalhes no posfácio (que bem poderia ser um prefácio) do próprio autor. A editora apostou no projeto, financiou-o e pôs à disposição do autor os meios para realizar sua obra. O fato é inusual no nosso acanhado mercado editorial, no qual geralmente os editores são medrosos e argentários, fugindo do risco.
Não bastante, a editora precificou o volume em apenas R$ 52,50, um grosso volume bem encadernado, em excelente papel. Segundo a revista Veja a tiragem inicial foi de trinta mil exemplares, muito acima da média nacional. O livro é tão bom, o preço tão acessível e o personagem tão fascinante que deverá ser esgotada rapidamente. Se o autor está de parabéns pela iniciativa, mais ainda está o editor Luiz Schwartz. Que outros sigam o exemplo.
Lira Neto é já um consagrado escritor, autor da biografia de José de Alencar e da melhor feita sobre o Padre Cícero, seu trabalho anterior, que virou best seller. Ele é um pesquisador exaustivo e também um escritor talentoso. Sua narrativa lembra, em muito, aquela utilizada por Fernando Moraes ao escrever o já clássico Chatô - O rei do Brasil. Sem perder nunca o fio ele narra a vida do biografado intercalando diferentes momentos e diferentes episódios, criando um efeito parecido com aquele encontrado nos melhores livros policiais. O suspense é integral.
Mesmo se conhecendo a vida de Getúlio Vargas, a técnica narrativa prende o leitor de forma magnética. Eu simplesmente fui largando tudo que lia para poder dar cabo à leitura do excelente livro do Lira Neto. Um grande prazer e um suplemento adicionais de informações, não apenas biográficas, mas da política brasileira no período abordado. O painel feito é uma perfeição, acrescentando informações importantes sobre o que aconteceu naqueles momentos fatídicos do início do século XX, quando os destinos do Brasil foram moldados. Para o bem e para o mal, Getúlio Vargas tornou-se o principal responsável pela formação política que herdamos.
A chamada República Velha foi o período de transição entre o Império e os tempos contemporâneos. O Brasil era, de fato, uma federação e o poder central estava longe de ser o que é hoje, uma força esmagadora de um Estado central. As liberdades eram maiores, tanto para as unidades políticas subalternas como para as pessoas. Desde Vargas entrou-se em um ciclo de concentração de poderes  ao qual estamos agora submetidos. Não seria mais possível, depois de Vargas, haver uma "revolução" por cima, a partir de um dos estados federados. A desproporção de forças é tamanha que algo como se viu em 1964 só é possível a partir da própria unidade central.
Getúlio foi um personagem fáustico, personificando o pacto que nosso país realizou. Sua própria morte trágica é sinal hiperbólico desse pacto. Não ao acaso o mantra do desenvolvimento - o desenvolvimentismo - deriva diretamente da intervenção getulista em nossa história. O desenvolvimentismo é a ideologia desse pacto, abraçada por todas as forças políticas desde então, fazendo do poder de Estado a alavanca motora. Getúlio chegou ao Rio de Janeiro para subir no promontório e ver sua obra fáustica se realizar, algo como narrado esplendidamente por Goethe em seu poema monumental.
O escritor que melhor retratou essa mudança na República Velha foi Guimarães Rosa. Grande Sertão, Veredas, Sagarana e Corpo de Baile são ambientados nessa época. Ler a obra do escritor mineiro em conjunto com a biografia de Getúlio, por Lira Neto, é altamente esclarecedor das metamorfoses por que passou o Brasil, em consonância com aquelas vividas por todo o Ocidente.
Lira Neto, assim, ajuda-nos a compreender a nossa própria formação como Nação e esclarece pontos obscuros desse processo. Não fosse por outra razão, esta já seria suficiente para tornar seu belo livro um clássico, de leitura obrigatória por aqueles interessados em entender o Brasil.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

PODER GLOBAL E RELIGIÃO UNIVERSAL

Título original: Poder Global y Religión Universal
Autor: Juan Claudio Sanahuja
Tradutor: Lyège Carvalho
Assunto: Ensaio social e religioso
Editora: Ecclesiae
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 206     

Sinopse: NA PASSAGEM PARA O TERCEIRO MILÊNIO, ao inaugurar o Grande Jubileu de 2000, o beato João Paulo II exortou os cristãos a confiarem na vereda de Cristo, lembrando a estreiteza da via que, em uma história bimilenar, foi capaz de fazer a Igreja vencer tantas sombras e perigos incontáveis, ameaças e perseguições, e tantas outras incompreensões e falsas interpretações; assim, a luz fulgurante de Cristo chegou ao século XXI como um fato incontestável: “Entramos por esta Porta, que representa Cristo mesmo: com efeito, só Ele é o Salvador.” Esta verdade histórica chegou até nós, a geração pós-Concílio Vaticano II, mas está hoje (e novamente) atacada de modo intenso e sistêmico, por forças culturais, econômicas e políticas, no afã de impor uma nova ordem mundial, destituída das premissas cristãs, ordem imposta por diversas formas de manipulação, a pior de todas as violências. Uma nova ordem não apenas política, mas também religiosa, de uma religiosidade light, “sem dogmas, sem estruturas, sem hierarquias, sem morais rigorosas”, como ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, neste lúcido livro Poder Global e Religião Universal.

Este “poder global”, como um novo Leviatã, “procura a perversão dos menores, a anticoncepção, o aborto, a eutanásia, a investigação com embriões humanos, a injusta legitimação jurídica de casais do mesmo sexo etc. A falsa espiritualidade da nova ordem procura ensinar às crianças de 5 anos a normalidade da homossexualidade e da masturbação e instruí-la no uso de preservativos e da pílula do dia seguinte, inculcando-lhes que o aborto é um direito, como propõe a UNESCO”.

Comentários: A crise da Igreja é grave. Tenho a impressão de que não se esconde de ninguém que o cataclismo social – que afeta o respeito à vida humana e à família – tem essa triste situação como causa. Michel Schooyans afirma, sem nenhuma dúvida, que a Nova Ordem Mundial, “do ponto de vista cristão, é o maior perigo que ameaça a Igreja desde a crise ariana do século IV”, quando, nas palavras atribuídas a São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”.

(...) Soma-se à atitude vacilante de muitos católicos a ditadura do politicamente correto, muito mais sutil que as anteriores e que reivindica a cumplicidade da religião, uma religião que por sua vez não pode intervir nem na forma de conduta nem no modo de pensar. A nova ditadura corrompe e envenena as consciências individuais e falsifica quase todas as esferas da existência humana.

A sociedade e o estado excluíram Deus, e “onde Deus é excluído, a lei da organização criminal toma seu lugar, não importa se de forma descarada ou sutil. Isto começa a tornar-se evidente ali onde a eliminação organizada de pessoas inocentes – ainda não nascidas – se reveste de uma aparência de direito, por ter a seu favor a proteção do interesse da maioria”.

O autor: Argentino, sacerdote ordenado em 1972, Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Teologia Moral e História da Filosofia e da Teologia, Capelão de sua Santidade o Papa Bento XVI e Colaborador do Conselho Pontifício para a Vida. É também jornalista pela Universidade de Navarra e autor de «El desarrollo sustentable. La nueva ética internacional» («O desenvolvimento sustentável. A nova ética internacional»)

Entrevista com o autor:

Canção Nova - De que forma funcionam essas estratégias de estabelecimento de um poder global e religião universal?

Monsenhor Juan Claudio Sanahuja - É algo fabricado pelos mesmos lobbys antivida, porque precisam transformar a cultura dos países cristãos, a fim de que a mensagem antivida possa ser aceita nesses países. Para isso, precisam "trocar" as crenças dos povos cristãos, especialmente católicos, e isso desgraçadamente é favorecido por uma situação de "crise" no interior da Igreja, pois há pessoas, inclusive eclesiásticos, que não aceitam os pronunciamentos magisteriais.

Justamente estes projetos de nova ética internacional baseiam-se no relativismo ético. Portanto, os documentos do Magistério que afirmam verdades imutáveis são rechaçados por esses projetos. E querem inculcar isso no povo cristão e católico, em parte valendo-se de alguns eclesiásticos que não aceitam o ensinamento da Igreja.

Canção Nova - Já tivemos na história regimes políticos que promoveram o ateísmo, e, depois, surgiu essa tendência de promover a religião aconfessional. Qual é a diferença desses dois mecanismos?

Monsenhor Sanahuja - As pessoas são quase sempre as mesmas e tudo está impregnado de um neomarxismo. Então, o que ocorre é que querem substituir a religião revelada, cristã, por uma outra, de valores relativos, utilizando inclusive as mesmas palavras que têm grande valor para a religião cristã. Por exemplo, a "paz". É uma palavra que tem forte embasamento de conteúdo cristão. Por isso, não bastam as palavras: temos que ver quem diz e por que as diz.

É o que o então Cardeal Joseph Ratzinger chamou de moralismo político. Não basta falar sobre paz, proteção das crianças, igualdade. Tem-se que ver quem diz e qual é a sua ideologia, pois podem ser palavras enganosas, embora baseadas em conteúdo católico. Então, aqueles que pregavam ateísmo há uns anos são os mesmos, ou discípulos desses, e agora pregam uma nova ética de valores relativos, mutáveis. Assim, tudo o que seja verdade imutável é fundamentalismo e, portanto, rechaçável, condenável. Por isso, alguns dizem que a posição da Igreja em relação ao aborto altera a paz, tanto social quanto mundial. Já outros abordam as formas de se combater a Aids: a Igreja fala sobre o cultivo de bons costumes, e há quem acuse isso de crime!

Canção Nova - De que forma os padres e bispos podem ajudar nesse contexto? E o povo católico, já abriu os olhos para essa realidade?

Monsenhor Sanahuja - Sendo fiéis ao Magistério, pregando a doutrina ensinada por Jesus. Acontece que nós sacerdotes, os clérigos, inclusive bispos, temos a pressão do ambiente, do "politicamente correto". Temos que pregar a Jesus e a conduta que Ele nos ensina a ter, apesar da presença do politicamente correto. Com a ajuda de Deus, não podemos ceder às pressões. Isso é inadmissível. Os sacerdotes devem pregar Jesus e a doutrina católica, em sua integridade, e não se deixar pressionar, ainda que isso possa trazer dor de cabeça.

CONSPIRAÇÃO ANTICRISTÃ

Principe Dom Bertrand de Orléans e Bragança

segunda-feira, 2 de abril de 2012

REVOLUÇÃO e CONTRA-REVOLUÇÃO

Autor: Plinio Corrêa de Oliveira
Assunto: Ensaio social e religioso
Editora: Artpress
Edição: Comemorativa dos 50 anos da publicação.
Ano: 2009
Páginas: 166


Sinopse: A humanidade de nossos dias encontra-se diante de um impasse: de um lado, parece estar marchando rumo a um progresso maravilhoso e indefinido, nos campos humano e científico, cujos confins não se consegue sequer vislumbrar: de outro lado, assiste-se uma deterioração abrumadora da civilização, do convívio social, e das próprias condições da vida moderna, que pode desfechar, de um momento para outro, no confronto generalizado de indivíduos, família, sociedades, povos e nações.

- Como resolver esse impasse? Como se chegou a ele? É das respostas a estas duas perguntas que este livro se ocupa. Mas não paremos por aqui. Continuemos a descrição da obra.

Uma pergunta prévia: esse impasse é fruto previsível das paixões humanas entregues a si mesmas, ou a elas se acrescentou a atuação coordenada de forças que atuaram intencionalmente para atingir tal resultado? Estaríamos então diante de um processo duplo, em parte natural e em parte artificial, que se desenvolveu conjuntamente para produzir esse efeito?

Apontando a existência desse processo, autores – tanto contrários como favoráveis a ele – deram-lhe um nome: Revolução.

Assim, grandes pensadores – católicos e não católicos – foram delineando e descrevendo, passo a passo, o processo revolucionário que conduziu a sociedade humana, a partir da Idade Média – com sua fé primaveril nos ensinamentos do Evangelho e nos da Igreja Católica – à sociedade atual, esteada na trilogia liberté-egalité-fraternité, que, seduzindo a humanidade com avanços tecnológicos deslumbrantes, implantou a mais cínica e escancarada liberdade de costumes. A tal ponto que, no estágio em que as coisas hoje se encontram, é lícito perguntar-se, sem uma intervenção extraordinária da Providência, o desconserto do mundo moderno tem solução.

Muitos estão convencidos de que não.

Carta de Pio IX

“Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes estendesse mão amiga.[1] Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerâncias das leis mais iníquas.[2] Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem [não é o caso do Brasil], como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo.”[i]


[1] Um exemplo contemporâneo é a CNBB que hipotecou, em nome da Igreja Católica brasileira, o seu apoio a candidata revolucionária comunista, abortista e atéia, Dilma Roussef, nas eleições de 2010 para presidente da república. (Nota de Anatoli Oliynik)
[2] Tem-se a nítida sensação que Pio IX está escrevendo esta carta para a CNBB e para muitos católicos brasileiros que mantém uma relação incestuosa com o governo revolucionário do PT e com partidos políticos comunistas. (Nota de Anatoli Oliynik)


[i] Carta ao presidente e membros do Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6 de março de 1873, apud I Papi e la Gioventù, Editrice A.V.E., Roma, 1944, p. 36.

segunda-feira, 5 de março de 2012

IDEAIS TRAÍDOS

Nota preliminar:

Este post, publicado originalmente neste blog em 08/02/2010, foi revisto e ampliado. Àqueles que desejarem compreender o quadro político nacional e o comportamento atual do EB diante desse quadro, devem buscar as explicações neste livro, pois o ovo da serpente foi gestado no governo Geisel e comandado pelo presidente, razão pela qual, se justifica o título da obra.

Editor do blog

 
IDEAIS TRAÍDOS
Autor: Sylvio Frota
Editora: Jorge Zahar
Assunto: História do Brasil
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 662




Sinopse: Nesse inédito documento histórico, o leitor tem uma rara visão dos bastidores do período militar no Brasil (1964-1985). Frota faz uma análise minuciosa da história e, ao acusar os que em seu entender haviam traído os ideais do Movimento de 64, torna esse livro um depoimento detalhado e único sobre o tema.

A obra, lançada agora por iniciativa de seu filho – já que o autor, até sua morte, em 1996, não quis divulgar o texto –, mostra detalhes ainda desconhecidos sobre a cúpula militar brasileira.

SYLVIO FROTA foi ministro do Exército entre 1974 e 1977, período em que o presidente Ernesto Geisel iniciou o processo de abertura [prefiro a expressão: entregadura]. Contrário a essa política e apoiado por militares e políticos da “linha dura” que o queriam candidato à sucessão, Frota distanciou-se cada vez mais do presidente, a quem via como ideologicamente de esquerda. O desfecho foi sua demissão por Geisel em 12 de outubro de 1977.

Afastado da vida pública, o ex-ministro dedicou-se, nos anos seguintes, a escrever sua versão dos fatos. Ideais traídos publicado 28 anos depois do início de sua redação.

Comentários: Este livro é muito mais do que o registro de fatos passados. Ele é um prognóstico do futuro do país e, se lido analiticamente com espírito desarmado, esclarece e ajuda a compreender o sucesso que as esquerdas marxistas, socialistas, comunistas e revolucionárias vêm obtendo na implantação de um regime socialista que será totalitário num breve espaço de tempo, sem que surja uma única reação contra esse câncer que destrói nações, diviniza a nomenclatura e se locupleta pela corrupção do erário e do suor daqueles que trabalham para sustentar uma nação de cultura parasitária, governada pela súcia encastelada no poder pela massa ignara.

Excertos da obra:

“A esta altura dos acontecimentos, já se delineavam no seio da Revolução três grupos militares, de tendências e aspirações diferentes: o grupo castelista, de inclinações liberais centro-esquerdistas, em que se destacavam os generais Cordeiro de Farias, Ernesto Geisel e Golbery, homens ligados à Escola Superior de Guerra, onde iam buscar as bases de suas atividades; o nacionalista, de fortes tinturas socialistas com Afonso de Albuquerque Lima, Euler Bentes Monteiro e outros generais, dispondo, segundo se dizia, da valiosa simpatia de Juarez Távora; e finalmente o grupo ortodoxo, conservador sem ser imobilista, fiel às teses do Movimento de 1964 e que tinha na sua liderança a figura dominante de Costa e Silva.” (p. 84)

“O governo do general Médici teve a penosa e arriscada missão de enfrentar a subversão em sua fase agressiva e de maior periculosidade.” (p.86)

Com “... os Centro de Operações da Defesa Interna e o Destacamento de Operações e Informações. A subversão foi contida e quase extinta." (p. 87)

As esquerdas infiltradas no governo e agora contando com um presidente simpatizante, que mais tarde se revela ser de esquerda, começam a pressionar para extinção destes órgãos de segurança:

"Eis aí, a verdadeira causa da revoltante e acirrada campanha feita, por inspiração comunista, contra esses dois órgãos de segurança – a subversão estertorava. Era e é, pois, o seu objetivo prioritário extingui-los no mais curto prazo.”

“Ninguém pode assegurar que, numa luta de morte como a que foi travada, não tenha havido violência, porque violência gera violência. Porém, querer atribuir-lhe um caráter sistemático e geral é imputação caluniosa e desmoralizadora, de orientação marxista – o que se pode verificar pela documentação apreendida e declarações de próprios subversivos presos.” (p. 87)

“E, um governo, comprometido espiritualmente com as correntes de esquerda, como foi o do general Ernesto Geisel, não hesitou em tentá-lo em todas as ocasiões julgadas favoráveis.” (pp. 88-89)

Sobre as falsas acusações de tortura e a indiferença dos acusados:




"Um jovem casal, preso numa reunião de subversivos, foi tratado costumeiramente com todo o respeito, entretanto, o marido, ao prestar depoimento na Auditoria Militar, afirmou, cinicamente, que suas declarações anteriores tinham sido obtidas sob tortura. Indignado, interpelei-o, ao correr de uma habitual visita, instando para que dissesse quando e onde tinha sido torturado e quem praticara a tortura. Baixou a cabeça e, num assomo de dignidade, respondeu, textualmente:

- Cumpri ordens do Partido!

Nós militares compreendíamos o propósito de desmoralizar os órgãos de segurança, neutralizando-os para posteriormente extingui-los.

O que nos surpreendia era a indiferença governamental, porquanto a técnica subversiva nem a marca da originalidade possuía. Reproduzia-se fielmente, aqui, o que acontecera em outros países."

Frota convidado para assumir o Ministério do Exército: “Iria penetrar num ambiente desconhecido, envolvido nas névoas do pragmatismo, em que pululavam os casuísmos, e no qual a verdade e a mentira confundiam-se na mesma versão deformada da realidade comprometedora.” (p. 89)

O reconhecimento da República Popular da China:

“O choque de valores culturais entre as duas nações, a ingerência chinesa, mais ou menos velada, de acordo com a conjuntura internacional, na política de outros países e a obstinada e impertinente exigência do rompimento com a China Nacionalista, provocando um problema com Formosa, com quem mantínhamos excelentes relações – comerciais e políticas – mereceram especial atenção.” (p. 98-99)

Parecer de Frota sobre as relações diplomáticas com a China comunista: “Com base neste longo e profundo estudo, não poderia ser outro o parecer do Chefe do Estado-Maior do Exército, condensado em apenas quatro folhas e contrário, na conjuntura em que vivíamos, à proposta do Ministro das Relações Exteriores.” (p.99)

“A extensa rede marxista descoberta na Polícia Militar do Estado de São Paulo, enredando nas malhas da Lei de Segurança, mais de sessenta militantes, entre os quais se citavam muitos oficiais, não trouxe a ilusão de que as recomendações do MCI [Movimento Comunista Internacional] e de Havana tivessem caído em ouvidos moucos.”

“Naquele mês de julho, ao correr de um despacho, abordando os problemas de repressão, expressou o presidente o ponto de vista de que nós militares estávamos errados no combate à subversão, pois procurávamos o auxílio da direita para combater o comunismo. É um erro, repetiu enfaticamente. Pegando então de um lápis traçou numa folha de bloco de papel um segmento horizontal de reta. Marcou a extremidade direita deste segmento com um D (direita) e a extremidade oposta com um E (esquerda). No meio do segmento colocou um C (centro).”

“Disse-me, depois, com toda a firmeza – nós devemos nos aproximar da esquerda. Traçou a seguir sobre a figura uma elipse, envolvendo as letras C e E, como a incluí-las na mesma área.”

Fiquei atordoado com o que ouvira e, mais ainda, pela convicção com que foram ditas aquelas palavras. Fixei o presidente e perguntei, vagarosamente, porém com visível repúdio pela asserção:

– O senhor acha que nós devemos ir para a esquerda?

Nada me respondeu. Arrancou a filha do bloco, dobrou-a, rasgou-a e colocou os pedaços do papel no bolso direito de seu casaco.” (p. 133) O presidente citado era Ernesto Geisel.

Portanto, a leitura desta obra é importantíssima para a compreensão, repito, do que sucede na situação política atual onde presenciamos uma relação de subserviência, quase incestuosa entre o socialismo e os comandos militares. Estamos órfãos. A ideologia marxista penetrou na caserna e campeia entre os militares, assim como faz na Igreja Católica brasileira e outras Instituições. Venceu Gramsci, não pelas armas, mas pela hegemonia do senso comum modificado. (AOliynik).

 
O general Santa Rosa e a Argentina


Graça Salgueiro



Recebi no dia 02 de fevereiro, de um amigo militar, cópia da nota escrita pelo general Maynard Marques de Santa Rosa que acabou causando sua exoneração do cargo de Chefe do Departamento-Geral do Pessoal do Exército. Quando a li me assombrei, não porque estivesse em desacordo com o conteúdo, mas pela coragem e destemor em dizer aquilo que muitos dentro das Forças Armadas pensam, mas poucos se atrevem a ser tão verdadeiros.

Uma semana depois e o alvoroço já tomava conta de jornais, sites e grupos de debates na internet. O general fora exonerado de seu cargo, sob esbravejamento histérico do ministro da Defesa, Nelson Jobim, aquele que usa uniforme militar sem nunca ter sido sequer soldado raso. Não foi surpresa, tendo em vista que, como comunista politiqueiro e fraudador da Constituição, este senhor sempre agiu de forma dúbia tal qual o morcego que morde e sopra. Fingiu defender os militares, quando foi publicado o Plano Nacional de Direitos Humanos III (PNDH III), porque no documento excluía-se os mesmos do benefício da lei de Anistia. Com seu papel bem ensaiado numa ópera bufa, pôs seu cargo à disposição sendo – naquela ocasião – aplaudido pelos militares e garantindo, com o gesto hipócrita, amealhar votos à sua futura candidatura, que ainda não se sabe bem para qual cargo.

Então leio no jornal O Globo do dia 10.02, uma declaração do ministro Jobim acerca do que se passou. Diz ele: “Acabei de enviar ao presidente da República a exoneração do general Santa Rosa da chefia do Departamento-Geral do Pessoal. Pela manhã, conversei com o comandante do Exército, general Enzo (Martins Peri), e pedi a ele providências imediatas tendo em vista as notícias que haviam circulado. Ele confirmou a notícia e disse que sugeria a exoneração, o que já foi enviado agora para o presidente”.

Este fato me remeteu a outro bem mais antigo contra o general Sylvio Frota, Ministro do Exército do governo Ernesto Geisel, também vergonhosamente traído por seus pares por ser anti-comunista ferrenho e convicto de suas funções como militar. O caso está bem documentado no livro de sua autoria, intitulado “Ideais Traídos”, cuja leitura neste momento vale a pena. Esta era a hora de o general Enzo, como comandante do Exército, apoiar o general Santa Rosa porque o que ele disse expressa fidedignamente tudo o que pensam os verdadeiros militares da ativa e da reserva, ademais de civis patriotas que prezam a verdade e abominam o comunismo. Mas a tibieza e covardia do general Enzo se manifestam há tempo, sempre cedendo aos caprichos lulo-petistas, quando, por exemplo, deixou entregue à própria sorte o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra no processo que querem, a ferro e fogo, rotulá-lo como torturador, mesmo que para isto se utilizem testemunhas e testemunhos falsos.

Omitiu-se e escondeu-se quando do lançamento do PNDH III, que aviltava não só os direitos e a honra dos militares que combateram contra o terrorismo dos anos 60, como acobertava uma mentira e seus criminosos autores. “Acompanhou” o pedido de demissão do comunista e demagogo Jobim porque não lhe restavam muitas opções, e agora concluiu seu trabalho de lacaio pedindo a exoneração de um brilhante militar que só disse a verdade, nada mais que a verdade. Entretanto, o general Santa Rosa não está só, porque ouviu-se o brado de indignação por tamanha ignomínia de todos os cantos do país, tanto de militares como de civis que sabem distinguir a verdade da mentira, aos quais me somo.

E o que tem a ver a Argentina com o general Santa Rosa? Desde 2004, tento alertar os militares de que estava sendo urdido pelo Foro de São Paulo um plano para destruir as Forças Armadas do continente, e apontei o que vinha ocorrendo na Argentina governada então pelo “ex” montonero Néstor Kirchner. Em sua gestão, a primeira providência tomada para destruir os militares foi desvinculá-los da Lei de Anistia – exatamente como quer o fraudulento PNDH III -, sobretudo nos capítulos “obediência devida” e “ponto final”, que salvaguardava as ações cometidas contra terroristas em estrito cumprimento do dever de defender a Pátria.

A ministra da Defesa argentina, nomeada por Kirchner e que permanece até hoje no governo de sua esposa Cristina, é uma “ex” montonera, Nilda Garré, uma espécie de Dilma Rousseff portenha. Por ordem desta senhora, foram abertos processos contra todos os militares vivos que combateram nos anos 70-80, dos quais 600 foram julgados e condenados a penas longuíssimas e até prisão perpétua. A maioria septuagenária e octogenária está encarcerada no meio de presos comuns que, instigados por “defensores de direitos humanos” que visitam os presídios, são espancados e insultados continuamente. Desses 600 militares, 80 já morreram na prisão por falta de atendimento médico, maus tratos e envenenamento.

O mesmo está ocorrendo no Uruguai, e no Chile as coisas não tomaram o mesmo rumo porque os militares se rebelaram e deram um basta, apesar de haver alguns deles presos. No livro “El Foro de Sao Paulo contra las Fuerzas Armadas”, escrito por militares de vários países da região, que pode ser descarregado neste link, estão as explicações para tudo isto que estamos vendo ocorrer no Brasil hoje. Nesta vergonha e covardia não estamos sós. Entretanto, eu pergunto: até quando vamos esperar? Até vermos esta escória da humanidade encarcerar todos os nossos bravos soldados até não haver mais nenhum para defender a Pátria, e o Brasil se tornar uma Cuba continental como tanto sonha o insepulto morto-vivo Fidel Castro?

domingo, 11 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DO SUBSOLO

Título original: Zapíski Iz Podpólia
Autor: Fiódor Dostoievski (1821-1881)
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora: 34
Assunto: Novela
Edição: 5ª
Ano: 2004
Páginas: 152

 
Sinopse: Publicado em 1864 na revista literária Época, fundada por Dostoiévski e seu irmão Mikhail, a novela nos traz um homem desencantado, funcionário da baixa burocracia russa, que mora com o empregado Apólon num modesto apartamento no subsolo de um edifício. Angustiado e pessimista, esse homem sem nome nos revela, por sua própria voz, um absoluto desprezo pelo mundo a sua volta e, ao mesmo tempo em que escolhe a solidão, parece, em certos momentos, amargurar-se ainda mais com ela.

Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável.

Aqui ressoa a voz do “homem do subsolo”, a personagem-narrador que, à força de paradoxos, investe ferozmente contra tudo e contra todos – contra a ciência e contra a superstição, contra o progresso e contra o atraso, contra a razão e a desrazão –; mas investe, acima de tudo, contra o solo da própria consciência, criando uma narrativa ímpar, de altíssima voltagem poética, que se afirma e se nega a si mesma sucessivamente.

Comentários: Memórias do subsolo inaugura uma nova fase na obra de Dostoiévski e na literatura ocidental. No âmbito circunscrito à produção do maior romancista russo de todos os tempos, essa narrativa singular antecipa a maturidade do escritor.

Até a publicação desta novela, Dostoiévski era um escritor dotado de aguda percepção social, cujos “ensaios fisiológicos” já traziam uma apreensão do caráter fantástico da realidade. Mas é nesta obra – traduzida pelo ensaísta Boris Schnaiderman – que o escritor materializa sua visão abissal dos conflitos morais, psicológicos e sociais, que se interpenetram caoticamente de modo a destacar, como única medida do mundo, o desejo humano de salvação diante da morte e da desrazão.

A novela é dividida em duas partes. Na primeira, “O subsolo”, o anônimo narrador destila amargura e escárnio contra as almas [almas no conceito russo são pessoas] idealistas de seu tempo, que confiam ingenuamente na subordinação do homem às leis da natureza como forma de alcançar um estado de harmonia social e espiritual. Para o homem subterrâneo, esses “palácios de cristal”, “essas sutilezas do belo e sublime” são quimeras do “homem de ação”, que reduz os anseios da alma ao bem-estar material, segundo o credo positivista. Por isso, ele preferirá sua existência de zombaria e torpeza, de tédio e inação, a “consciência hipertrofiada” de quem conhece a essência irredutível do ser humano.

O monólogo inicial de Memórias do subsolo proporciona ao leitor momentos impagáveis de humor negro e anarquismo metafísico. Mas a mensagem desse habitante das catacumbas da existência é clara: utopistas como Tchernichévski ou Fourrier (freqüentemente aludidos ao longo do texto) são, na verdade, avatares do “Grande Inquisidor” de Os Irmãos Karamazov, que oferece aos homens segurança e conforto ao preço do aniquilamento de seu livre-arbítrio e de sua torturada paisagem interior.

Em Memórias do subsolo, todavia, Dostoiévski ainda não atingira a dimensão apocalíptica e regeneradora da sua última fase. Assim, na segunda parte da novela, “A propósito da neve molhada”, a narrativa das peripécias do homem subterrâneo leva da galhofa à tragédia. A negatividade do narrador revela seu lado sinistro quando enreda a prostituta Liza em sua teia: o espetáculo da auto-degradação se transforma em crueldade; os anátemas contra o humanismo deságuam no desespero e no remorso. (Manuel da Costa Pinto)

No preâmbulo da obra, Dostoiévski nos explica a obra por meio de uma nota de rodapé:

Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem até existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros. No primeiro trecho, intitulado 'O subsolo', o próprio personagem se apresenta, expõe os seus pontos de vista e como que deseja esclarecer as razões pelas quais apareceu e devia aparecer em nosso meio. No trecho seguinte, porém, já se encontrarão realmente 'memórias' desse personagem sobre alguns acontecimentos da sua vida.” [Nota de F.M. Dostoiévski]

Análise do sentido da história: Esta é uma história irônica, com conotações satíricas em boa parte da narrativa. Esta história, regra geral, foi muito mal interpretada, porque a ironia não fica evidente o tempo todo e as traduções mal feitas se encarregaram de estragá-la mudando o tom da história. Cada pessoa que lê esta obra tem a sua interpretação própria. Nietzsche, ao ler este romance pela primeira vez, achou-o maravilhoso porque na sua visão o que o “homem do subsolo” representa, é o “super-homem” de sua criação, que ele acha que poderia existir. Portanto, centenas são as interpretações do sentido desta novela de Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux, num dos primeiros ensaios que publicou no Brasil, disse o seguinte: “Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski”.

O primeiro passo para interpretação da história é perceber que o “homem do subsolo” tem uma consciência hiper-desenvolvida e mais aguçada do que as demais personagens da história. À primeira vista, parece ser uma coisa boa e positiva, mas quando se pensa um pouquinho melhor, começa-se a acreditar que essa consciência hiper-aguçada que o “homem do subsolo” tem, deve ter alguma coisa má, porque ele inviabiliza a própria possibilidade da vida humana. Ele, na medida em que não consegue fazer nada, não porque ele não queira, não porque esteja impedido por forças externas, ele se torna vítima de sua própria doença. A pior doença mental que existe é aquela que impossibilita viver. O sujeito que consegue trabalhar ou fazer alguma coisa, mesmo que de vez em quando, é uma pessoa normal assim como todos nós. A coisa começa ficar grave, quando o sujeito passa às 24 horas do dia olhando para a parede da casa dele. De certo modo é o caso aqui, o “homem do subsolo” porque ele é incapaz de fazer qualquer ação. Portanto, há alguma coisa errada com essa consciência aguçada do “homem do subsolo” que o paralisa.

O problema do “homem do subsolo”, é que ele não consegue obter a devida retribuição social, da qual se considera merecedor, por conta de uma vaidade desmesurada que o faz acreditar que ele é muito mais do que verdadeiramente é. A sua consciência é uma espécie de ego fora de controle. Ele se considera superior a todos os outros. Está investido de soberba propriamente dita, que os gregos denominavam de Hübris que é o defeito mais grave que um ser humano possa ter: uma visão vaidosa e fantasiosa de suas próprias capacidades. Portanto, ele tem-se numa conta tão desmesuradamente alta, que ele vê no mundo uma incapacidade de retribuição que ele acredita ser merecedor.

Deixo no ar duas perguntas aos leitores: Quantos “homens do subsolo” estão a nossa volta? Qual a certeza que temos de não sermos, também, um “homem do subsolo”? Aristóteles dizia que, tirando as acidentalidades do ser humano, a essência humana é a mesma em todo lugar.

O “homem do subsolo” é prisioneiro da idéia de ser detentor de um atributo extraordinário que julga fazê-lo superior a todos os outros seres humanos. Esse é o problema central que dá início a nossa história.

O “homem do subsolo” acaba se tornando rancoroso porque o mundo é valorizado pelo homem de ação. Em contrapartida, há uma baixa valorização do homem de pensamento. Ele próprio, no enredo da história, relata que quando ia para a escola era isolado pelos colegas, porque ele sabia ler livros que os colegas não tinham a menor idéia do que tratavam. Ele tinha uma superioridade intelectual a de todo mundo e reconhece que tem culpa de ser mais inteligente do que os outros. Assim, ele não tem no mundo de ação o mesmo respaldo que a sua vaidade, inflada, espera que tivesse. Portanto, há aqui uma diferença de grau de reconhecimento. Essa é a origem do problema emocional do “homem do subsolo”.

Uma breve digressão dentro do contexto: O mundo real é o mundo das pessoas de ação. É o homem de ação que controla o mundo e age em função das aparências das coisas. Se perguntarmos às pessoas por que elas vivem, elas não têm a menor idéia disso. Elas têm uma idéia de que vivem de determinado modo, cumprindo as suas obrigações, indo para o trabalho, para o clube, freqüentando restaurantes, reservando algumas horas de laser, etc. Isso basta para elas. Não que isto seja moralmente errado, não se trata de censura às pessoas que são assim, mas a constatação um fato real e inegável. Tem gente que passa pela vida como o ônibus que não parou no ponto: direto. Não é todo mundo que tem a preocupação de compreender a vida e o mundo. Portanto, a maior parte das pessoas vive num grau de inconsciência muito grande. O homem de pensamento, por sua vez, vive num mundo completamente diferente desse. Ele tem a consciência da vida e da compreensão do mundo. O cuidado é não permitir ser dominado pela soberba.

Retornando. O “homem do subsolo” tem complexo de superioridade e que, logo em seguida, se transforma em complexo de inferioridade, porque ele que se acha grande coisa, mas é tratado pior do que os outros. Como ele tem a consciência hiper-aguçada, ele dá-se conta que existem limites à ação humana. Esses limites são as leis da natureza. Ora, se os homens fazem parte da natureza, é obvio que esses limites aplicam-se ao homem também. São limites de todos os tipos. Esses limites estabelecem que aquilo que fazemos na vida e, de alguma maneira, é programado pelas possibilidades naturais.

A diferença entre o homem de pensamento e o homem de ação está no fato de que o homem de ação age porque acha que não há limites e o homem de pensamento sabe que há limites. Este fato coloca a personagem no estado de tensão que se encontra. Ela pensa do seguinte modo: “Eu gostaria de fazer alguma coisa, mas tudo é inútil.

Se as leis da natureza [uso a frase como força de expressão, porque a natureza não tem leis; tem hábitos], ou seja, se os limites naturais estabelecem a regra de tudo, então não há mais culpa no ser humano, porque qualquer coisa que o ser humano faça, é como se fosse uma decisão que ele não tomou. O homem de ação não tem consciência disso, mas o homem de pensamento tem. Por isso que o homem de pensamento se recusa a fazer tudo, porque ele sabe que nada é possível, tudo é inútil e sem sentido, em última análise. Por isso que ele retarda as suas decisões e não faz nada de verdade. No entanto, ele gostaria de fazer alguma coisa. Esta contradição entre o que ele gostaria de fazer e a inutilidade de suas ações finais é o que o paralisa. Ele não sabe o que fazer.

No momento em que se decreta ou se admite que o comportamento humano é mecânico, automaticamente se destrói o livre-arbítrio, logo não há mais culpa. Não há possibilidade de justiça num contexto de falta de responsabilidade. Se não há responsabilidade pelos atos, não há mais justiça possível.

Essa idéia que a vida é uma coisa programada é a idéia que estava crescentemente em evidência no século XIX e é essa idéia que esse homem de “consciência maior” acaba incorporando a sua visão. Ele percebe esse desastre da existência humana, o fato que ela é determinada por forças que ele não controla, portanto o livre-arbítrio não é alguma coisa com a qual se possa contar ou que exista, em última análise.

O problema do homem de ação é que ele não tem a menor consciência disso, enquanto o outro tem consciência e está de algum modo desanimado e inviabilizado. Como o homem de ação não chegou a este ponto, ele consegue ser bobo à vontade, consegue ser auto-iludido o tempo todo. Por isso que o “homem do subsolo” o despreza e não quer ser o homem de ação; não que ser um bobo auto-iludido; mas, ao mesmo tempo, a alternativa que ele tem para si próprio é a alternativa de não fazer nada.

O “homem do subsolo” concentra o seu ataque nos “sonhos dourados” de Tchernichévski, um socialista utópico que dizia haver um palácio de ferro e outro de cristal, este representando metaforicamente a razão e o socialismo.

O “homem do subsolo” é contrário ao palácio de cristal da razão porque ele acha que o palácio de cristal é inútil. É contra a natureza humana, portanto não deve ser. Assim, o nosso homem é tecnicamente um anti-socialista, porque com a analogia que ele faz no livro, ser favorável ao palácio de cristal é ser favorável ao socialismo, e ele não quer isso, porque ele acha que isso não serve. Então, qual a alternativa? A alternativa que ele propõe é não fazer nada!

Portanto, estamos diante de dois males. Os dois males que Dostoiévski quer sanar nesta história maravilhosa é, de um lado, o niilismo de não fazer nada, e de outro, o socialismo revolucionário de Tchernichévski.

O “homem do subsolo” não tem valores morais ou consciência moral. Daí segue-se, segundo ele, que os homens temem a lei do determinismo, que estabelece que dois mais dois fazem quatro. O “homem do subsolo” teme a possibilidade de os humanos encontrarem esta razão, o palácio de cristal, porque neste caso não restaria nada para a humanidade procurar, nada mais para que lutar, nas mais para que viver. Ele explica a sua recusa em aceitar o palácio de cristal, pela simples razão de ele preferir viver no seu autodenominado subsolo.

O fim do fim, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente!”.

O objetivo de Dostoiévski é combater o niilista e o revolucionário socialista, tipos fortemente presentes na Rússia do século XIX e que mais tarde promoveram a Revolução Bolchevique de 1917.

O “homem do subsolo” representa o homem que não tem consciência moral. O que ele acredita, porque ele é inteligente, é que não é possível fazer o projeto do castelo de cristal. Isso, no entanto, não o transforma numa pessoa melhor. A não ser que ele, de alguma maneira, passasse pelo sofrimento moral. Ele passa pelo sofrimento moral, já no final da história, quando se dá conta da barbaridade que ele fez com a Liza. Esse sofrimento significa que neste momento começa a possibilidade de recuperação do homem.

Até o episódio da Liza ele não tem o sofrimento moral; ele tem uma raiva, uma implicância, etc. O sofrimento que ele tem até então é a sua vaidade ofendida. Ele é um “humilhado ofendido”.

Dostoiévski adora essa idéia do “humilhado ofendido”, porque ele sabe que a mente revolucionária nasce dessa gente. São os humilhados e ofendidos que fazem as revoluções. Basta lembrar os nossos tempos de faculdade: Quem dominava os diretórios acadêmicos? Eram invariavelmente os “humilhados ofendidos”. Essa era e ainda é a população média dos diretórios acadêmicos. Gente revolucionaria! Homens do subsolo.

domingo, 23 de outubro de 2011

CHE GHEVARA: ANATOMIA DE UM MITO

Caro Leitor:
Este vídeo tem 1h 11min. de duração e revela quem era de fato o mito produzido nos laboratórios comunistas e venerado neste país como se fosse uma divindade. O vídeo faz mais que isso: denuncia a farsa, a mentira e o engodo apologético de uma ideologia que produziu em Cuba 150 mil mortos e mais de 100 milhões no mundo todo durante o século XX.
A seguir, um importante depoimento de uma amiga que conhece a gênese dessa produção de Pedro Corzo, um ex-preso político cubano que depois fugiu com a família para Miami, onde hoje preside uma organização respeitadíssima chamada "Instituto de la Memoria Historica Cubana contra el Totalitarismo", a quem rendemos as reverências deste blog. [http://www.cubamemorial.net/Eventos/110328-IIConferenciaEspiasCubanosenEEUU.htm ]

"Todos os envolvidos nesse documentário são exilados políticos que sofreram nas prisões castristas, e o único objetivo é tentar destruir o mito do guerrilheiro sentimental, generoso e que está servindo de modelo e inspiração para a juventude.
O que se tem nesse vídeo são depoimentos de pessoas que serviram à revolução, pois no começo Fidel tinha um discurso que foi aprovado por muitos - acabar com a ditadura de Batista e devolver a democracia, liberdade e progresso a todos, indistintamente - e que, quando descobriram as reais intenções 'desertaram', sendo alguns deles assassinados, outros presos e outros ainda deportados. Se alguns aparecem fazendo elogios, fazem-no em relação ao sentimento da época, mas todos são muito firmes e respeitados em sua postura CONTRA a ditadura." (Graça Salgueiro)

O título mais adequado para este documentário seria: "Che: Anatomia de um Porco".

O Editor.


Documentário com 1h11min de duração.



Vitimas do porco psicopata: Cornelio Rojas

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CORTAR O MAL PELA RAÍZ! História e memória do comunismo na Europa

Título original: Du Passe Faisons Table Rase! [Façamos tábula rasa do passado!]
Autor: Stéfane Courtois e Outros
Tradução: Caio Meira
Editora: Bertrand Brasil
Assunto: Comunismo
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 588



Sinopse: Esta obra publicada sob a direção de Stéphane Courtois, revela fatos subestimados e deliberadamente ignorados dos crimes realizados pelo comunismo na Europa. A obra dá continuidade ao trabalho de Courtois iniciado no “O livro negro do comunismo: crimes, terror, repressão” cuja obra foi publicada em 1997 na França, em 1999 no Brasil e em mais de 25 países.


Comentários: Dezesseis historiadores da Europa e da América revelam as tragédias subestimadas e até mesmo deliberadamente ignoradas.

Na Estônia, os “batalhões comunistas de destruição” tiveram, durante a guerra, direito de optar pela vida ou pela morte de todos que caiam em suas mãos. Na Bulgária, a população foi submetida, durante décadas, ao terror generalizado. Na Romênia, a prisão de Pitesti foi, segundo François Furet, “uma das piores experiências de desumanização ocorridas em nossa época”: os torturadores comunistas exigiam dos detentos que eles próprios se tornassem os seus torturadores, a fim de negar-lhes até mesmo a condição de vítimas. Sem falar nas torturas físicas e psíquicas perpetradas com requinte de crueldade pela Stasi ou pela Securitate.

Em face desse panorama abominável, como explicar que no Ocidente, em particular na França – com a indiferença e a frivolidade que também são a marca da característica cultural brasileira –, a memória do comunismo permaneça, ainda hoje, gloriosa, e sua história, apologética?

Do prefácio: “Este livro é, ao mesmo tempo, o fruto das circunstâncias e de um dever histórico. ‘O livro negro do comunismo’, por falta de espaço, teve de limitar seus propósitos aos fenômenos mais intensos da criminalidade comunista – URSS, China, Camboja –, deixando apenas uma parte mesquinha para o Leste Europeu, o Komitern, a África, a América Latina e o Afeganistão. Assim seguindo a lógica e os princípios de historiador, era indispensável retomar o trabalho e aprofundar os fenômenos algo abandonados e mesmo subestimados.” (Paris, julho de 2002 Stéphane Courtois).

domingo, 2 de outubro de 2011

COCAINA VERMELHA: A Narcotização da América *

Título original: Red Cocaine: The Drugging of America
Autor: Joseph D. Douglas, Jr.
Editora: Clarion House, Atlanta.
Assunto: Comunismo
Edição: 1ª
Ano: 1990
Páginas: 280
Nota: * O título em português é meramente ilustrativo. Não há edição brasileira.

 Introdução

O leitor que se debruçar sobre Red Cocaine deverá se preparar de duas maneiras: redobrar a atenção para nomes e datas e certificar-se de que possui um estômago capaz de digerir um detalhadíssimo relatório sobre algumas das mais pérfidas e prolongadas ações perpetradas por regimes e indivíduos em toda a história. O estilo seco, quase monocórdio, de um autor acostumado a análises técnicas minuciosas, não consegue abafar a revolta que se revela através das repetidas menções aos objetivos dos agressores (os traficantes estatais comunistas) tanto quanto através da semi-perplexidade diante da inação e inépcia das autoridades americanas e ocidentais em geral. Red Cocaine traça o quadro geral, dá os antecedentes históricos, apresenta a evolução do planejamento estratégico de longo prazo chinês e soviético quanto ao uso das drogas como arma política e química contra os soldados e oficiais americanos, mas principalmente, contra a juventude americana a médio e longo prazos.

Ao contrário de tantos livros sobre teorias conspiratórias, Joseph D. Douglass, Jr. não apresenta teoria nenhuma, mas sim provas, documentos oficiais de vários países envolvidos, testemunhos de desertores e depoimentos de traficantes em processo de julgamento.

Douglass começa por alertar quanto a um modo de pensar já bastante enraizado, ou seja, de que de um lado haveria apenas os traficantes das Máfias “locais”, organizações inescrupulosas por natureza, e do outro, os usuários de drogas, sem levar em consideração outra possibilidade: a epidemia, ou pandemia das drogas ilegais, como resultado de estratégias de guerra política orquestradas por vários países comunistas contra o Ocidente em geral e contra os Estados Unidos em particular, em combinação com as organizações criminosas locais, com ou sem o conhecimento destas, especialmente quanto aos objetivos estratégicos de longo prazo.
Em seguida, a guisa de introdução mais abrangente, o autor dá uma visão panorâmica dos acontecimentos então recentes, ou seja, as ações cubanas na América Latina, especialmente na Colômbia dos cartéis, já citando a atuação das FARC em conjunto com a política cubana de exportação de cocaína e de outras drogas para os EUA e com isso, o financiamento de ações de movimentos terroristas e revolucionários. O ano era 1989 e George H. W. Bush acabava de assumir a presidência quando decidiu por um plano de ajuda à Colômbia no combate ao tráfico de drogas. Ainda não era o Plano Colômbia, urdido por Bill Clinton e que só beneficiou as FARC em detrimento dos cartéis, como o de Medellín, p.ex.. Mas a Colômbia já estava tão infiltrada e corrompida, que os esforços de Bush pai tiveram resultado quase nulo. Foi necessária a ascensão de Alvaro Uribe para que o quadro mudasse, mas isso está além do escopo temporal do livro. De todo modo, a coordenação cubana do tráfico de drogas na América Latina e desta para os EUA, já é um quarto estágio, ou degrau, na estratégia comunista de guerra política via drogas. Vamos às origens. (Henrique Dmyterko).
O ópio é uma palavra de origem grega (ópion, diminutivo de opós, suco vegetal) para identificar o "suco de papoula". Trata-se de um líquido espesso extraído dos frutos, ainda verdes das várias espécies existentes. Seu uso mascado ou fumado provoca euforia, seguida de sono profundo. A medicina utiliza, assim como seus alcalóides, morfina e papaverina, como sonífero e analgésico. O uso repetido conduz ao hábito, à dependência química, e a seguir a uma decadência física e intelectual, já que é um potente veneno. Seus efeitos já eram conhecidos desde os sumérios há 6 mil anos atrás.


Esta pequena introdução já nos dá a idéia que há, pelo menos, 6 mil anos, não há desconhecimento quanto ao uso do ópio. Até o século XIX, sua venda era livre, mas restrita a poucos, pois aliviava as dores e sofrimentos dos doentes. A metáfora já servia para que [o satanista] Karl Marx (1818-1883) definisse a religião como o ópio do povo.


Intencionalmente ou não, o crescimento do consumo de ópio deveu-se aos interesses comerciais da Inglaterra no século XIX. Sem produtos europeus que interessassem aos chineses, a Companhia Britânica das Índias Orientais encontrou no ópio o único produto como moeda de troca pela seda, porcelana e chá chineses.


Em 1839, a droga ameaçava seriamente não só as finanças da China, como também a saúde dos soldados. A corrupção grassava. Para chamar a atenção do imperador, um ministro descreveu a situação da seguinte maneira:


“Majestade, o preço da prata está caindo por causa do pagamento da droga. Em breve, vosso império estará falido. Quanto tempo ainda vai permitir este jogo com o diabo? Logo não teremos mais moeda para pagar armas e munição. Pior ainda, não haverá soldados capazes de manejar uma arma porque estarão todos viciados”.


Na tentativa de retomar o controle, o imperador lançou um forte apelo à população, advertindo sobre o consumo de ópio. As firmas estrangeiras foram cercadas pelos militares, que em poucos dias apreenderam e queimaram, na cidade de Cantão, mais de 20 mil caixas da droga.


Desde então, droga e ação social caminham juntas. Os ingleses reagiram às perdas de seus interesses. Superiormente armados, a resposta foram duas guerras, conhecidas como “guerra do ópio”. As conseqüências das disputas entre britânicos e chineses foram profundamente danosas aos chineses. Estes foram obrigados a abrir seus portos e permitir o livre trânsito das mercadorias européias em território chinês, bem como inúmeras concessões e privilégios comerciais. E ainda, pagar uma pesada indenização, entregando a ilha de Hong Kong aos ingleses que lá ficaram até 1997.


Se há uma sociedade que conheceu as agruras de uma sociedade viciada, corrompida e destruída, esta é a chinesa que viu seu país, com uma das mais tradicionais culturas, ser conquistado de uma forma até então inusitada, longe das espadas e armas de fogo dos generais que nem sequer suspeitaram de suas conseqüências: a droga.


Talvez por ter profundo conhecimento dos efeitos de drogas em populações urbanas foi a China comunista que primeiro percebeu o potencial da disseminação de drogas derivadas do ópio (morfina e heroína) como armas tão ou mais eficazes que fuzis ou morteiros. No início dos anos 1950, Mao Tse-tung e Chou En-lai se encarregaram pessoalmente de planejar o que viria a ser um grande esquema de tráfico de drogas, vendidas a preço baixo aos soldados americanos na Coréia, no Japão e, especialmente, na ilha de Okinawa. Comentário sobre as operações ou a simples menção dos planos chineses era motivo para execução sumária, mesmo de generais, tamanho o grau de segredo que os comunistas chineses deram à execução de seus intentos. Os objetivos chineses eram basicamente os seguintes:


1. Com o dinheiro do tráfico, financiar atividades subversivas no exterior;

2. Corromper e enfraquecer o moral dos povos do mundo livre;

3. Destruir o moral das tropas americanas que lutavam na Coréia (e depois, no Vietnã).


Outro detalhe importante do esquema chinês era a cooperação, ou coordenação de outros países sob sua esfera de influência. Isso trazia várias vantagens, sendo uma delas o fato de que isso desviava o foco de atenção da China para a Coréia do Norte ou para o Vietnã do Norte; outra vantagem era a ampliação dos campos de produção de ópio, ainda que os principais e melhores ficassem em território chinês. Tudo isso teria o efeito de confundir os serviços de inteligência americanos e de outros países do ocidente. Houve também muito trabalho e cuidado no desenvolvimento de heroína da melhor qualidade, i.e., com maior poder de adicção. A droga era passada aos soldados americanos através dos conhecidos traficantes locais e de prostitutas aliciadas ou chantageadas. Prisioneiros de guerra americanos e sul-coreanos foram usados como cobaias para experimentos de drogas mais refinadas e potentes, além de testes de resistência física, quando se verificou que eram justamente os bem jovens os mais propensos às overdoses.


No caso da Indochina, os chineses tiveram, como primeiro alvo, as tropas francesas, e obtiveram grandes êxitos: o número de soldados franceses que abandonaram seus postos ou pediram baixa já como farrapos humanos, foi estarrecedor. Oficiais franceses, quando começaram a receber ajuda material americana, repassaram a seus colegas as informações que tinham sobre as drogas e o envolvimento chinês. Os oficiais americanos, ainda em pequeno número, repassaram relatórios alarmantes aos serviços de inteligência, mas nenhuma política efetiva de contenção ou enfrentamento jamais foi tomada.


Mas já antes do envolvimento americano na Indochina, outra personagem já estava muitíssimo bem informada das atividades chinesas, pelas quais demonstravam grande interesse e entusiasmo: a liderança do PCUS – Partido Comunista da União Soviética. Após a morte de Stalin em 1953, foi possível uma reaproximação da URSS com a China, pois os interesses comuns e a afinidade ideológica eram absolutamente óbvios. Os soviéticos, especialmente Nikita Khruschev, estavam fascinados com as possibilidades da guerra política através das drogas. Numa reunião do Partido, questionado sobre a moralidade do uso de drogas como arma, Khruschev respondeu que qualquer coisa que causasse dano aos capitalistas e avançasse a revolução era moralmente justificado.


Mas os soviéticos ainda precisavam aprender algumas coisas com os chineses, que se mostraram relutantes em cooperar plenamente. Sem maior cerimônia, os russos associaram-se a agentes chineses ligados ao tráfico e passaram, a partir dali, a desenvolver seus próprios métodos, muito mais amplos e sofisticados. Todavia, é importante ressaltar que a estratégia soviética de guerra revolucionária é uma estratégia global, que envolvia desinformação, engodo e propaganda. A estratégia de narcotráfico soviética é um sub-componente dessa estratégia e é mais bem compreendida nesse contexto.


Tanto quanto a China fez uso de outros países, a URSS optou pela Tchecoslováquia para dar início ao seu plano de ampliação da guerra via drogas. Mais tarde, outros satélites soviéticos participariam das operações, especialmente a Bulgária, mas em meados dos anos 1950, a Tchecoslováquia era a mais bem equipada tecnicamente, além de ter a grande vantagem de manter boas relações comerciais e diplomáticas com vários países ocidentais, o que facilitaria a coleta de dados e o estabelecimento de redes de agente e colaboradores locais.

Para tornar a Tchecoslováquia um subordinado eficaz na guerra política via narcotráfico, os soviéticos transferiram a membros selecionados dos serviços de inteligência e do Partido tchecoslovaco, planos de cursos que instruíam sobre:


1. Natureza do comércio de drogas, tipos e qualidades;

2. Meios de produção;

3. Organização da produção;

4. Mercados e consumidores;

5. Segurança;

6. Infiltração nas redes de produção existentes;

7. Uso da experiência das redes de inteligência;

8. Comunicação no interior das organizações de tráfico;

9. Como transmitir informação;

10. Como recrutar fontes de inteligência.


O primeiro nível estratégico da guerra contra o Ocidente envolvia o engodo, a desinformação e a propaganda. O segundo nível pretendia a destruição do capitalismo com seu próprio dinheiro gasto em drogas. Quando do sucesso das duas primeiras etapas, viria então a terceira: o rolar dos tanques soviéticos sobre a Europa.


À medida que cresciam as operações de tráfico do bloco soviético, a organização tornou-se mais complexa, mas com o mesmo grau de segredo e compartimentalização (“saiba somente o que é necessário saber”). Muitos estavam envolvidos, mas poucos sabiam do propósito da operação ou nem mesmo da participação e coordenação soviética.


Praticamente todos estes dados acerca da guerra política dos soviéticos provêm da extraordinária memória de um homem: Jan Sejna, que desertou da Tchecoslováquia para os Estados Unidos em 1968. Mas o General Jan Sejna não era um desertor comum e muito menos uma fonte comum. Ele foi membro do Comitê Central do PC Tchecoslovaco, da Assembléia Nacional e do Presidium. Foi também membro da Administração Política Principal e membro do Departamento de Órgãos Administrativos e primeiro secretário do partido no Ministério da Defesa, onde também foi chefe do estado-maior. Sua posição mais importante foi a de secretário do poderoso Conselho de Defesa, que era o mais alto corpo decisório em questões de defesa, inteligência, política externa e economia. Sejna era um oficial e funcionário do mais alto escalão, com acesso a informações sobre planos e operações ultra-secretos. Ele se encontrava regularmente com os mais altos funcionários da União Soviética e de outros países comunistas. Mas Sejna parece não ter tido muita sorte na escolha do momento para desertar, pois foi muito mal recebido nos EUA, que já no primeiro mandato de Richard Nixon, não parecia querer ouvir nada que atrapalhasse a pretendida détente (distensão) com os países do Leste Europeu e com a China. Henry Kissinger [comunista enrustido e membro do Clube de Bilderberg] veio a ter papel importante na negação das evidências e indícios coletados pela inteligência americana ou por aliados e corroborados por Sejna.


De qualquer maneira, muitos analistas e agentes de órgãos da inteligência americana o ouviram e lhe deram crédito. Se nenhuma ação eficaz foi empreendida no sentido de combater a política soviética e chinesa, é assunto que será analisado mais à frente.


Segundo Sejna, um dos objetivos de longo prazo do plano estratégico comunista era a destruição das religiões tradicionais: Cristianismo, Islã, Judaísmo e Budismo. Porém, nas etapas iniciais e intermediárias do plano, e especialmente na América Latina, os padres católicos deveriam ser cortejados e cooptados para a revolução. De acordo com o General Sejna, as projeções soviéticas indicavam que 80% dos padres latino-americanos eram antiamericanos (dados de 1967), 60% tinham tendências políticas de esquerda e 65% (especialmente os padres mais jovens), usavam algum tipo de droga. Os soviéticos acreditavam que esses padres jovens teriam grande influência nos vinte anos seguintes e havia três razões para trabalhar com eles: para ajudar a avançar a revolução, para usar a Igreja Católica na distribuição de drogas e para usá-los na obtenção de informações adicionais acerca das redes de tráfico já existentes.


A porção tchecoslovaca da operação soviética começou em 1960, em duas frentes: Ásia (Indonésia, Índia e Burma [Mianmar]) e América Latina (Cuba). Cuba tinha e tem especial relevância para o crescimento do fluxo de drogas ilegais para os Estados Unidos.


Entre agosto e setembro de 1960, apenas um ano e meio após Fidel Castro ter tomado o poder, seu irmão Raúl Castro visitou a Tchecoslováquia em busca de assistência militar. Naquela época, Fidel e os soviéticos nutriam desconfiança mútua e foi este o motivo da aproximação via Tchecoslováquia. Sejna foi o responsável por receber a delegação cubana e atuar como anfitrião. Mas uma de suas primeiras ações foi arranjar um encontro com Khruschev. Logo após a visita, os soviéticos instruíram os tchecoslovacos a trabalhar com os cubanos, mas sem que estes soubessem do papel soviético. Muitos agentes da KGB se fizeram passar por assessores militares ou técnicos da Tchecoslováquia. O objetivo era duplo: não deixar que Fidel soubesse da infiltração e não levantar suspeitas entre os americanos.


Cuba e Tchecoslováquia logo fizeram um acordo de cooperação e assistência militar (treinamento e equipamento) e ajuda na organização dos serviços de inteligência e contra-inteligência cubanos. Mais da metade dos instrutores “tchecoslovacos” eram, na verdade, soviéticos.


Uma das principais tarefas era aumentar o potencial cubano na produção e distribuição de drogas para os Estados Unidos, especialmente via México e Canadá. No México, a Tchecoslováquia já tinha desenvolvida uma excelente rede de agentes. Ao longo dos anos, o México se tornou a principal rota de entrada de narcóticos nos EUA, com a cumplicidade de autoridades locais corrompidas com o dinheiro das drogas, num círculo literalmente vicioso. Com o passar do tempo, cerca de trinta por cento de toda a droga que entrava nos EUA passou a ser através do México. O estabelecimento de redes de agentes no México e no restante da América Latina seguiu um mesmo padrão no mundo todo: corrupção por dinheiro, chantagem, dependência das drogas ou afinidade ideológica, ressalvando-se que a URSS nunca aparecia, mas apenas seus subordinados, o que tornou Cuba uma peça chave na operação estratégica junto aos EUA.


A DGI (Dirección General de Inteligencia) cubana acabou completamente subordinada à KGB entre o final de 1968 e o início de 1969, segundo o general Sejna. O entusiasmo de Fidel Castro pelo plano de narcotização da juventude americana era tão grande que os russos tiveram que refreá-lo, temendo uma exposição de seu próprio papel. Mais controlada, Cuba passou a ser, então, responsável pela coordenação do tráfico de drogas para os EUA, além de coordenar o apoio a grupos terroristas da América Latina. Fidel e Raúl Castro estão diretamente envolvidos nessa dupla coordenação. Além de Sejna, várias fontes (agentes do DGI que desertaram nos anos 1980, traficantes que receberam imunidade para testemunhar, etc.), confirmam o papel de Cuba, de Fidel e de Raúl Castro. Entre os países citados como componentes do esquema de produção ou de redes de agentes, estão: México, El Salvador, República Dominicana, Nicarágua, Panamá, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Brasil, Chile, Argentina, Peru, etc. A destruição dos filhos da “burguesia” através da drogas, especialmente os estudantes nas universidades e o financiamento e coordenação de movimentos antiamericanos ou revolucionários, era o objetivo principal, além da arrecadação de vultosos fundos para realimentar as ações de subversão. No Chile do início dos anos 1960, o então senador Salvador Allende era um entusiasta do plano cubano-soviético.


Nos EUA, especialmente durante a Guerra do Vietnã, parte do imenso volume do dinheiro das drogas foi utilizada no apoio a movimentos pacifistas, anti-guerra nuclear, etc., seguindo o mesmo padrão de infiltração e manipulação nos campi universitários, mas também na imprensa e TV. Foram as drogas, em oferta maciça, que alimentaram o clima de desencanto e a busca por mais drogas, e não a guerra. A mídia americana em geral, quer por ignorância, arrogância ou colaboracionismo, encarregou-se de disseminar justamente a versão mais conveniente aos planos comunistas. Além disso, qualquer pessoa que possua os mais elementares conhecimentos de economia sabe que é a oferta que cria a demanda, e não o contrário. Em outras palavras: já havia o consumo de drogas nos países alvo antes do início das operações soviéticas ou chinesas, mas estas ofertaram uma quantidade de drogas tão grande e a preços relativamente baixos, que o resultado não poderia ser outro que não a explosão do consumo e do número de dependentes, multiplicando os ganhos políticos e financeiros da guerra política via drogas.


A Colômbia, México, Panamá, Bolívia e Peru merecem destaque, cada um por oferecer uma vantagem específica. Dentre estes, Colômbia, México e Panamá viriam a desempenhar papéis-chave. Por sua enorme fronteira seca com os EUA, pela fragilidade do sistema político, que por sua vez tornava as autoridades judiciais e policiais alvos fáceis de chantagem ou de corrupção, o México tornou-se rota livre para as drogas e quase todas as ações de repressão ao tráfico, ou eram boicotadas e reveladas com antecedência, ou eram simplesmente de fachada.


A Colômbia é outro capítulo especial, em função dos infames cartéis da droga (Medellín, Cali) e de nomes como Pablo Escobar. É importante notar que o plano cubano-soviético não fazia distinção quanto aos parceiros úteis: os cartéis não tinham nenhuma afinidade ideológica com os movimentos revolucionários ou com o comunismo, mas o lucrativo negócio das drogas exigia que fizessem política de boa vizinhança com os terroristas, (M-19 e depois as FARC), fornecendo-lhes armas em troca de proteção e informações, estas repassadas pelos soviéticos, via DGI. O mesmo pode ser dito da Máfia, na Europa ou nos EUA. Para os cartéis e para as máfias, era apenas uma forma de incrementar os negócios e para isso não precisavam nem queriam saber quem poderia estar fornecendo a inteligência de várias operações internacionais. Para os soviéticos, tal desinteresse era mais do que apenas conveniente.


Os primeiros passos da ajuda americana para a Colômbia foram dados em 1989, pelo presidente George H. W. Bush (Bush pai), com o envio de dinheiro e ajuda militar para o combate aos cartéis. Ainda não era o Plano Colômbia de Bill Clinton (que também só visava combater os cartéis e não os narcoterroristas).


A Inação Americana

Nos anos 1950, Harry Anslinger, Comissário do Governo dos Estados Unidos para Narcóticos trabalhava duro para convencer seus superiores de que a China comunista, e não a Máfia, era a força principal no tráfico de drogas: “O maior traficante é Pequim, e não a Máfia”. Anslinger forneceu ampla base de dados ao Congresso americano e também à ONU. Mas em 1962, o governo americano parou de dar atenção e publicidade ao assunto. Havia pessoas interessadas em cultivar boas relações com a China comunista. Portanto, talvez, não seja coincidência que em 1961, ano em que Anslinger se aposentou, o pessoal pró-China bandeou-se para o Departamento de Estado (que é a burocracia que de fato executa a política externa americana).


Em 1969, o presidente Richard Nixon declarou guerra às drogas. Uma das primeiras ações foi a de identificar as fontes do problema. Num desses esforços, analistas da CIA começaram a examinar o tráfico que emanava do Sudeste da Ásia. A partir de uma enorme quantidade de detalhes coletados de variadas fontes, foi desenhado o mapa da região denominada “Golden Triangle”, considerada a principal fonte de drogas. O triângulo incluía partes da Tailândia, Burma (Mianmar), Laos, e especialmente a província de Yunan, na China comunista. O triângulo está apresentado em linha de traço cheio na figura acima. Essa avaliação é idêntica àquela apresentada por Sejna, esta baseada em estudos da inteligência tchecoslovaca e soviética.


Em 1970, o mapa foi repassado para o Bureau de Narcóticos e Drogas Perigosas, antecessor da DEA (Drug Enforcement Agency). Meses depois, uma nova versão do mapa emergiu da Casa Branca. O “novo” triângulo agora era aquele representado pela linha de traço fino. Assim, a China comunista saiu do Golden Triangle. À época, o funcionário encarregado de presidir o Comitê de Narcóticos era Henry Kissinger, mas este raramente aparecia nas reuniões e demonstrava pouquíssimo interesse pelo assunto. O General Alexander Haig normalmente presidia as reuniões e se esforçava para abafar os esforços daqueles que tentavam combater o comércio de heroína.


Quando o Departamento de Defesa começou a usar aviões de reconhecimento para identificar campos de plantação de papoula na região, Kissinger [o comunista enrustido] determinou a interrupção dos vôos, para que estes não ameaçassem a política de détente (distensão) com a China.


Análises independentes indicam que, apesar da boa vontade de vários presidentes americanos, a começar por Nixon, o combate ao tráfico de drogas foi minado desde dentro, pela burocracia e por funcionários do alto escalão. O problema das drogas foi usado para erguer um império de poder e influência dentro da administração, provocar uma avalanche de manchetes manipuladas na mídia e fornecer as justificativas para a organização de uma política nacional antidrogas orientada a partir da Casa Branca, que na verdade, seria usada para objetivos políticos internos. Houve ordens expressas para que cessassem todas as manifestações e relatórios que mencionassem a China comunista como envolvida no tráfico de drogas. Além disso, funcionários de alto escalão já tinham um histórico de fazer uso do problema das drogas para ganhos políticos pessoais.


Um outro exemplo de clamorosa estupidez, é a dificuldade de comunicação ou de escandalosa má-fé no episódio da deserção do coronel da inteligência búlgara, Stefan Sverdlev, em 1970, quando ele trouxe documentos do governo búlgaro que comprovavam o envolvimento deste no tráfico internacional de drogas. A CIA confirmou a Bulgária como novo centro de distribuição de drogas e armas. E, no entanto, um outro departamento do governo americano mandou funcionários a Sofia, capital da Bulgária, para estabelecer cooperação aduaneira no combate ao tráfico de drogas! Somente em 1981 os americanos chegaram à conclusão de que a cooperação búlgara não era lá muito eficaz. Mas pior do que isso é que o treinamento americano em técnicas de identificação de narcóticos se estendeu à China e também a países do Leste Europeu.

Os Bancos, Lavagem de Dinheiro e Outros Interesses Escusos

Durante o breve escândalo búlgaro, a revista Forbes publicou matéria revelando que a lavagem do dinheiro do tráfico da Bulgária era facilitada pelos bancos suíços Credit Suisse e UBS. Absolutamente nenhuma medida de ordem prática foi tomada contra esses bancos. E é neste ponto que se revela a indignação mal disfarçada, da frustração e do desalento diante do avanço literalmente incontido das drogas nos Estados Unidos e no Ocidente em geral. Não se pode ignorar a imensidão de dados levantados pelas próprias agências do governo, especialmente pela NSA e por alguns setores da CIA e do DEA. Havia gente trabalhando sério no combate ao tráfico, a ponto de serem torturados e assassinados. No entanto, dentro dessas mesmas agências e nos Departamento de Estado e do Tesouro havia um muro de resistência a qualquer investigação ou ação mais direta quanto à lavagem de dinheiro e, rastreamento de recursos financeiros que saíam ou entravam nos EUA. E os valores são altíssimos: no início dos anos 1980, estimava-se que cidadãos americanos gastavam entre US$80 bilhões e US$110 bilhões por ano com drogas ilegais. No final da década, esses valores chegavam a US$300 bilhões, enquanto os gastos mundiais chegavam a US$500 bilhões. Algumas estimativas apontavam o valor de US$ 1 trilhão. Sabe-se que há uma lei americana que ‘obriga’ os bancos a relatar saques e depósitos superiores a dez mil dólares. Assim, muitas instituições financeiras foram investigadas e acusadas de operações de lavagem de dinheiro. Só um banco foi acusado de cometer dezessete mil violações da lei federal de transações em espécie. Mas houve pouquíssimos indiciamentos ou aplicações de multas pesadas. Tampouco foi dada muita publicidade ao assunto. Mas ironicamente, não há negócio no mundo que gire US$ 500 bilhões ao ano e que não tenha a ativa e bem informada assistência de bancos e instituições financeiras.


Ramon Milian Rodriguez, um dos responsáveis pela lavagem e investimentos dos recursos do Cartel de Medellín, foi preso nos EUA em maio de 1983. Em 1988, diante de uma Comissão do Congresso, relatou aos senadores John Kerry (Democrata) e Alphonse D’Amato (Republicano) de que forma, com a assistência das Forças de Defesa do Panamá, ele transferiu enormes quantias através dos bancos do Panamá, já então um paraíso fiscal criado com o beneplácito do governo e dos bancos americanos, e como era cortejado pelos bancos de Nova York. Segundo Rodriguez, “os bancos de Nova York não são bobos... o tempo todo sabiam com quem estavam lidando”. Os bancos apontados por Rodriguez compunham uma espécie de who’s who das altas finanças dos Estados Unidos: Citibank, Bank of America e First National Bank of Boston. Já a rede de TV ABC identificou o Citibank, o Marine Midland (de propriedade de banqueiros chineses de Hong Kong), o Chase Manhattan (dos Rockefeller) e o Irving Trust, além da maioria dos 250 bancos e sucursais de bancos estrangeiros em Miami como envolvidos na lavagem de dinheiro das drogas.


Além da lavagem de dinheiro, esses bancos americanos, acrescidos de instituições financeiras do Japão, Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental, Itália, França e Suíça fizeram vultosos empréstimos a países do Terceiro Mundo produtores de ópio ou coca e também a países do bloco soviético, que por sua vez, coordenavam o tráfico. Encorajar exatamente esse tipo de transações comerciais e financeiras foi um dos principais objetivos políticos sob Lenin, Stalin, Khruschev, Brezhnev e, é claro, Gorbachev. Mas encorajar tal atividade tem sido também um dos maiores objetivos da política externa americana desde 1969. Só quem é o responsável não aparece, não se sabe se são os Bancos ou grandes empresas que encorajam essa política do Departamento de Estado ou é este que incentiva aqueles.


O Crack e as “Designer Drugs”: Violência Urbana, Drogas Sintéticas de Alta Potência e o Futuro.


O crack nos EUA apareceu no início dos anos 1980 e de sua rápida disseminação pelo mundo, incluindo o Brasil [o crack é um potente derivado de uma forma de pasta de coca, chamada de base livre, liberada quando fumada]. Seu poder de “adicção”, ou viciador, é multiplicado e há casos de dependentes a partir da primeira vez que fizeram uso da droga.


Ao contrário da cocaína, o crack é uma droga barata, vendida em regiões pobres dos grandes centros urbanos. Nos EUA, imigrantes jamaicanos, haitianos e negros americanos, dominam ou disputam o controle da venda, mas também do consumo. Nas palavras do especialista americano M.M. Kirsch, o marketing do crack “é direcionado aos jovens e ignorantes”. Além disso, o crack está associado a comportamento violento. O grande número de assassinatos em disputas de traficantes, ou de viciados, em função de pequenas dívidas com os traficantes é dado comum tanto nos EUA como no Brasil. O que parece claro é que a estratégia de longo prazo das drogas, do ponto de vista comunista, não se restringe aos danos às classes médias e altas, às “elites”, mas procura destruir o tecido social inteiro dos países alvo. Nos EUA, uma grande conflagração social e étnica via guerra de gangues já é vista em capítulos diários. No Brasil, a situação não envolve origens étnicas, mas a violência resultante do tráfico do crack é igual ou maior. Para aqueles que apreciam algum grafismo na linguagem, a estratégia comunista é destruir a pirâmide social dos países alvo minando a base e corroendo o topo.


Já nos caso das drogas sintéticas modernas, isto é, pós anos 1960, os objetivos eram de obter drogas de altíssima potência e de dificílima detecção, quer em buscas ou em exames toxicológicos. Um resultado secundário dessa alta potência é a multiplicação dos lucros. Em números aproximados, um “investimento” de US$2 mil em heroína pura renderia algo próximo a US$ 1 milhão nas ruas. O mesmo investimento de US$2 mil em produtos químicos e equipamentos renderiam um quilo de 3-metil fentanil [3 mil vezes mais forte do que a morfina] aproximadamente US$1 bilhão nas ruas.


Também notável é a facilidade que os traficantes têm na obtenção de produtos químicos produzidos por grandes empresas; produtos que poderiam ser facilmente controlados pelas agências americanas, européias e japonesas. A pergunta é simples: por que não o são?


Quanto ao futuro, há um misto de desalento, considerando a total ineficácia e pura politicagem da maioria das ações governamentais americanas no combate às drogas, e a única esperança vem de algumas iniciativas relativamente recentes de divulgação das origens do problema através da mídia. O que é imprescindível é tirar a população da letargia, ou seja, que essa deixe de acreditar nas declarações perfunctórias acerca da “guerra às drogas” e comece a cobrar resultados. Mas para isso é preciso informação, é preciso saber quais são os inimigos de verdade. Não é possível lutar contra fantasmas.


Conclusão

Esta longa crônica reportagem sobre a Cocaína Vermelha foi baseada no livro “Red Cocaine, The Drugging of América” do Dr. Joseph D. Douglass Jr, consultor de assuntos de segurança, com 43 anos de experiência em políticas de defesa, tecnologia e de inteligência, tendo trabalhão para o governo americano como vice-diretor do Escritório de Tecnologia Tática da Agência de Projetos Avançados e também com vários prestadores de serviços de defesa baseados em Washington, DC.


Serviu em vários conselhos de ciência e estudos de defesa e até 1990, foi consultor e assessor de várias agências governamentais americanas e de institutos sem fins lucrativos. Recebeu seu bacharelado, mestrado e doutorado da Universidade Cornell. Lá ele lecionou e também na Escola de Pós-Graduação Naval e na escola de Relações Internacionais Johns Hopkins. Foi autor ou co-autor de vários livros e relatórios, alguns secretos. Dentre os acessíveis ao público estão: Soviet Strategy for Nuclear War (Hoover Institute), America, the Vulnerable: The Threat of Chemical and Biological Warfare (Lexington Books) e Communist Decision Making: An Inside View (Pergamon-Brassey’s).


Achei oportuno colocar o resumo no site por ser uma problemática atual com a forte tendência a crescer no futuro próximo. Apesar de afetar a sociedade como um todo, considero um assunto negligenciado pelas autoridades brasileiras e, ainda, pela sociedade, que sem políticas governamentais claras, determinadas e, principalmente, isentas e imparciais, se tornam completamente impotentes e vulneráveis.


O texto revela apenas um lado da história. Certamente muitos outros são passíveis de análise e que demandaria tempo e espaço mais apropriado para um debate. A questão deveria ser meditada e somente a busca por todos da profunda compreensão dos problemas que envolvem as drogas é poderá extirpar este mal que assolam as sociedades, tanto ricas como miseráveis, no mundo inteiro. Vale lembrar que na América Latina, só em 2010, estima-se que 50.000 pessoas, ligadas às drogas direta ou indiretamente, perderam a vida. Quer dizer, vivemos numa guerra não declarada.


Quero dizer que o todo cidadão de cultura mediana precisa procurar compreender a sociedade brasileira mais profundamente sob todos os aspectos possíveis para que possa: 1º avaliar se as medidas oficiais são eficazes diante do problema; 2º cobrar posições mais claras dos órgãos de repressão e controle; 3º sugerir e colaborar com meios que possam otimizar a eficiência dos mesmos; 4º trocar experiências com os muitos setores do conhecimento científico para prevenir, recuperar os atingidos pelo mal, quer drogados, quer traficantes; 5º devolver a população o sentido de participação, de família, e de comunidade.


Com eleições tão próximas, devemos ficar atentos às denúncias abertas de relacionamentos de partidos políticos brasileiros com guerrilhas de diversas tendências dentro do continente sul-americano. A importância do Brasil é capital dentro deste bloco que vai se formando pouco a pouco. Nossa escolha, certamente definirá a tendência dos demais e, nossa tímida experiência democrática, tão improvisada quanto confusa, ainda está muito distante de garantir aos cidadãos a manutenção das liberdades democráticas através de uma governabilidade eficaz. Aliás, é pois nossa fragilidade como civilização que nos empurra para o buraco sem fundo da alienação plena de nossa sociedade, com a completa submissão aos nossos algozes que, lamentavelmente, acabam por ser aqueles que escolhemos para nos representar junto ao parlamento.


Estas crônicas não esgotam o assunto de maneira alguma, mas, creio, que podem ajudar a desvendar os pontos sombrios deste tema a fim de atingir os objetivos propostos acima. (Ricardo Figueiredo).


Nota: estas crônicas foram embasadas na síntese de Henrique Dmyterko.