"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. E, por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

CONTRA TODA A ESPERANÇA

Título original: Contra Toda Esperanza
Autor: Armando F. Valladares
Tradução:
Editora: Intermundo (Esta obra foi originalmente publicada em castelhano por Kosmos-Editorial S.A., Panamá, 1985)
Assunto: Depoimento
Edição:
Ano: 1986
Páginas: 319
Sinopse: Este livro não é uma novela. É uma denúncia mundial. É um relato rigorosamente autêntico do que seu autor, Armando Valladares, viu e padeceu durante 22 anos de prisão -absurda e arbitrária- nos cárceres políticos de Fidel Castro.

Valladares descreve a tenebrosa prisão do castelo de "La Cabaña", onde os opositores do regime comunista são justiçados com um simples tiro na cabeça. Denuncia os campos de trabalhos forçados, onde a vida perde todo o sentido. Descreve as celas de repressão e confinamento, a maldade refinada de estilo stalinista.


Preso Político em Cuba - Calabozo en la Cabaña

Revela o funcionamento do "Centro de Exterminação e Experiência Biológica" da prisão de Puerto Boniato, a pior de Cuba, onde médicos soviéticos, alemães orientais e tchecoslovacos, junto com seus colegas cubanos, sistematicamente provocam doenças e realizam experiências psicológicas entre os presos políticos.



"No Brasil, figuras representativas da chamada esquerda católica, como o cardeal Arns, Frei Betto e Leonardo Boff chegaram a ver em Cuba comunista “sinais” do Reino de Deus onde, na realidade, o que existe é uma ante-sala do inferno. É esta a realidade que descrevo em “Contra Toda a Esperança”.

Armando F. Valladares.

Calabozo en la Cabaña


Comentário: "Preso político por 22 anos, recordista mundial de permanência entre as grades por delito de opinião, autor de um dos mais fortes e pungentes livros de memórias já engendrados pelo sofrimento injusto, Valladares tem um lugar assegurado na história do século XX entre os personagens que provaram, por sua coragem e retidão inflexível nas piores circunstâncias, a soberania do espírito livre ante as trevas do diabolismo totalitário. É alguém da estirpe de um Victor Frankl, de um Soljenítsin, de um Richard Wurmbrand; alguém cuja qualidade moral está acima de todas as controvérsias políticas e do qual ninguém tem o direito de falar senão com o devido respeito." (Olavo de Carvalho)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

OS DEMÔNIOS

Título original: BiêsiAutor: Fiódor Mikháilovitch Dostoievski (1821-1881)
Tradução: Paulo Bezerra (Tradução do original russo)
Assunto: Romance - Literatura estrangeira
Editora: 34
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 704

Sinopse: Os demônios é um romance essencial para compreender a mente revolucionária, a mentalidade de radicais políticos de todos os matizes e, sobretudo, para compreender uma das mais nefastas criaturas políticas de todos os tempos: o terrorista. O romance é essencial, também, para compreender o utopista ideológico ateu (Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski) que produz o revolucionário prático (Piotr Stiepánovitch).

Inspirado por um episódio verídico ― o assassinato do estudante I. I. Ivanov cometido na Rússia por um grupo niilista liderado por S. G. Nietcháiev em 1869 ―, Dostoiévski faz a anatomia ficcional do fanatismo ideológico, antecipando muito dos horrores dos séculos seguintes, do stalinismo ao fundamentalismo que amedronta o mundo hoje.

O livro trata, também, da redenção do homem ateu (Stiepan) que pretendeu divinizar o mundo e ao final da vida descobre Deus e reconhece que viveu uma ilusão durante toda a sua existência. É o encontro do ateu com Deus.

Este livro é recomendado a todos aqueles que desejam compreender a gênese das idéias revolucionárias e utópicas (Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski) até o aparecimento de um louco (Piotr) que pretende colocá-las em prática originando mais tarde os horrores do marxismo-leninista que vitimou mais de cem milhões de pessoas em todo o mundo. E por que disso? Porque a mente revolucionária dos utopistas pensa que é possível matar Deus e destruir a realidade do mundo existente para colocar em seu lugar um homem novo e um mundo novo, ambos construídos por eles.

José Monir Nasser diz que a obra é “um bisturi afiado dissecando a mente revolucionária”.

Comentários sobre o autor e sua obra:

Dostoievski publicou Os demônios dez anos antes de morrer. Trata-se de um romance a fazer parte do quarteto que compõe o ápice de sua carreira. Os demônios é, de fato, uma referência inevitável no crepúsculo de uma carreira que não conheceu crepúsculo, antes, chegou ao limite no seu máximo, embora o sujeito Fiódor Mikháilovitch já sucumbisse a uma existência torturada tanto pela doença (epilepsia), quanto pelos problemas mais agudos como o vício do jogo, as dívidas altas e recorrentes, a viuvez, a morte de um filho, a prisão e a condenação à morte (da qual se salvou não sem trauma).

Falar em Dostoiévski é falar no romance bruto, no sentido mais metafórico e, simultaneamente, justo para o gênero. Seus temas, seu estilo, nervoso, fundos até a exaustão das figuras e das circunstâncias que as engolem, representam para a ficção moderna uma retomada narrativa que antes dele se dava de forma quase plana. Dostoiévski antecipa Freud, sem as explicações deste, mas com todas as doenças da alma expostas sem piedade, nas ruas, pensões, salas, quartos, salões, e até mesmo numa poltrona; sem conforto ou com conforto, seus protagonistas sofrem o dilema de carregarem o peso de si mesmos.

É de se recortar do romance a morte irrepetível de Chátov (Toda morte é irrepetível, e isso não é metafísica barata. Em Dostoiévski esta máxima, a do irrepetível, se cumpre praticamente de cinco em cinco páginas). Todos são protagonistas, tudo é protagonismo, e o cenário envolve como uma camisa-de-força os seres que cumprem à risca os papéis menos recomendáveis, como Kirillov, uma bomba ambulante, Stavróguin, aristocrata, vendo o mundo de cima e quase cuspindo nele, Piotr Stiepánovitch, que lidera a revolução que prega com a obsessão dos líderes frente aos quais nenhum argumento cala e todo adversário sabe ou saberá, bem cedo, o tamanho da sentença com que Piotr Stiepánovitch responde a qualquer contrariedade.

A dimensão política somada à religiosa faz seu nicho e o que é clamado em nome da sociedade termina por escravizar cada homem.

Um detalhe importante. No Brasil saíram algumas traduções anteriores do livro. Muitas com o título de Os possessos. Paulo Bezerra, que traduziu o livro diretamente do russo, diz que chamar de possessos ao grupo das personagens da obra é tirar-lhes a dimensão demoníaca. E eu acrescento que não há possessão, há demonização expressa nos atos de homens que já não consideram a espiritualidade como única possibilidade humana para levá-lo a verdadeira felicidade que só pode ser encontrada em Deus. O diabo não é inimigo de Deus, porque Deus não tem inimigos. O diabo é inimigo dos homens. Portanto, é preciso combatê-lo.

Enfrentar um romance desse naipe é cair na sua realidade, é o pesadelo das atrocidades que vêm se somando com Lênin, Stálin, Mao tse-tung, Pol Pot, Fidel Castro, entre outros. E não são esses ases do terror os únicos demônios. Há outros, notadamente os que estão sendo produzidos aqui no Brasil e na América Latina.

Portanto, há demônios entre os homens e homens entre os demônios, e a aliança se faz quando os demônios intentam destronar Deus, divinizar a humanidade e o Estado e criar o Brave New World.

Quando o ser humano diviniza o mundo real, o Estado e a sociedade, tudo perde o sentido. A vida de cada um de nós tem que ter um sentido e este sentido precisa ser interior e jamais exterior. Nós é que não queremos enxergar, ou, se enxergamos, onde está a força de espírito para encarar o monstro e extingui-lo em nome de uma humanidade que mereça seu nome?


segunda-feira, 13 de julho de 2009

O RINOCERONTE

Título original: Le Rhinocéros
Autor: Eugène Ionesco
Tradução: Luís de Lima
Editora: Abril Cultural
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1976
Páginas: 236

Sinopse: Ionesco conta a história de uma cidade pacata que se transforma completamente após a passagem de um rinoceronte por suas ruas. À medida que a origem do paquiderme é discutida e em alguns casos rebatida, ele, misteriosamente vai se proliferando de maneira incontrolável, até finalmente notarmos que os próprios cidadãos da cidade vão aos poucos se metamoforseando em rinocerontes. Nas entrelinhas, é claro que o rinoceronte vem simbolizando o conformismo na qual a sociedade esta estacada. Essa metamorfose sofrida pelos habitantes é uma analogia ao processo continuo de mediocrização que a sociedade vem sofrendo há tempos, um processo que nos dias atuais vem se agravando.

Enredo: Num dia comum, irritantemente comum, de uma cidade comum, onde nada acontece, a não ser um diálogo estúpido de homens que não sabem o que fazer de suas vidas, um rinoceronte enche de poeira uma rua. E causa espanto.

Conversando calmamente num café, as pessoas de repente são sacudidas pela estranha visita, sentem-se ameaçadas, procuram compreender. Nesse mesmo instante, o rinoceronte ainda é inadmissível. Alguém alega que as autoridades não deveriam permitir a visita desse tipo de animais à cidade. Outros procuram raciocinar sobre a hipótese de tudo não passar de sonho. Outros não dão a menor importância, imersos que estão em seu diálogo ridículo.

Bérenger conversa com Jean e não se abala com o estranho fato. Preocupado com seu amor por Daisy e ciumento de Dudard, colega de escritório, ele mal se ocupa de olhar o animal.

Jean dá lições de moral a Berenger, enquanto um senhor idoso conversa sobre silogismos. Pouco a pouco, as frases desencontradas das quatro personagens vão se encontrando e se alternando. O autor ridiculariza, aí, o desentendimento entre as pessoas, a falsa cultura que Jean pretende impor a Bérenger e a falência do raciocínio lógico.

Reaparece o rinoceronte, tempestuosamente, e o grupo discute então o número de chifres do animal: “Bicórnio ou unicórnio?” Em função desse número levanta-se a relação com a origem do rinoceronte: “Da Ásia ou da África?”

Mas qual seja a sua origem, qual seja o número de chifres que ele tenha, um gato é esmagado por sua violência e o perigo, finalmente, se faz notar. Já no segundo ato, o rinoceronte é o centro das atrações e do medo. No escritório onde trabalha Bérenger, comenta-se a atuação do animal. Botard, personagem caracteristicamente científico e metódico, não acredita na existência do animal. Acha que não passa de delírio. É claro: trancado dia e noite em sua atividade burocrática, ele certamente não teria tempo de observar os fatos da cidade. Mas, além disso, suas inclinações políticas levam-no a ver nos rinocerontes uma trama das “forças ocultas”. Botard aponta a necessidade de se “desmascarar os traidores”, desfilando uma série de slogans que trai sua condição de político demagogo.

Também no escritório o pânico se instala quando surge a Sra. Boeuf, esposa de um dos funcionários, dizendo que seu marido está doente e que ela vem sendo perseguida desde sua casa por um rinoceronte. Daisy chama os bombeiros – e estes são outra obsessão de Ionesco, surgindo sempre como a salvação vinda de fora –, enquanto Botard não acredita que os urros da fera escutados por todos sejam de qualquer rinoceronte.

Mas a besta que seguia a Sra. Boeuf é nada menos que seu próprio marido metamorfoseado. Como o dever da mulher é sempre seguir o seu homem, a Sra. Boeuf monta no dorso do imenso rinoceronte e desaparece com ele.


Os rinocerontes proliferam. Ninguém mais pode duvidar de sua existência. Nem o cético e metódico Botard. Um a um, todos os cidadãos estão sofrendo o lento processo de metamorfose em rinocerontes, Aos poucos os cidadãos perdem a pele lisa, a fala, a humanidade.

A transformação se dá também no gosto em certo tipo de afirmações como, por exemplo, a de uma personagem que diz preferir os veterinários aos médicos. Quando Bérenger visita Jean, que se diz doente, a doença já é o início da metamorfose. Nem Jean nem Bérenger pensam – logo no início do diálogo dessa cena – que aquela doença já é a “rinocerontite”. Mas as frases vão se encadeando de tal forma que o espectador, sem perceber, acabará assistindo à trágica mudança que já não será considerada anormal.

Quando Jean se transforma, Bérenger compreende o perigo. Tortura-se com a sua impotência diante da progressiva metamorfose da cidade. Todos sucumbem sem resistir [igualzinho ao Brasil sob os governos comuno-socialistas de FHC e do apedeuta Broncus Rex]. Até Dudard acaba aderindo porque não vê sentido na resistência. O próprio Botard, que se orgulhava de seu espírito minucioso e científico, que fazia a apologia do método e da razão, que via nos rinocerontes uma “maquinação infame”, acaba por torna-se um deles.

Bérenger sente-se cada vez mais só. Daisy, seu amor, é uma grande alienada. Nada a preocupa, nada a impressiona, nem a possibilidade de pegar a rinocerontite. Desfila frases feitas, cuida de Bérenger como se fosse uma criança, e lhe parece muito estranho que seu namorado tenha uma posição tão frontalmente antagônica aos rinocerontes. No fim acaba aderindo como todos os outros.

Resta esse herói surpreendente: Bérenger. Desleixado, negligente, tímido, humilde, generoso. É o homem comum. Ele assume o risco de enfrentar o mal apear de suas armas serem frágeis. Pesa-lhe um vago sentimento de culpa por não saber se está certo ou errado, pois não tem argumentos de ordem intelectual que possam justificar sua insólita posição. Mas na sua determinação medrosa ele é capaz de resistir sozinho: “Eu me defenderei contra todo o mundo... Eu sou o último homem... Não me rendo”.

[Foi assim que o nazismo de Hitler entrou na Alemanha, e é assim que o comunismo dos esquerdopatas está se instalando no Brasil: pela rinocerontite.]
Esta obra é uma crítica a todo o pensamento totalitário - igual a esse que os dois últimos governos implantaram no Brasil - que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer tipo de oposição.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ESTUPIDEZ ERUDITA

Dados Técnicos: MISSA NEGRA - Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias
Autor: John Gray
Tradução: Clovis Marques
Assunto: Ciências sociais e Ciências políticas
Editora: Record.
Ano: 2007
Páginas: 350

O seu grande mérito consiste em notar que a política contemporânea de massas adquiriu essa faceta de substituta das religiões tradicionais. O que Gray não percebeu é que a imitação não é a obra genuína: o arremedo grosseiro não pode tomar o lugar da religião revelada. Na verdade, o recuo desta é que permitirá ao poder mundano assumir sua forma caricatural e mortífera, ao fazer do Estado o deus redentor das massas, desde o início do século XX.

Classificado por muitos como um dos maiores cientistas políticos vivos e a cabeça pensante que norteia ao menos os mandatários britânicos das últimas décadas, John Gray é professor de Pensamento Europeu na London School of Economics e colunista do jornal britânico The Guardian. O autor já tem vasta obra publicada, parte dela já traduzida para o português, com destaque para o aclamado Cachorros de Palha. Gray é um pessimista ateu, que acredita que a humanidade não ocupa lugar de destaque no universo. Esta crença deriva da sua hostilidade ao cristianismo e vai fundamentar toda a sua análise política.

O resumo que eu faço do livro MISSA NEGRA - Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias consiste em uma frase: estupidez erudita. Não obstante, o livro tem méritos, ao levantar questões cruciais e pertinentes, sem as quais não compreenderemos os tempos atuais, principalmente os fatos políticos de bastidores dos EUA e da Inglaterra até a segunda guerra do Iraque, tão bem descritos no livro. Faz também um notável trabalho de historiador do que aconteceu nos tempos recentes.

Gray começa o livro com a seguinte frase: "A política moderna é um capítulo da história da religião". Como sublinhei acima, a palavra religião não é lisonjeira nos seus escritos. O seu grande mérito consiste em notar que a política contemporânea de massas adquiriu essa faceta de substituta das religiões tradicionais. O que Gray não percebeu [ou não quis perceber] é que a imitação não é a obra genuína: o arremedo grosseiro não pode tomar o lugar da religião revelada. Na verdade, o recuo desta é que permitirá ao poder mundano assumir sua forma caricatural e mortífera, ao fazer do Estado o deus redentor das massas, desde o início do século XX.

Ele escreveu: "A história do cristianismo é uma série de tentativas de chegar a bom termo com essa (a de Cristo) experiência fundadora de decepção escatológica" (o anúncio do novo reino iminente). Aqui está a "acusação" principal e a incompreensão mais aguda do que seja o cristianismo. O autor nota que o discurso político contemporâneo consiste na promessa de salvar a humanidade por meio da política, de fazer cumprir a promessa escatológica aqui e agora. Piormente, consiste em assumir que certas formas institucionalizadas das democracias liberais consistem no suposto Fim da História (Fukuyama), tese que Gray repudia fortemente. Aqui ele está certo.

A essência do seu pensamento deságua no relativismo político e cultural, ao que denominará erroneamente de realismo. Esse engano deriva de uma grande lacuna teórica, vez que Gray não tem instrumentos para compreender o caráter gnóstico salvacionista dos movimentos políticos modernos, fatos por ele mesmo apontados, mas insuficientemente analisados. Sua lacuna teórica deve-se à superficial apreciação que ele fez da obra de Eric Voegelin, que mereceu no livro apenas uma única citação. Como se sabe, Eric Voegelin não apenas investigou à exaustão o fenômeno da gnose salvífica na política, como também deu a ele a resposta teórica adequada. O que sobra em Voegelin falta em Gray, embora este autor nunca perca de vista o paralelo entre o movimento político e o fato religioso.

Os surtos de matança citados no livro nos ligam diretamente à definição do mal e do que seja o homem. O problema do quilialismo (ou milenarismo, termo pelo qual o fenômeno é mais conhecido) é conseqüência da deformação da mensagem revelada: o cristianismo jamais pregou que a perfeição coletiva e mesmo individual aconteça neste mundo, ficando esta perfeição como meta para o Além. Os milenaristas querem a perfeição imediata, usando a engenharia social. Já o cristianismo tradicional, quando muito, incita a cidade dos homens a tentar imitar a cidade de Deus. Os gnósticos é que procurarão a perfectibilidade do homem e a salvação aqui e agora pelos instrumentos do Estado, algo inviável e sacrílego. Ao falar em "missa negra", o autor acabou acertando no título, mas não teve como alargar a sua compreensão dos fatos políticos por não compreender que a perversão do cristianismo só existe porque existe também a sua versão integral, correta.

Seu erro consiste em se apoiar teoricamente em dois autores equivocados para sustentar o que ele mesmo chama de realismo político: Maquiavel e Keynes. Ora, o descenso moral da obra do primeiro nada tem de realista enquanto tal. Maquiavel não apenas representa a degeneração moral manifesta no sonho moderno de aperfeiçoar o mundo pela conquista do poder político, sendo ele mesmo o inspirador do quilialismo de todos os revolucionários. A obra de Maquiavel pressupõe um elemento metafísico que, à falta de melhor termo, chamou de Fortuna (alusiva à Roda da Fortuna, do Tarô), algo que Gray, materialista, desconsidera.

O segundo autor, Keynes, que ele contrapõe a Hayek em economia, realizou a mesma tarefa que Maquiavel na ciência econômica, ao colocar o Estado como o centro aperfeiçoador da sociedade e instância eliminadora das crises econômicas cíclicas. O século XX foi o século de Keynes. A gravidade da atual crise econômica é resultado do triunfo de suas teorias, que fizeram os governantes abandonarem precisamente o real, o mundo como ele é, pondo em troca o voluntarismo estatal. À mão invisível de Adam Smith as teorias de Keynes pretendem precisamente ser antídotos para as crises pela força da mão visível do Estado.

Se é óbvio que o quilialismo à esquerda é mais notório e inegável, não é tão óbvio que o mesmo fenômeno se passa à direita do espectro político. Isso porque a chamada direita tem ainda no seu ideal de ação restos da tradição, que lhe impõem travas morais no exercício do poder. Mas Gray quer nos convencer que os supostos crimes de Bush, Thatcher e Blair têm parentesco com os crimes passados dos coletivistas no poder, em especial aqueles da primeira metade do século. Isso é uma evidente má fé intelectual. Leiamos o seguinte trecho: "À medida que se tornava mais militante, a direita utópica também se tornava menos secular, e em seu apogeu na América apresentava muitas das características de um movimento milenarista".

Aqui, Gray ataca a ação no Iraque e todas as medidas preventivas tomadas contra o terrorismo internacional. Seu argumento é que a intervenção no Iraque tinha como pano de fundo messiânico implantar a democracia naquele país. Gray defende o relativismo cultural e político - chamando a isso de realismo - e no texto fica implícito que a manutenção de Saddam no poder, bem como tolerar a tirania nos países não ocidentais, seria ato desse realismo político. Ora, aceitar esse relativismo é um engano brutal. A guerra no Iraque era necessária inclusive como forma de dissuasão dos Estados delinqüentes que apoiavam ostensivamente o terrorismo. A superioridade das instituições e dos valores ocidentais não pode ser contestada. O exemplo do Japão no Pós-guerra é o mais paradigmático do fato de que essas instituições podem ser adaptadas em qualquer parte.

Concluiu: "Em sua militante fé no progresso, a direita aceitou uma corrente radical do pensamento iluminista que renovava, sob novas formas, alguns dos mitos centrais do cristianismo". Direita e cristianismo tornam-se assim sinônimos. Gray, todavia, não distingue o cristianismo reformado (iluminista) que comanda os EUA e a Inglaterra, da Tradição ocidental. Por isso pôde dizer, de forma sofistica, que os governos de direita tornaram-se algo menos secular, como se nos EUA de Bush tivéssemos um núcleo clerical.

Boa parte da obra John Gray gasta na discussão dos fundamentos teóricos da política dos governantes da direita, como Reagan, Bush, Margaret Thatcher e Toni Blair Seu primeiro grande erro foi não diferenciar o discurso desses governantes de sua ação política. Na prática, esses governantes foram keynesianos em economia e maquiavélicos na ação de política externa, praticando aquilo que Gray recomenda: uma suposta política realista. Não diferenciar ação de discurso é um erro elementar em um investigador sério.

Gray tangencia a má fé quando analisa a obra de Leo Strauss, a quem contesta duramente, como o faz a Hayek, tentando provar que o neoliberalismo é uma utopia do livre mercado. Ignora que o mercado é uma realidade dada, e não uma ideologia. A esses autores ele associa todos os equívocos dos governantes, impingindo-lhes o mesmo caráter messiânico óbvio nos coletivismos escancarados, como o comunismo e o nazismo. E aqui temos o segundo erro catastrófico do autor: não perceber a estrutura social do Ocidente como ela está construída, como uma ordem coletivista, mercantilista, socialista, edificada sob a efígie das idéias de Rousseau. No dizer famoso de Peter Drucker, os EUA são hoje um socialismo-fundo-de-pensão. A democracia de massas assassinou o sentido da hierarquia social e transformou o Estado em babá de vastas corporações de desocupados, dependentes de mesada estatal. Por não ver o real é que realismo de John Gray se revelou um verdadeiro ouro de tolo. A suposta direita governou em bases socialistas e as alargou.

Mas sua crítica a Strauss é profunda, embora errada. Ele mostra o essencial do autor alemão: o resgate do direito natural clássico, a idéia de que a razão não é senhora e nem fundamento da moral, que a revelação é condição principal para se perceber o real. Quando insinua que Strauss não escreveu tudo que pensava tem certa dose de razão. Strauss viu o que Ortega y Gasset viu, a insustentabilidade da democracia representativa nos termos em que está construída. Ela patrocina a rebelião das massas, leva ao niilismo e ao socialismo. Mas isso Strauss não precisava escrever, está implícito na sua obra.

O auto denominado realista John Gray se revela inteiro ao final, o progressista que é. Ele defende que o grande perigo para a humanidade é o famigerado aquecimento global e que os governos deveriam aderir ao Protocolo de Kyoto. Na prática, está advogando pelo governo mundial, contrariando sua apaixonada defesa da autodeterminação das tiranias não ocidentais. Ou será que sua idéia de governo mundial só terá jurisdição sobre o Ocidente? Ora, a grande verdade que foi desvelada nos últimos meses é que a humanidade não corre risco algum com as naturais flutuações climáticas. Nem sequer corre riscos com uma ou outra incursão guerreira de suas potências dominantes, sejam estas da Rússia, da China ou dos EUA. Falando em linguagem crua, pouca diferença faz que aconteça uma pequena guerra na Geórgia, no Tibete ou no Iraque. O grande perigo está no uso do Estado como instrumento para a impossível eliminação do risco existencial. A crise está aí para nos ensinar essa dura lição.
Nivaldo Cordeiro
(Publicado originalmente no número 3 da revista Dicta&Contradicta).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O SURGIMENTO DO IMPÉRIO NEOCOMUNISTA *

Título original: Lies, Terror, and the Rise of the Neo-Communist Empire: Origins and Direction
Autor: Toby Westerman.
Editora: AuthorHouse.
Assunto: Comunismo, política.
Edição: 1ª
Ano: 2009 (April)
Páginas: 231

Resenha do livro:

Mentiras, Terror e o Surgimento do Império Neocomunista – Origens e Direção

Os que não caíram na artimanha de que o comunismo morreu, vão encontrar neste livro uma valiosa ferramenta para apoiar sua posição. Os que ingenuamente acreditaram no mito de que João Paulo II e Ronald Reagan derrotaram o comunismo dando prestígio e dinheiro a Lech Walesa, vão encontrar neste livro clara comprovação de que o comunismo nunca morreu, só mudou seu rosto para avançar mais.

Baseado em notável quantidade de informações confidenciais retiradas de seus arquivos, como expert em política internacional Toby Westerman oferece aos seus leitores um amplo mapa da atividade comunista contemporânea. Isto é apresentado em estilo atraente, que torna a leitura desse grave tema como se fosse uma novela policial.

A “nova” face do comunismo russo Westerman começa descrevendo como a atuante rede de espionagem comunista era forte – ironicamente, ao mesmo tempo em que Boris Yeltsin pronunciava seu dramático discurso diante do Congresso dos Estados Unidos (17 de junho de 1992), assegurando ao mundo que o comunismo estava morto e que a Rússia havia adotado os princípios sócio-econômicos do Ocidente moderno. O Autor especifica que enquanto Yeltsin nos garantia que “a liberdade não seria enganada”, em torno de 700.000 espiões comunistas trabalhavam no mundo todo para continuar a expansão de suas idéias.

De fato, muitos símbolos antigos do comunismo foram abandonados e muitas instituições foram fechadas. Sem embargo, isto se deu não tanto porque seus líderes haviam mudado de ideologia, mas porque essas instituições estavam obsoletas e o povo já não seguia seus chefes. Se bem que esse fracasso geral deu a aparência de uma mudança nas idéias, o Autor sustenta que, na realidade, isso se passou para convidar os capitalistas para entrarem na Rússia e restaurarem sua economia. Desde então, operou-se um forte aumento dos investimentos ocidentais que ingressaram na falida economia comunista e lhe deram nova vida.

No entanto, oito anos mais tarde, como o desastre econômico começou a ser resolvido, Vladímir Putin ganhou as eleições (março de 2000) e começou novamente a construir e reinstalar as instituições comunistas que haviam sido abandonadas. Ex-agente do KGB, Putin trabalha para restaurar a infame agência. O mesmo pessoal, os mesmos métodos — espionagem, perseguição, assassinatos — continuam sendo aplicados contra aqueles que de alguma maneira ameaçam o regime. De maneira significativa — e Westerman o documenta muito bem — Putin também anseia pelo retorno da URSS.

No fundo, o Ocidente é o facilitador para que o comunismo continue. É o que ainda hoje acontece. O comunismo continua, mas com sua face metamorfoseada. O que há de novo nessa face? Em cada parte do mundo assume características peculiares. Na Rússia, abandonou o estilo comunista stalinista para retornar aos métodos de Lênin.
Lênin em 1922, ano em que iniciou sua Nova Política Econômica
Muitas pessoas hoje em dia esqueceram que depois do golpe bolchevique de 1917 o comunismo fracassou em sua gestão do Estado. Então Lênin introduziu sua Nova Política Econômica (NPE), que permitiu em alguma medida a propriedade privada. A adoção dessa política — apoiada por importante segmento dos meios de comunicação capitalistas — convenceu o Ocidente de que o comunismo havia fracassado e que, portanto, o melhor a fazer seria ajudar Lênin a reparar os danos. Bem sabemos como essa estratégia serviu para sustentar o comunismo.

Westerman argumenta que a mesma tática de mudança de face foi usada mais tarde, depois da queda da Cortina de Ferro.

Pontos não negligenciados: a Rússia nunca deixou de apoiar as redes do terror que operam a partir do Irã, Síria, ou Venezuela; nunca deixou de reforçar os vínculos com os déspotas de estilo soviético do Casaquistão, Kirguistão, Uzbequistão, Turquimenistão, Tadjiquistão, Coréia do Norte e Cuba; nunca deixou de pressionar a Ucrânia e a Geórgia para retornarem ao seu âmbito de influência. Isto só para mencionar alguns poucos fatos dentre os citados pelo Autor em seu livro, e que são normalmente silenciados pelos meios de comunicação.

O “novo” comunismo com características chinesas

A viagem de Nixon à China em 1972 possibilitou o boom econômico chinês


Depois de analisar o “novo” rosto do comunismo na Rússia, Westerman passa a tratar da China. Em primeiro lugar, demonstra que carece de substância o velho mito de que a Rússia e a China são adversárias. Em seguida analisa o novo boom econômico chinês, aberto ao livre mercado, propiciado por Nixon. Na realidade, hoje em dia o mercado na China está controlado pelo governo, e seu êxito se deve à combinação de três fatores:

1. Uma constante injeção de dinheiro;

2. A introdução de sofisticadas tecnologias do Ocidente;

3. Uma enorme força de trabalho escravo interna.

Também demonstra como o Ocidente é ingênuo ao acreditar que a economia de livre mercado necessariamente derrotará o comunismo na China. O Autor demonstra que precisamente o oposto é que é verdadeiro. O Ocidente está proporcionando à China os meios para converter-se em um gigante que já está ameaçando econômica e militarmente os Estados Unidos.

Como responderam os Estados Unidos a esta ameaça? A administração Bush decidiu que para equilibrar o rápido crescimento da China, os Estados Unidos deveriam canalizar assistência econômica para os comunistas do Vietnã e oferecer-lhes prioridades comerciais...

O comunismo avança por meio de eleições na América Latina

O Autor mostra que o novo objetivo do comunismo é implantar governos vermelhos através de eleições democráticas. Este é a nova face do comunismo na América Latina. Analisa em detalhe o caso da Venezuela e mostra como Hugo Chávez promove o comunismo sob o nome de Revolução Bolivariana.
Chávez, Morales e Correa usaram a via eleitoral para chegar ao poder.

Também assinala os vínculos entre Chávez e as guerrilhas colombianas Farc, e como Chávez ajudou Rafael Correa a ser eleito presidente do Equador. Além de tratar do caso Chávez, menciona outros presidentes vermelhos que chegaram ao poder através de eleições: Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina, Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, Tabaré Vasquez no Uruguai.



Evo Morales e Mahmoud Ahmadinejad


Westerman também chama a atenção para as relações cordiais ou tratados econômicos e militares de Chávez com a Rússia, China, Cuba, Nicarágua, Coréia do Norte, Síria e Irã. Isto é parte do novo império ao qual se refere no título de seu livro.

O autor também se ocupa em destacar o perigo que Cuba representa para os Estados Unidos e fundamenta suas palavras com interessante informação sobre a atividade de espionagem realizada pela ilha comunista para infiltrar-se nos EUA. Ao concluir sua análise da “Tormenta Vermelha Latino-Americana”, coloca sua atenção sobre a eleição do marxista Daniel Ortega na Nicarágua.

Islã e terrorismo


Um breve capítulo é dedicado a verificar a continuidade histórica da oposição militante islâmica contra o Ocidente e seu milenar ressentimento contra as Cruzadas. Esta rápida descrição pretende preencher o vazio que se fez sobre este tema nos meios de comunicação, livros e ambientes acadêmicos. Também faz uma rápida e indireta vinculação entre o terrorismo atual e o comunismo.

A esquerda norte-americana e a mídia


Todas as diversas frentes do comunismo atual têm um inimigo comum: os Estados Unidos como representante do capitalismo. Elas têm uma forte aliança com a esquerda norte-americana. Se bem que o Partido Comunista tem uma pequena influência na vida política desse país, não se pode dizer o mesmo com relação à influência dos meios de comunicação e da esquerda política. No que concerne à mída, Westerman reproduz documentação histórica que mostra como ela apoiou Lênin na Rússia, Mao na China e Castro em Cuba. Encontramos sempre a mesma cumplicidade com o mais perigoso inimigo norte-americano, o comunismo. Com respeito à esquerda, uma forte influência política foi dada aos comunistas desde o final do governo de Franklin D. Roosevelt. De fato, vários dos mais influentes membros de seu gabinete eram espiões de Moscou. Desde então, o broto vermelho lançou raízes cada vez mais profundas na política norte-americana.

Mitificação de um assassino transformado em herói pela mídia

Para fomentar o comunismo nos EUA, um importante papel foi desempenhado pelas estrelas de cinema e produtores de Hollywood que promoveram heróis antiamericanos como Che ou anti-heróis como o casal Rosenberg — condenado à morte por vender segredos atômicos para a URSS.

O autor aponta a “reabilitação” do infame casal como grave sintoma da debilidade no senso de autodefesa norte-americano.

Tampouco subestima o enorme esforço antibelicista dos ambientes acadêmicos e movimentos pacifistas impulsionados pela mídia esquerdista que tem por objetivo desalentar as tropas que estão sacrificando suas vidas para salvar o país combatendo o terrorismo. A poderosa coalizão de norte-americanos que promovem sentimentos contrários ao seu próprio país não é apenas algo contraditório e vergonhoso, como também é muito perigoso.

A plataforma pacifista norte-americana também é promovida pelos novos líderes comunistas mencionados anteriormente. Um exemplo simbólico: Hugo Chávez recebeu a celebridade antibelicista Cindy Sheeman com todas as honras em seu palácio de governo. Depois posou para as câmeras abraçando Cindy e Elma Rosado, a viúva do líder terrorista de Porto Rico, Ojeda Rios. Ojeda foi morto em 2005 por agentes norte-americanos depois de um milionário assalto bancário e de destruir onze aviões de combate da Guarda Nacional Aérea em Porto Rico. Chávez e as duas mulheres se abraçaram no transcorrer da realização do Foro Mundial Social reunido em Caracas. O terrorismo e o pacifismo se entrelaçaram no abraço de Hugo Chávez, um gesto que fala por si mesmo...


O terrorismo e o pacifismo entrelaçados com a Revolução Bolivariana. São 3 tentáculos de uma mesma hidra.

Westerman termina sua obra com um apelo aos norte-americanos para que tomem consciência do que escondem os meios de comunicação. Também os convida a tomar medidas para deter o inimigo central denunciado em seu livro: os cúmplices norte-americanos do comunismo.

Seu livro proporciona um amplo e abrangente panorama, como também muitos fatos e fontes que vale a pena conhecer, e perspectivas históricas que ajudam a compreender a situação atual.[1]
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NOTAS:

[1] O livro Lies, Terror and the Rise of the Neo-Communist Empire pode ser comprado em International News Analysis.
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* Artigo publicado no site católico norte-americano Tradition in Action sob o título The Rise of the Neo-Communist Empire.

Tradução: André F. Falleiro Garcia.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

QUEIMADA ! OBRA-PRIMA DA VIGARICE

Título Original: Queimada !Gênero: Drama
Atores: Marlon Brando, Evaristo Marquez, Renato Salvatori, Norman Hill.
Diretor: Gillo Potecorvo
País: Itália e França
Ano: 1969
Duração: 112 min.

Sinopse propagandistica: QUANTO MAIS SANGRENTA É A BATALHA, MAIS ALTO É O PREÇO.

Uma ilha do Caribe na metade do século XIX. A natureza fez um paraíso aqui; o homem o transformou em inferno. Escravos de vastas plantações de açúcar dos portugueses estão prontos para transformar sua miséria em revolta - e os britânicos estão prontos para despejar a última gota d'água. Eles enviam o agente William Walker (Marlon Brando) em uma missão tripla e desonesta: convencer os escravos a se rebelarem, tomar o comércio de açúcar para a Inglaterra... e restabelecer o regime de escravidão.
Os temas do colonialismo e da insurreição são explorados no épico Queimada!. Com visual e narrativa impressionantes, Queimada! tem o brilho de um diretor genial. A genialidade também é evidente na interpretação complexa e inteligente que Marlon Brando faz de um homem que é, ao mesmo tempo, um cavalheiro e um patife, revolucionário e colonialista. E a música marcante de Ennio Morricone (o mesmo de Os Intocáveis e A Missão) é o acompanhamento perfeito de um roteiro tão forte.
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"Queimada" é uma verdadeira aula de interpretação marxista da História, tanto mais persuasiva porque compõe com detalhes históricos bastante exatos um conjunto perfeitamente ilógico, cuja absurdidade só aparece quando o espectador, se advertido - o que raramente acontece -, se dá conta dos pontos essenciais astutamente omitidos."

Análise de Olavo de Carvalho: "Queimada", dirigido em 1969 por Gillo Pontecorvo e estrelado por Marlon Brando, Evaristo Marquez e Renato Salvatori, é um dos pontos altos do cinema comunista italiano - uma espécie de segundo neo-realismo, nascido nos anos 60 sob a inspiração de uma década e meia de leitura das obras de Antonio Gramsci pelos intelectuais militantes, tanto do PCI quanto das organizações maoístas e trotsquistas. A escola, intelectualmente sofisticada, de uma coerência ideológica e estratégica notável, foi inaugurada por "O Bandido Giuliano", de Francesco Rosi, e "O Assassino", de Elio Petri (ambos de 1961), e, com a ajuda do esquema de propaganda de Hollywood, veio a alcançar sucesso internacional ainda maior que o do que seu antecessor do imediato pós-guerra, muito menos uniforme ideologicamente.Outros marcos na história desse movimento foram "Accatone", de Pier Paolo Pasolini (1962), "A China Está Próxima", de Marco Bellocchio (1967), "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", de Elio Petri (1969), "O Conformista", de Bernardo Bertolucci (1970), "A Classe Operária Vai ao Paraíso", de Elio Petri (1971) e "O Caso Mattei", de Francesco Rosi (1972).

A tônica desses filmes é mostrar a sociedade capitalista como uma infernal engenhoca protofascista de dominação, fundada na alienação das consciências, na prática endêmica da violência real e simbólica e na desinformação sistemática das multidões. Não há mal, desde a criminalidade até os amores fracassados e as doenças mentais, que aí não seja atribuído à ação maligna e camuflada da elite capitalista. Com um estilo narrativo frio e impessoal, evitando com cuidado o tom abertamente propagandístico e simulando investigação documentária dos acontecimentos (recurso usado com outros fins pelo primeiro neo-realismo), a escola consegue dar ares de pura realidade às mais prodigiosas falsificações históricas e sociológicas, ludibriando as multidões de patetas que guincham e se retorcem de prazer diante dessas coisas nos festivais de cinema como macaquinhos eletrizados por uma máquina de orgasmos.

"Queimada" é uma verdadeira aula de interpretação marxista da História, tanto mais persuasiva porque compõe com detalhes históricos bastante exatos um conjunto perfeitamente ilógico, cuja absurdidade só aparece quando o espectador, se advertido - o que raramente acontece -, se dá conta dos pontos essenciais astutamente omitidos.

A história é a seguinte. Em 1815, Sir William Walker (Marlon Brando), guerreiro e agente secreto mercenário, é contratado para armar um golpe de Estado na ilha de Queimada, colônia portuguesa, e, sob o pretexto de republicanismo e abolição da escravatura, transferir da monarquia portuguesa para uma companhia privada britânica o monopólio da produção local de açúcar. Ele realiza seus objetivos por meio de três operações sucessivas e articuladas: primeiro, uma rebelião de escravos, artificialmente fomentada para desestabilizar o governo local, encenada sob a liderança do negro José Dolores, que o próprio Sir Walker adestra para isso; segundo, a tomada do poder por um grupo de intelectuais e políticos ambiciosos, insatisfeitos com o regime colonial e chefiados por um idealista bocó, Teddy Sanchez; terceiro, a instalação de um regime republicano liberal e corrupto sob a presidência de Teddy Sanchez, com a conseqüente assinatura de uma cessão de direitos para a exploração da cana-de-açúcar e a contratação dos antigos escravos como assalariados da companhia inglesa. Sir William volta para a Inglaterra, onde leva uma vida de bebedeiras e arruaças (dando-se a entender que a sórdida operação antiportuguesa arruinara o seu caráter). Passados dez anos, os trabalhadores das plantações de cana, insatisfeitos com os salários de fome recebidos dos novos patrões, iniciam nova rebelião, sob a liderança do mesmo José Dolores, agora porém a sério e decididos a tomar as rédeas do governo em suas próprias mãos. Teddy Sanchez, aterrorizado, incapaz de controlar a situação, pede ajuda aos empresários ingleses, que vão buscar Sir William num botequim nojento onde ele se diverte em campeonatos de pugilismo com a ralé de Londres, e o enviam de volta à ilha, com plenos poderes para sufocar a revolta. Vendo que a coisa tomara as proporções de uma verdadeira revolução social, Sir William apela ao expediente extremo, mandando atear fogo às plantações e queimando vivos os trabalhadores rebeldes junto com suas famílias. Quando, vitorioso pela segunda vez, o guerreiro genocida vai embarcar de volta para a Inglaterra, o sobrevivente José Dolores, disfarçado de carregador, mata-o a facadas.

Há muitos elementos historicamente verossímeis nesse enredo: a ação inglesa por trás dos movimentos de independência das colônias portuguesas e espanholas; a liderança republicana verbosa e sem iniciativa própria; o aproveitamento de um arremedo de revolta popular como pretexto para a tomada do poder por uma elite corrupta; a transformação dos escravos em mão-de-obra barata para o capital estrangeiro; e até o agravamento da situação dos ex-escravos, soltos no mundo para lutar pela vida em condições desiguais. Abrilhantado por uma direção ágil de Pontecorvo e pela interpretação contundente de Marlon Brando, "Queimada" tem tudo para passar por um condensado esquemático fiel e quase científico dos movimentos de independência de muitas colônias portuguesas, inclusive o Brasil, onde o filme, exibido durante a fase mais dura da repressão militar às guerrilhas, sugeria a histéricas platéias estudantis a explicação mais fácil do que estava acontecendo no país e assim indicava o exemplo de José Dolores como o mais óbvio caminho a seguir.

Naquela época, pouquíssimos espectadores poderiam ter reparado em duas omissões capciosas que, no fundo, eram todo o segredo do impacto da narrativa. Desde logo, se até para encenar uma rebelião incipiente seguida de um golpe de Estado os habitantes da ilha - escravos mais elite branca - precisaram da ajuda estrangeira, como poderiam os escravos, sozinhos, sem armamento, sem nenhum treino político e só com as duas ou três artimanhas de guerrilheiro amador que Sir William ensinara a José Dolores, montar uma verdadeira revolução social capaz de derrubar o regime republicano? Jamais ocorreu uma rebelião desse tipo em nenhuma nação do Terceiro Mundo sem a maciça ajuda estrangeira, e nada, além do puro embuste narrativo, explica que possa ter ocorrido em Queimada. Para os fins propagandísticos visados por Gillo Pontecorvo, era necessário associar capitalismo com imperialismo e revolução comunista com espontaneidade popular autóctone, condensando na tela o velho ardil da propaganda estalinista - ainda hoje inspirador do Fórum Social Mundial - que pinta o livre mercado como traição a serviço do estrangeiro e o comunismo como patriotismo.

Em segundo lugar, impressionadas com o retrato aparentemente verossímil do frio maquiavelismo capitalista, as platéias também se esqueciam de perguntar que raio de cálculo econômico era aquele, que, para a suposta salvaguarda de interesses empresariais, destruía pelo fogo a matéria-prima, os meios de produção e praticamente a totalidade da mão-de-obra disponível, tornando inviável qualquer atividade econômica na ilha por muitas décadas à frente e instaurando ali o monopólio do nada. Sir William emerge da sua segunda excursão à ilha como vencedor, sob a aparente satisfação das classes dominantes, mas, se algum equivalente dele do mundo real cometesse um desatino militar e ecômico como o que ele promoveu em Queimada, quem logicamente desejaria matá-lo não seria José Dolores, e sim os donos da empresa.

Observado segundo os critérios da própria verossimilhança histórica da qual se pavoneia, "Queimada" perde todo impacto dramático e se revela uma farsa idiota, postiça até o desespero, composta por um pseudo-intelectual de meia idade para a deleitação masturbatória de jovens aspirantes a pseudo-intelectuais.

Não há um só filme dessa escola que não se baseie nesse mesmo tipo de engodo miserável, e, compreensivelmente, não há um só deles que não tenha sido louvado uniformemente pela crítica mundial como uma obra-prima de realismo e honestidade narrativa.

Mais grotesco ainda esse gênero de filme se torna quando considerado não apenas na sua composição interna, mas nas condições sociológicas da sua produção. Se o capitalismo é mesmo como eles o descrevem, um sistema de escravização mental e física destinado a manter as multidões na total ignorância das causas da sua miséria, como se explica que a indústria mundial de espetáculos, infinitamente mais rica do que os usineiros de Queimada, subsidie e aplauda tantos filmes anticapitalistas como os de Gillo Pontecorvo, Francesco Rosi e tutti quanti, em vez de espalhar nos cinemas a apologia visual das belezas do livre mercado? A separação estanque entre as idéias dos intelectuais ou artistas e a sua condição existencial e social concreta é uma doença mental endêmica nas classes letradas do mundo Ocidental e, decerto, um dos pilares em que se assenta hoje em dia a efetiva escravização das consciências pela elite globalista.

Tanto no Brasil quanto em vários outros países, as obras do segundo neo-realismo italiano fizeram as cabeças de duas gerações de espectadores e, na condição de "clássicos", desfrutam ainda de um prestígio considerável . Não duvido que milhares ou milhões de Emires Sáderes tenham absorvido desses filmes, e não dos livros que não leram, a substância mesma da sua ideologia e do seu modo de ser.


O FILME

segunda-feira, 15 de junho de 2009

À PAZ PERPÉTUA

Título original: Zum Ewigen Frieden
Autor: Immanuel Kant (1724-1804)
Tradutor: Marcos Zingano
Assunto: “Filosofia” engajada
Editora: LP&M
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 85

Sinopse: Kant acreditava que o entendimento entre os homens levaria a uma pacificação entre as nações. À paz perpétua, foi um enorme sucesso entre a intelectualidade engajada da época que Julien Benda denuncia 132 anos depois, em seu livro “A Traição dos Intelectuais”, que só chegou ao Brasil, 80 anos após ter sido publicado pela primeira vez em 1927.

Neste ensaio, publicado inicialmente na Alemanha em 1795, Kant ressalta “como” alcançar a paz perpétua e “esboça” o projeto de um órgão que seria capaz de promover a união entre as nações.


Alerta!
A Organização das Nações Unidas (ONU), tendo por base essa obra, elaborou o seu projeto de Governo Mundial único e que se encontra em estado avançado de implementação desde 1948, quando foi iniciado.


Trata-se, portanto, de um livro que deve ser lido porque mostra onde a ONU buscou inspiração para elaborar o seu projeto de governo mundial único, mas não deve ser assimilado porque representa o perigo de um modelo político totalitário, uma simbiose de “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley com “1984” de George Orwell, passando obviamente pela “Revolução dos Bichos” do mesmo autor.

Trata-se, portanto, de um “Cavalo de Tróia” que se esconde por trás de uma “paz” utópica.

Por que totalitário?

Simplesmente porque um governo mundial único acaba imediatamente com dois fundamentos:

1- Jurisdição territorial;
2- Direito de asilo.

Se isso acontecer, para onde você irá se não concordar com o regime?

Será o fim da democracia e o início de mil anos de escuridão para a humanidade.

Anatoli Oliynik

terça-feira, 9 de junho de 2009

A TRAIÇÃO DOS INTELECTUAIS

Título original: La trahison des clercs
Autor: Julien Benda
Tradução: Paulo Neves
Assunto: Ensaio filosófico
Editora: Peixoto Neto
Edição: 1ª
Ano: (1927) 2007
Páginas: 284

O que acontece quando a verdade e a justiça estão ameaçadas e os intelectuais a abandonam?

Sinopse: A traição dos intelectuais é a recusa dos valores universais e a subjugação do espiritual ao temporal.

As advertências de Benda podiam, em 1927, ser tidas como pouco fundadas. Mas hoje elas nos parecem verdadeiramente proféticas.

Julien Benda rejeitou todas as modas filosóficas de sua época e criticou a adesão dos intelectuais às paixões políticas (fossem elas de raça, de partido, de classe ou de nação), chamando esses intelectuais de traidores de suas verdadeiras funções.

A partir do momento em que os intelectuais abandonam a universalidade dos valores, eles apenas tornam-se parte da confusão do seu tempo. “Matar as pessoas nos gulags, é ruim; mas pior ainda é deixar os proletários serem explorados pelos capitalistas”. Esse era o pensamento de Jean-Paul Sartre, um dos “intelectuais” engajados e traidores da época. Assim, Sartre é capaz de mentir, descaradamente, para proteger uma determinada posição política. É desses “intelectuais” que Julien Benda fala e é desse assunto que o livro trata.

No Brasil essa fauna de esquerdistas psicopatas polulam em tal profusão que se torna impossível citá-los. Teriamos que ter uma lista telefonica. Todavia, a pessoa que melhor encarna esse tipo de intelectual engajado é a marxista Marilena Chauí, que é capaz de mentir descaradamente, contanto que, seja a favor do governo do PT e da ideologia marxista. Como se pode admitir que uma pessoa assim, seja construtora do patrimônio cultural brasileiro?
Nos últimos quarenta anos o Brasil transformou-se numa hegemonia esquerdista. Praticamente todas as universidades públicas e grande parte das privadas (nas áreas das Ciências Sociais, História, Filosofia, Letras), dos centros de pesquisa, revistas, jornais, redes de televisão e rádio e casas editoriais estão sob o controle direto de “intelectuais” vinculados as diversas correntes do pensamento esquerdista. São poucas as vozes que se erguem, neste país, contra o monopólio cultural esquerdista. Para piorar ainda mais a situação o país é governado por um partido de esquerda. Não há no país um partido político conservador, alcunhado de “direita”, com expressão nacional. Também não há uma única revista cultural que defenda princípios intelectuais que se oponham ao discurso esquerdista gramsciano. Diante deste quadro, correntes de pensamento e intelectuais conservadores, não têm vez e são praticamente desconhecidos. Os estudantes universitários (que mais parecem um universo de otários) no campo das chamadas Humanidades, conhecem Bourdieu, Foucault, Derrida, Gramsci, Marx, Habermas, Eric Fromm, Sartre, Marcuse, Adorno et caterva, mas pergunte a eles e aos seus mestres quem foi Eric Voegelin, Carl Schimitt, Joseph de Maistre, Marcel de Corte, Oswald Spengler, Ernst Jünger, René Guénon, Fritjof Schuon, Mário Ferreira dos Santos, Gustavo Corção e outros. Se estes pensadores conservadores são praticamente desconhecidos nas universidades brasileiras o que dizer de Julien Benda?
"A traição dos intelectuais", precisava ser publicado no Brasil que, há bastante tempo, só conhece um tipo de intelectual: o defensor dos interesses práticos de uma coletividade, adepto dos modismos e das paixões políticas, sem qualquer compromisso com os valores superiores da verdade, da razão ou da justiça. Esta obra chega atrasada 80 anos, como tudo neste país.

Sobre o autor:

Julien Benda nasceu em Paris em 1867. Depois de estudos na École Centrale e na Sorbonne, colaborou com Charles Péguy nos Cahiers de la Quinzaine. Publicou livros como Belphégore, A traição dos intelectuais que desencadearam violentas reações. Aos poucos se tornou aos olhos de todos o critico implacável que assumia com intransigência o papel de guardião do verdadeiro, do justo e da razão. Benda não é cristão. É um racionalista puro. Uma espécie de ateu moderno.Benda era membro do Partido Comunista, tendo participado, em 1947, do XI Congresso do Partido. (Jean Sévillia, "O Terrorismo Intelectual", p. 16). Julien é como relógio quebrado: Está certo pelo menos duas vezes ao dia. Faleceu em 1956.

terça-feira, 2 de junho de 2009

OS GRITOS DO SILÊNCIO

Título original: The Killing Fields
Gênero: Guerra
Atores: Sam Waterston, Dr. Haing S. Ngor, John Malkovich, Julian Sands, Craig T. Nelson, Athol Fugard, Spalding Gray, Bill Paterson, Ira Wheeler e Joan Harris.
Direção: Rolland Jofé
País: Inglaterra
Ano de produção: 1984
Duração: 141 min.

Sinopse: Sydney Schanberg é um jornalista do 'New York Times' enviado ao Camboja, em 1972, como correspondente de guerra. Ali, conhece Dith Pran, um nativo que se torna seu guia e intérprete. Juntos, são os únicos homens da imprensa a presenciarem, em agosto de 1973, ao escandaloso resultado do errôneo bombardeio sobre o povoado de Neak Luong pelos B-52 americanos.

Em março de 1975, a capital Phnom Penh começa a sofrer ações terroristas do Khmer Vermelho, ao mesmo tempo em que passa a abrigar mais de 2 milhões de refugiados. Quando o governo cambojano cai, os EUA retiram-se do País, e toda a família de Pran emigra para a América, com exceção dele, que fica ao lado de Schanberg, para ajudá-lo a cobrir os novos acontecimentos. Os dois refugiam-se na Embaixada inglesa, mas quando tentam abandonar o País, o novo exército revolucionário não permite a saída de Pran, que é enviado para um Campo de Reeducação Rural.

Nos EUA, Schanberg ganha o Prêmio Pulitzer por seu trabalho, quando da cobertura da tomada de Phnom Penh.

Sem notícias do amigo e na ânsia de reencontrá-lo, Sydney envia correspondências com fotos de Pran para veículos de comunicação de todo o mundo, órgãos mundiais como a Cruz Vermelha e postos da fronteira com o Camboja.

Pran cuidava do filho de um líder do Khmer e, por isso, acaba conquistando sua simpatia. O líder é morto ao tentar conter o genocídio e pouco depois de sugerir a Pran que fuja com seu filho. Na fuga, o garoto e um dos amigos são mortos por uma mina. Pran consegue chegar à fronteira do Camboja sozinho e, logo depois, encontra-se com Schanberg. Finalmente, viaja com o amigo para o reencontro com a família.

Comentários: Este filme foi baseado em fatos reais. Relata as crueldades contra a população civil durante a guerra no Camboja, mostra os horrores de uma ditadura de esquerda e desnuda a verdadeira face do comunismo, a lavagem cerebral de jovens imberbes e as suas irracionalidades independente de sexo. Mostra, ainda, a hipocrisia ocidental diante dos crimes cometidos por ditaduras longínquas e o papel do jornalista em meio à guerra. Na verdade o que aconteceu no Camboja não pode ser classificado como uma guerra pura e simplesmente, foi mais terrível que isso; foi um genocídio contra civis para firmar o novo regime de esquerda no país e na região.

(Pol Pot o comunista carniceiro cabojano) O território do Camboja (também conhecido internacionalmente, durante alguns anos, como Kampuchea). Diversos conflitos causaram a morte de milhões de cambojanos nas últimas décadas. O mais sangrento deles ocorreu durante o domínio da facção de esquerda Khmer Vermelho, liderada por Pol Pot, na década de 1970.

Em março de 1974, forças do Khmer Vermelho capturaram a cidade de Odong, ao Norte de Phnom Penh, destruindo-a e dispersando os seus 20.000 habitantes pelo interior do país. Dando seguimento a estas "atividades de limpeza", passaram a executar os professores e funcionários públicos. Em uma pequena vila chamada Sar Sarsdam, pessoas foram assassinadas, incluindo-se mulheres e crianças, dentre inúmeras outras ocorrências mencionadas. Estas histórias, na época, eram consideradas como sendo propaganda anticomunista, pela imprensa ocidental e muitas outras organizações internacionais. Nesta época, o território cambojano passa a ser utilizado como refúgio pelas tropas norte-vietnamitas e por guerrilheiros comunistas do Vietnã do Sul.

Resultado final: De 7 milhões de cambojanos, 3 milhões de mortos para a ascensão dos comunistas ao poder.

Onde estava a ONU? Onde estava a imprensa mundial?




Nota: Dith Pran, faleceu em Nova Jersey, nos Estados Unidos, no dia 30/3/2008 vítima de um câncer no pâncreas. Dia 9-4-2008 ele foi homenageado no parlamento recebendo uma estátua na praça principal de Phnom Penh. Nada mais justo para preservar a memória de uma importante testemunha das atrocidades e da destruição que o comunismo provocou em todos os lugares por onde passou.

Dith Pran no Camboja.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna
Autor: Modris Eksteins
Tradução: Rosaura Eichenberg
Editora: Rocco
Assunto: História geral
Edição: 2ª
Ano: 1991
Páginas: 480

A sagração da primavera descreve as origens, o impacto e as conseqüências da Grande Guerra de 1914-1918.

O título do livro remete ao famoso balé de Stravinsky estreado em Paris pelos Ballets Russes de Diaghilev em 29 de maio de 1913. A platéia fica chocada diante do bárbaro ritual que sacrifica uma virgem para que renasça a primavera.

A dança da explosiva primavera russa mostrou aos espectadores parisienses uma jovem que personificava a renovação ritual da vida num bailado que culminava com sua morte — Stravinsky dera originalmente à sua obra o título de A vítima. O mito levado à cena não tardou a ser aceito como uma espécie de roteiro para uma Nova Era. Em toda a parte artistas e intelectuais clamavam por algo novo, por uma "purificação" do mundo. Hermann Hesse, em sua obra "Demian", assevera: "Antes me havia perguntado muitas vezes por que eram tão poucos os homens que conseguiam viver por um ideal. Agora percebia que todos os homens eram capazes de morrer por um ideal".
Quinze meses depois, num frenesi de paixão pelo novo, grandes multidões se reuniam nas capitais da Europa em manifestação a favor da guerra, enquanto alguns aclamavam a chegada de um Mundo Novo, milhões de jovens se apresentavam como voluntários para morrer em nome de uma nova era política, em que a devastação e a criação trocaram de lugar.

O balé de Stravinsky é o marco do modernismo, sugere o seu motivo principal: o movimento, um dos símbolos supremos do século XX. Centrífugo e paradoxal, quando na luta pela liberdade adquirimos o poder da destruição final. É a dança da morte, com sua ironia niilista e orgiástica.

Em pouco tempo a Europa se viu diante de todo o horror desse novo tipo de devastação. Quatro anos de guerra de trincheira produziram o fim prometido. "Tudo mudado, mudado completamente", escreveu o poeta Yeats: "Uma nova beleza acaba de nascer". Entretanto, passada a guerra, uma depressão profunda tomou conta da Europa, interrompida apenas por pestes, insurreições, inflação, êxodos.

Comentários da obra: O historiador Modris Eksteins descreve nesta obra as estranhas alterações da consciência humana que a guerra provocou e que padrões de comportamento e intelectualidade emergiram do conflito.

"A Grande Guerra", escreve Modris Eksteins, "foi o momento crítico... do modernismo como um todo. A pulsão de criar e a pulsão de destruir tinham trocado de lugar". O efeito último da guerra foi a versão hitlerista da realidade, revelada na criação e destruição do Terceiro Reich. A sagração da primavera se encerra com o suicídio de Hitler na primavera de 1945 dentro do bunker construído no subsolo da Berlim sitiada.

É preciso registrar que a Alemanha foi o país que mais profundamente incorporou a mentalidade revolucionária, o maior flagelo que se abateu sobre a humanidade em toda a sua história.


Excertos da obra:

“... os alemães inclinavam-se a considerar seu país como uma força progressista e libertadora que introduziria uma nova honestidade nos arranjos de poder do mundo.”

“Quando rebentou a guerra, os alemães estavam convencidos... de sua ‘superioridade moral’, de sua ‘força moral’ e de seu ‘direito moral’.”

“A Alemanha representava o novo, o diferente, o perigoso.”


Sobre o autor: Modris Eksteins é professor de história na Universidade de Toronto. É autor de inúmeros livros sobre a Alemanha como “Theodor Heuss um die Weimarer Republik” e “The limits of reason: the German democratic press and the colapse of Weimar democracy”.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O IMBECIL COLETIVO I - Atualidades Inculturais brasileiras

Autor: Olavo de Carvalho
Editora: É REALIZAÇOES
Assunto: Ensaio
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 632

Sinopse: 'O imbecil coletivo' encerra a trilogia iniciada com 'A nova era e a revolução cultural' (1994) e prosseguida com 'O jardim das aflições' (1995). Cada um dos três livros pode ser compreendido sem os outros dois. Mais difícil é, por um só deles, captar o fundo do pensamento que orienta a trilogia inteira. A função de 'O imbecil coletivo' na coleção é bastante explícita e foi declarada no prefácio - descrever, mediante exemplos, a extensão e a gravidade de um estado de coisas - atual e brasileiro - do qual a nova era dera o alarme e cuja precisa localização no conjunto da evolução das idéias no mundo fora diagnosticada em 'O jardim das aflições'.


Último jasmim despetalado do canteiro da inteligência no Brasil

Um sopro de vida intelectual em meio a enfisema pulmonar da inteligência no Brasil. Com uma ironia de Padre Vieira e uma linguagem muitíssimo bem trabalhada, que não torna nunca a sua ''inexaurível erudição'' maçante, o autor desfaz centenas de cacoetes imbecilizantes das pessoas que, a partir dos anos sessenta, tomaram a inteligência nacional de assalto e puseram-na a serviço de uma ideologia genocida, chamando-se a si mesmas de ''intelectuais''. O autor retoma a verve da crítica severa e corajosa, perigosamente extinta, de velhos mestres como Otto Maria Carpeaux, Nelson Rodrigues, e mesmo Silvio Romero e José Veríssimo, os fundadores da crítica nacional, acabando com décadas de afagos mútuos que não são mais que uma inibição a qualquer tentativa de pensamento e, no fim das contas, um burro protegendo a outro. As reações ao livro (incluídas todas nas suas edições posteriores), lançado em 96, rigorosamente provaram o seu conteúdo – ao ponto de, à força de incluí-las, o autor quase dobrar o tamanho do livro da primeira para quarta edição. Enfim, como à época de sua primeira edição disse Paulo Francis: ''Livro imperdível. Exijam dos livreiros.'' OBS .: ''O Ministério da Saúde adverte: 'O Imbecil Coletivo' faz mal aos imbecis individuais.''
Lendo essa obra, você entenderá porque a psicose socialista habita na mente dos brasileiros.

terça-feira, 12 de maio de 2009

UTOPIA BRASILEIRA

Autor: José Osvaldo de Meira Penna
Editora: Itatiaia Editora
Assunto: Ciências sociais
Edição: 1ª
Ano: 1988
Páginas: 254

Sinopse: A obra trata de aspectos da psicologia coletiva brasileira. O autor aborda sob todos os ângulos possíveis, a análise da função intuitiva na alma nacional, ou seja, a psicologia da mente utópica.

Essa intuição que supre a carência do brasileiro em termos de atividade cerebrina pura e de racionalidade de comportamento, que permite a superação prática das contradições e inércias que tolhem os passos da nação no caminho do desenvolvimento e da cultura. Esse singular talento em “dar um jeito” nos grandes impasses da situação, o rasgo da solução genial que cai do céu no momento oportuno, a escapatória futurista para os problemas econômicos, sociais e políticos.

Aristhóphanes, primeiro de uma série de humoristas terre-à-terre que mofaram dos utopistas, escreveu uma comédia para demonstrar que vivem nas "Nuvens"... O objetivo de sua crítica era Sócrates. Mas a expressão pegou. O "sonho que se realizou" é a grande recompensa do nefelibata, mas, na maior parte das vezes - não sendo ninguém profeta em sua terra - a visão desvendada ao povo cético e ignaro será recolhida por outros que, mais tarde, comprovarão a justeza da fantasia. E ela deixará então de ser aquilo que o filisteu sempre diz que ela é: justamente uma utopia! Ora, precisamente porque somos, os brasileiros, além de tipos essencialmente afetivos, também grandes intuitivos, com um desenvolvimento ainda rudimentar das funções intelectuais e racionais empíricas, encaminha-se nossa imaginação popular para o sonho utópico, a procura do mito, a expectativa milenarista e o culto da personalidade messiânica (o Sebastianismo) - criando, no processo, uma tensão social que é imensamente criativa.

Esse o tema precípuo da análise efetuada na presente obra: desvendar a maneira brasileira de ser mediante uma investigação de natureza psicológica.

Por essas caracteríticas de ser do brasileiro é que o socialismo, marxismo e comunismo, etapas evolutivas da utopia, encontram campo fértil, no Brasil, para estabelecer a irracionalidade, a psicose e o caos humano na busca desenfreada de um Estado provedor, patrimonialista e paternalista.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A ILHA

Autor: Aldous Huxley
Tradução: Gisela Brigitte Laub
Editora: Globo
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 443

Sinopse: A Ilha traz a história de um jornalista, Will Faranaby, e seu encontro com uma sociedade baseada na “liberdade”. Tal paraíso fica em Pala, uma ilha situada na Indonésia.

Aldous Huxley fala de uma sociedade idealizada tendo uma ilha fictícia como palco de uma civilização que persegue serenamente a felicidade. Lá a utopia da existência plena é possível.

A Ilha é o mundo criado pelas utopias psicoterapêuticas e orientalistas dos anos 50-60. Huxley captou antecipadamente a loucura por trás de tudo isso, e é precisamente essa antevisão que dá o tema deste romance.

Comentários: Escrito em 1962 é o penúltimo livro publicado por Aldous Huxley. Imagina-se, equivocadamente, que “A Ilha” encaixou como uma luva na atmosfera cultural americana da época, a fase hippie da contracultura, quando jovens de classe média, orientados por gurus como Timothy Leary, Allen Ginsberg, Robert Laing, Carlos Castañeda, Roberto Crumb, Herbert Marcuse (um marxista da Escola de Frankfurt), Jack Kerouac e Alan Watson, questionavam os valores dominantes, como família, religião, moral e a guerra no Vietnã.

A sociedade da ilha de Pala, descrita na obra, foi recebida como uma síntese da sociedade utópica que estes jovens queriam opor à sociedade industrial de consumo que, paradoxalmente, havia tornado o cidadão americano médio rico como nunca. Acontece que, A Ilha, na verdade, é o mais temível inquérito sobre o auto-engano da geração que o aplaudiu. No ambiente de entusiasmo utópico da época, seria impossível que os leitores o compreendessem. Isso teria exigido deles um realismo cruel, que mesmo à distância de várias décadas ainda parece difícil de suportar, tão contaminados das ilusões e mentiras dos anos 60 permanecemos hoje. Daí que, deslizando sobre a superfície da narrativa, quase todos os leitores deixassem escapar os detalhes mais importantes, nos quais se esconde o sentido mesmo da última lição de um sábio.


PREFÁCIO DE OLAVO DE CARVALHO


Os críticos acusaram freqüentemente os personagens de Huxley de não ser propriamente seres humanos, mas apenas símbolos de idéias.

Contra essa censura posso levantar de imediato três objeções:

1) Mesmo que ela fosse certa, não bastaria para arrasar de vez a reputação de Huxley como ficcionista, de vez que crítica semelhante já se fez a Swift e Voltaire.

2) Ela não é propriamente uma censura, mas a definição mesma do gênero “sátira”, no qual se incluem, de algum modo (já veremos qual), as principais obras de Huxley. Não é possível satirizar os seres humanos naquilo que têm de pessoal e autêntico, mas só no que têm de exterior, de típico, de copiado e de mecânico.

3) Mas as histórias de Huxley escapam mesmo às limitações intrínsecas do gênero satírico. É verdade que Lenina Crowne ou Bernard Trotsky, em O Admirável Mundo Novo, assim como Will Farnaby, Robert MacPhail ou o embaixador Bahu, em A Ilha, não são realmente pessoas de carne e osso: são encarnações das utopias, sonhos e ilusões da intelectualidade ocidental. Mas se malgrado essa sua origem puramente intelectual seus destinos nos interessam e nos comovem como os de gente de verdade, é pelo fato de que, no século XX, o poder enormemente ampliado da mídia cultural fez com que as idéias passassem a ter uma influência formadora mais direta e decisiva sobre os corações humanos. Símbolos, frases-feitas, emoções e trejeitos mentais criados pelos intelectuais fincaram raízes tão profundas no subconsciente das pessoas, que se tornaram, em muitos casos, indiscerníveis das reações pessoais autênticas. É olhar e ver: muitas personalidades em torno de nós são realmente, literalmente, traslados de modas intelectuais. Esses tipos só são cômicos e artificiais quando vistos do exterior, e nossa reação perante eles é ambígua: não conseguimos nem compartilhar de seus sentimentos ao ponto de sofrer por eles, nem desidentificar-nos deles o bastante para torná-los definitivamente cômicos. Pois todos nós, uns mais, outros menos, macaqueamos as modas culturais, e este é um destino inescapável do homem moderno: nem possuímos mais aquele fundo comum de valores e símbolos que permitia ao camponês da Idade Média ser ele mesmo justamente porque era igual a todos, nem nos tornamos tão prodigiosamente individualizados que possamos inventar nossa própria linguagem. A única autenticidade possível ao homem moderno é um arranjo mais ou menos pessoal de modelos mais ou menos copiados.

É nessa zona indistinta entre o discurso coletivo e a emoção autêntica, entre a macaquice intelectual e a vida pessoal efetiva que Huxley colhe seus personagens. Daí sua maior originalidade como ficcionista – sua capacidade de fazer o leitor vivenciar o jogo das idéias estereotipadas como se fosse um drama humano de verdade. Por isso suas obras não podem rotular-se categoricamente como sátiras, já que participam, a um tempo, da sátira e do drama: sátira das idéias, drama dos erros e sofrimentos humanos que essas idéias geraram ao transformar-se em ações. É precisamente essa visão intermediária entre a sátira e o drama que o habilita a sondar com olhar profético o futuro que se gera no ventre das idéias. Cada um de seus romances é como aquele fantasma do poema de Heine que acordava um homem de madrugada e, de espada em punho, o ameaçava: “Eu sou a ação dos teus pensamentos.”

Muito do que Aldous Huxley escreveu é a dramatização satírica das idéias que se tornaram vida pessoal e tragédia pessoal entre os intelectuais midiáticos, aqueles seres meio cultos, meio ignorantes, que desfrutam do privilégio maior da mediocridade -- falar a linguagem média -- e que por isto dão o tom dos debates públicos, encarnando a personalidade das épocas. Essas criaturas são as testemunhas principais que o historiador das idéias interroga. Por exemplo, quem queira conhecer a mentalidade do século XVIII não irá sondar as profundezas abissais da ciência de Leibniz, mas deslizar sobre as superfícies brilhantes de Voltaire e Diderot. Os grandes espíritos não pertencem propriamente à sua época: uma parte do seu ser está mergulhada num passado imemorial, a outra projeta-se num futuro inalcançável, e só uma parcela ou recorte deles é visível a seus contemporâneos. Mas a mente do intelectual médio é o ponto de intersecção dos horizontes de consciência da sua época: o que aparece na sua tela interior é aquilo que todos vêem ao mesmo tempo, a coincidência de todos os recortes, a interconfirmação de todas as percepções e de todas as cegueiras. Por isto seu discurso é tão bem recebido por seus contemporâneos, e por isto é tão fácil, das suas palavras, deduzir o que “o público” pensava.

O intelectual médio é ao mesmo tempo o porta-voz e o eco das modas culturais. Mesmo quando as critica, não vai além delas, limitando-se a opor uma moda a outra moda, como aqueles que, hoje em dia, opõem ao socialismo a utopia neoliberal, ou vice-versa, sem ter a mínima idéia do parentesco que os une.

Huxley era um ouvido especialmente atento às conversações dos intelectuais médios, das quais ele não apenas captava com facilidade o “espírito da época”, mas inferia as mais espantosas e acertadas conclusões sobre o rumo que as coisas iriam tomar se aquelas idéias, em vez de esgotar-se como puras futilidades de salão, fossem levadas à prática como modelos do mundo futuro. O Admirável Mundo Novo é o mundo que teria resultado – e que de certo modo resultou – da aplicação das modas intelectuais da década de 30. A Ilha é o mundo criado pelas utopias psicoterapêuticas e orientalistas dos anos 50-60.

Aldous Huxley morreu antes de que essas idéias tomassem corpo na cultura da “New Age” e, partindo das esperanças utópicas de um novo mundo de sanidade e autoconhecimento, desembocasse na tragédia mundial das drogas, das seitas escravizadoras, das experiências psíquicas autodestrutivas. Não obstante, ele captou antecipadamente a loucura por trás de tudo isso, e é precisamente essa antevisão que dá o tema deste romance.

Publicado em 1963, este livro foi lido como uma espécie de antítese do Admirável Mundo Novo. Enquanto o romance de 1932 trazia o retrato de uma sociedade opressiva e mecanizada, da qual toda espontaneidade humana tinha sido extirpada em benefício da ordem e da produtividade, a ilha de Pala era como que a materialização dos sonhos de liberdade da geração flower power: amor livre, religiosidade sem dogmas, respeito às diferenças individuais, incentivo à expressão das emoções, tudo num ambiente ecológico de reverência pela natureza.

Sublinhava essa interpretação o fato de que a utopia fosse, no capítulo final, brutalmente destruída pelos tanques da vizinha ilha de Rendang-Lobo, encarnação de tudo o que a juventude dos anos 60 mais odiava: industrialismo, militarismo, religião tradicional, lei e ordem.

Compreendido assim, A Ilha não era senão a tradução ficcional de lugares-comuns da retórica esquerdista da época, mista de “New Age” e “New Left”. Daí o imenso sucesso do livro. Ele parecia dizer tudo o que a geração mais pretensiosa de todos os tempos queria ouvir. Mesmo a derrota da utopia, em vez de ter um efeito deprimente, parecia exaltá-la até às nuvens: Pala fôra destruída por ser boa demais para este mundo, como Che Guevara, derrotado pelo mais pífio exército sul-americano, transcendia no mesmo ato os julgamentos humanos e subia aos céus como um Ersatz comunista de Jesus Cristo.

Êxitos de livraria baseados em equívocos de interpretação não são raros na história da literatura. Na verdade, A Ilha é o mais temível inquérito sobre o auto-engano da geração que o aplaudiu. No ambiente de entusiasmo utópico da época, seria impossível que os leitores o compreendessem. Isso teria exigido deles um realismo cruel, que mesmo à distância de quatro décadas ainda parece difícil de suportar, tão contaminados das ilusões e mentiras dos anos 60 permanecemos hoje. Daí que, deslizando sobre a superfície da narrativa, quase todos os leitores deixassem escapar os detalhes mais importantes, nos quais se esconde o sentido mesmo da última lição de um sábio.

Em primeiro lugar, a destruição de Pala não vem do exterior. É o próprio príncipe herdeiro, Murugan, quem atrai os estrangeiros para ajudá-lo no golpe militar destinado a romper o equilíbrio do paraíso agrícola e colocar o país, pela força, na modernidade industrial. Os ideais da “geração Woodstock”, com efeito, apenas usavam a linguagem do primitivismo agrícola como veículos de expressão de seu ódio à sociedade industrial, mas essa revolta era, ela própria, um fenômeno da intelectualidade urbana e universitária, e supunha uma dose de liberdade de expressão e meios de comunicação que seriam inconcebíveis em qualquer sociedade agrícola. Quando Murugan acusa os governantes de Pala de “conservadores e reacionários”, ele põe o dedo na ferida: os ideais que produziram Pala jamais poderiam ter surgido numa economia como a de Pala. A utopia não é destruída do exterior, mas explodida desde dentro, pela sua autocontradição congênita.

Em segundo lugar, os golpistas, tão parecidos com os militares do Terceiro Mundo nos seus métodos de modernização autoritária, nada têm de conservadores e tradicionalistas na sua ideologia. Murugan, bisneto do Velho Rajá, o fundador de Pala e autor do livro sapiencial em que se inspira o regime da ilha, acaba se voltando contra as tradições locais por influência de sua mãe, a rani Fátima, a qual durante sua formação cultural na Europa recebera a influência dos ensinamentos teosóficos de Helena Blavatsky, tornando-se devota dos “Mestres do Astral”, especialmente um tal Koot-Hoomi -- figura inconfundivelmente diabólica segundo todos os cânones da religião tradicional -- , em cima de cujas concepções se forma a aliança entre a família real de Pala e os militares de Rendang-Lobo. Ora, teosofismo e mensagens de Koot-Hoomi são elementos inconfundíveis da própria ideologia “New Age”. Embora já um tanto velhos na época, foram reaproveitados na onda geral de orientalismo pop com que o movimento dos jovens atacava e corroía as bases cristãs da sociedade Ocidental.

Os militares de Rendang-Lobo também não são, de maneira alguma, “a direita”. Estão ansiosos para fazer negócios com a Standard Oil só para poder comprar armas do bloco soviético e dar prosseguimento ao seu sonho macabro de “revolução permanente”. Seu chefe, o Cel. Dipa, é uma espécie de Chavez avant la lettre. Seu modernismo revolucionário representa a outra face da ideologia “jovem” dos anos 60: o lado brutal e sanguinário personificado pelos Black Panthers, por Ho-Chi-Minh e Fidel Castro. Pala não é destruída por seus inimigos, mas pela contradição interna da mais mentirosa ideologia de todos os tempos, a ideologia da esquerda norte-americana dos anos 60, que pretendia encarnar o espírito de “paz e amor” ao mesmo tempo que espalhava no mundo “um, dois, três, muitos Vietnãs”.

Ainda mais significativo é que a origem das concepções utópicas do regime de Pala remontasse à fusão de vagos remanescentes do budismo tântrico com as idéias de evolucionismo biológico trazidas, no século passado, por um médico escocês, meio sábio, meio charlatão, que adquirira prestígio na ilha curando uma misteriosa doença de seu governante por meio do “magnetismo animal”. Essa mistura de budismo heterodoxo, evolucionismo e magnetismo compõe a fórmula inconfundível do teosofismo de Madame Blavatsky. Assim, a raiz do utopismo anárquico de Pala e do modernismo autoritário de seu príncipe golpista é, rigorosamente, a mesma.

Para tornar as coisas ainda mais estranhas, o teosofismo de Blavatsky foi, notoriamente, um instrumento usado pelo imperialismo inglês para corroer as tradições religiosas autênticas das nações orientais e torná-las mais vulneráveis à dominação cultural estrangeira por meio de um entorpecente pseudo-espiritual fabricado em Londres por uma vigarista russa. [1]

Pelo lado da ideologia palanesa, portanto, o lixo ancestral não é menos fedorento que o teosofismo explícito de Rendang-Lobo. Já no segundo capítulo do livro, o náufrago Will Farnaby, traumatizado pelo perigo recente, é curado de seus males pelo método freudiano da ab-reação no curso de uma psicoterapia improvisada... por uma garota de nove anos. Mary Sarojini MacPhail, a garota, neta do atual guru médico da ilha, resume na sua pessoinha os princípios de educação e ética ali vigentes: são os princípios do sincerismo, do “botar para fora”, que os “grupos de encontro” e as técnicas psicoterápicas de “sensibilização” e “liberação” disseminaram no mundo a partir de Esalen, Califórnia, e que marcaram inconfundivelmente a atmosfera dos anos 60. O festival de experimentos psíquicos e “liberações” desembocou no império mundial dos traficantes de drogas e na transformação da delinqüência juvenil (e infantil) numa catástrofe global de proporções incontroláveis. Na época, porém, prometia um novo mundo de espontaneidade e sanidade. Todas as crianças de Pala são versadas em “auto-expressão”, aquela confissão simplória e cínica dos próprios maus sentimentos que, teoricamente, os tornaria inofensivos. O fato é que a “auto-expressão”, ensinada em grupos-de-encontro por psiquiatras e psicoterapeutas “libertadores” nos conventos católicos, suscitou entre as monjas uma epidemia de lesbianismo e de casos amorosos com seus terapeutas, levando praticamente à destruição de várias ordens religiosas. De braços dados com o pseudo-orientalismo, a “libertação” psicoterápica abriu caminho para que milhões de jovens abandonassem o cristianismo e se entregassem às mais tirânicas manipulações psíquicas nas mãos de seitas delinqüenciais como “Love Family”, que, em nome da expressão espontânea das emoções, obrigava crianças de quatro anos de idade a submeter-se, junto com seus pais, à prática de sexo grupal. A imensidão dos danos psicológicos trazidos a essa geração jamais poderá ser medida exatamente. As tristezas e as vergonhas acumuladas são demasiado profundas para vir à tona. Documentos aterrorizantes acumulam-se, em pilhas, nos milhares de clínicas especializadas em tratamentos de egressos de seitas, sobretudo ao longo da Costa Oeste americana -- o lugar onde nasceria, segundo a promessa da época, a nova civilização de sanidade, paz e amor. [2]

Os efeitos terrificantes, porém, não nasceram do mero acaso. Fruto e raiz têm sua continuidade lógica. Os “grupos-de-encontro” nasceram da pesquisa militar sobre guerra psicológica e controle comportamental. Um de seus pioneiros, Kurt Lewin, já na década de 40 havia chegado à conclusão de que a pressão sutil e disfarçada do grupo era o meio mais efetivo de produzir mudanças de comportamento. A lição foi bem aprendida por Carl Rogers, Fritz Perls, Abraham Maslow e outros criadores dos “grupos-de-encontro” da década de 60. A “liberação”, em suma, não passava de “engenharia do consentimento”. Lewin e seus sucessores haviam descoberto um tipo de controle comportamental infinitamente mais eficiente e irresistível do que todas as técnicas descritas no Admirável Mundo Novo. Como admitiu um dos praticantes do método, Robert Blake, ex-aluno de Lewin no Tavistock Institute de Londres (a principal academia inglesa de guerra psicológica), “não importa quanto o orientador desses grupos tente ser não-diretivo, ele será ainda sutilmente ditatorial e até mais ditatorial (por causa da sua sutileza) do que o mais rígido adestrador, porque todo o controle está escondido”. [3] Por uma coincidência que neste contexto adquire as dimensões de um símbolo, Blake dirigiu um desses grupos justamente na Standard Oil – a empresa com a qual o príncipe herdeiro Murugan está louco para fazer negócios.

Após presenciar uma sessão de “educação para o amor” das crianças de Pala, Will Farnaby, o visitante trazido pelo naufrágio, protesta: “Isto é puro Pavlov!”. O instrutor, com aquele ar beatífico de tantos lavadores de cérebros da década de 60, responde: “Pavlov usado exclusivamente com bom propósito. Pavlov para a amizade, para a confiança, para a compaixão.”

Tanto pelas suas origens blavatskianas quanto pelos métodos de dirigismo sutil, a ideologia palanesa é irmã gêmea do autoritarismo de Rendang-Lobo. A Ilha não é a tragédia de um paraíso de liberdade destruído pela invasão de militares malvados: é a tragédia da autodestruição de uma utopia intrinsecamente má e mentirosa envolta em belas palavras.

No momento culminante da narrativa, Will Farnaby, finalmente rendido aos encantos da “religião sem dogmas” dos palaneses, resolve experimentar a moksha, a erva alucinógena ritual que, em vez de precipitar somente o consumidor num estado de apatetado bem-estar como o soma do Admirável Mundo Novo, lhe abriria as portas do conhecimento transcendental. Nos primeiros instantes, Will “vê a luz”, ou pelo menos pensa que vê. Mergulha num estado de beatitude indescritível e supõe ter conhecido o próprio Deus. De repente, a visão se transfigura. Abrem-se as portas do inferno: vermes horrendos aparecem misturados à figura de Adolf Hitler que gesticula e berra. A visão de Will mostra a verdadeira natureza da religião palanesa: uma religião de “experiências psíquicas”, incapaz de transcender a dualidade cósmica e elevar-se ao reino da eternidade. É a religião dos “grupos-de-encontro”, o substitutivo postiço que uma estratégia política oportunista quis substituir ao cristianismo. Tão logo Will emerge do transe, ele ouve os primeiros tiros do exército invasor: é a mentira essencial de Pala que se desfaz ao mesmo tempo que a falsa visão espiritual.

Poucos livros foram tão fundo na compreensão do auto-engano congênito da cultura contemporânea. Perto da pedagogia palanesa da ilusão, as técnicas de controle social do Admirável Mundo Novo parecem ingênuas e rudimentares, assim como perto da engenharia comportamental dos anos 60 o totalitarismo explícito da década de 30 parece coisa de orangotangos. O diagnóstico impiedoso do neototalitarismo mental dos anos 60 não pôde ser compreendido por seus contemporâneos. Eles estavam embriagados na mentira nascente, e a antevisão de Huxley passou léguas acima de suas cabeças. Mas, hoje, vivemos no mundo criado por aqueles malditos “jovens idealistas” dos anos 60. As técnicas de controle social e engenharia do consentimento já não são experiências limitadas, efetuadas na privacidade de grupos-de-encontro: são o dia a dia das escolas públicas, onde nossos filhos se encontram à mercê daquilo que Pascal Bernardin chamou “ministério da reforma psicológica”. [4] Tal como Mary Sarojini MacPhail, cada criança, submetida à pressão sutil do grupo, aí adota alegremente as condutas desejadas, sem ter a mínima idéia de possíveis alternativas. Nos EUA, os resultados da adoção maciça dessas técnicas no ensino já são patentes: os índices assustadores de consumo de drogas e a criminalidade infantil nas escolas públicas levam muitos pais a preferir educar seus filhos em casa, enquanto a Prefeitura de Nova York, admitindo-se incapaz de controlar a violência das crianças, privatiza suas escolas como quem entrega um fardo superior às suas forças. No Brasil, esse processo ainda está no começo, mas basta ler os “Parâmetros Curriculares Nacionais” do Ministério da Educação para perceber que a engenharia de comportamento aí predomina amplamente sobre a formação intelectual e a instrução moral honesta. O espírito dos “grupos de encontro” dos anos 60 tomou conta da pedagogia universal, firmemente decidido a “libertar” as crianças do legado da civilização cristã. Quando a “libertação” mostrar sua outra face, quando Pala revelar sua identidade com Rendang-Lobo, haverá choro e ranger de dentes. Mas, como aconteceu com a geração de 60, nenhum dos autores da tragédia reconhecerá suas culpas: cada um deles se proclamará um idealista traído pelos rumos imprevisíveis da História e, revigorado pelo sentimento de inocência, tirará da cartola um novo projeto de “mundo melhor”.

Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas.

22/4/2001
 

O filósofo Olavo de Carvalho faz uma análise precisa desta obra que reproduzo a seguir:

Em primeiro lugar, a destruição de Pala não vem do exterior. É o próprio príncipe herdeiro, Murugan, quem atrai os estrangeiros para ajudá-lo no golpe militar destinado a romper o equilíbrio do paraíso agrícola e colocar o país, pela força, na modernidade industrial. Os ideais da “geração Woodstock”, com efeito, apenas usavam a linguagem do primitivismo agrícola como veículos de expressão de seu ódio à sociedade industrial, mas essa revolta era, ela própria, um fenômeno da intelectualidade urbana e universitária, e supunha uma dose de liberdade de expressão e meios de comunicação que seriam inconcebíveis em qualquer sociedade agrícola. Quando Murugan acusa os governantes de Pala de “conservadores e reacionários”, ele põe o dedo na ferida: os ideais que produziram Pala jamais poderiam ter surgido numa economia como a de Pala. A utopia não é destruída do exterior, mas explodida desde dentro, pela sua autocontradição congênita.

Em segundo lugar, os golpistas, tão parecidos com os militares do Terceiro Mundo nos seus métodos de modernização autoritária, nada têm de conservadores e tradicionalistas na sua ideologia. Murugan, bisneto do Velho Rajá, o fundador de Pala e autor do livro sapiencial em que se inspira o regime da ilha, acaba se voltando contra as tradições locais por influência de sua mãe, a rani Fátima, a qual durante sua formação cultural na Europa recebera a influência dos ensinamentos teosóficos de Helena Blavatsky, tornando-se devota dos “Mestres do Astral”, especialmente um tal Koot-Hoomi -- figura inconfundivelmente diabólica segundo todos os cânones da religião tradicional -- , em cima de cujas concepções se forma a aliança entre a família real de Pala e os militares de Rendang-Lobo. Ora, teosofismo e mensagens de Koot-Hoomi são elementos inconfundíveis da própria ideologia “New Age”. Embora já um tanto velhos na época, foram reaproveitados na onda geral de orientalismo pop com que o movimento dos jovens atacava e corroía as bases cristãs da sociedade Ocidental.

Os militares de Rendang-Lobo também não são, de maneira alguma, “a direita”. Estão ansiosos para fazer negócios com a Standard Oil só para poder comprar armas do bloco soviético e dar prosseguimento ao seu sonho macabro de “revolução permanente”. Seu chefe, o Cel. Dipa, é uma espécie de Chavez avant la lettre. Seu modernismo revolucionário representa a outra face da ideologia “jovem” dos anos 60: o lado brutal e sanguinário personificado pelos Black Panthers, por Ho-Chi-Minh e Fidel Castro. Pala não é destruída por seus inimigos, mas pela contradição interna da mais mentirosa ideologia de todos os tempos, a ideologia da esquerda norte-americana dos anos 60, que pretendia encarnar o espírito de “paz e amor” ao mesmo tempo que espalhava no mundo “um, dois, três, muitos Vietnãs”.

Ainda mais significativo é que a origem das concepções utópicas do regime de Pala remontasse à fusão de vagos remanescentes do budismo tântrico com as idéias de evolucionismo biológico trazidas, no século passado, por um médico escocês, meio sábio, meio charlatão, que adquirira prestígio na ilha curando uma misteriosa doença de seu governante por meio do “magnetismo animal”. Essa mistura de budismo heterodoxo, evolucionismo e magnetismo compõe a fórmula inconfundível do teosofismo de Madame Blavatsky. Assim, a raiz do utopismo anárquico de Pala e do modernismo autoritário de seu príncipe golpista é, rigorosamente, a mesma.

Para tornar as coisas ainda mais estranhas, o teosofismo de Blavatsky foi, notoriamente, um instrumento usado pelo imperialismo inglês para corroer as tradições religiosas autênticas das nações orientais e torná-las mais vulneráveis à dominação cultural estrangeira por meio de um entorpecente pseudo-espiritual fabricado em Londres por uma vigarista russa.

Pelo lado da ideologia palanesa, portanto, o lixo ancestral não é menos fedorento que o teosofismo explícito de Rendang-Lobo. Já no segundo capítulo do livro, o náufrago Will Farnaby, traumatizado pelo perigo recente, é curado de seus males pelo método freudiano da ab-reação no curso de uma psicoterapia improvisada... por uma garota de nove anos. Mary Sarojini MacPhail, a garota, neta do atual guru médico da ilha, resume na sua pessoinha os princípios de educação e ética ali vigentes: são os princípios do sincerismo, do “botar para fora”, que os “grupos de encontro” e as técnicas psicoterápicas de “sensibilização” e “liberação” disseminaram no mundo a partir de Esalen, Califórnia, e que marcaram inconfundivelmente a atmosfera dos anos 60. O festival de experimentos psíquicos e “liberações” desembocou no império mundial dos traficantes de drogas e na transformação da delinqüência juvenil (e infantil) numa catástrofe global de proporções incontroláveis. Na época, porém, prometia um novo mundo de espontaneidade e sanidade. Todas as crianças de Pala são versadas em “auto-expressão”, aquela confissão simplória e cínica dos próprios maus sentimentos que, teoricamente, os tornaria inofensivos. O fato é que a “auto-expressão”, ensinada em grupos-de-encontro por psiquiatras e psicoterapeutas “libertadores” nos conventos católicos, suscitou entre as monjas uma epidemia de lesbianismo e de casos amorosos com seus terapeutas, levando praticamente à destruição de várias ordens religiosas. De braços dados com o pseudo-orientalismo, a “libertação” psicoterápica abriu caminho para que milhões de jovens abandonassem o cristianismo e se entregassem às mais tirânicas manipulações psíquicas nas mãos de seitas delinqüenciais como “Love Family”, que, em nome da expressão espontânea das emoções, obrigava crianças de quatro anos de idade a submeter-se, junto com seus pais, à prática de sexo grupal. A imensidão dos danos psicológicos trazidos a essa geração jamais poderá ser medida exatamente. As tristezas e as vergonhas acumuladas são demasiado profundas para vir à tona. Documentos aterrorizantes acumulam-se, em pilhas, nos milhares de clínicas especializadas em tratamentos de egressos de seitas, sobretudo ao longo da Costa Oeste americana -- o lugar onde nasceria, segundo a promessa da época, a nova civilização de sanidade, paz e amor.

Os efeitos terrificantes, porém, não nasceram do mero acaso. Fruto e raiz têm sua continuidade lógica. Os “grupos-de-encontro” nasceram da pesquisa militar sobre guerra psicológica e controle comportamental. Um de seus pioneiros, Kurt Lewin, já na década de 40 havia chegado à conclusão de que a pressão sutil e disfarçada do grupo era o meio mais efetivo de produzir mudanças de comportamento. A lição foi bem aprendida por Carl Rogers, Fritz Perls, Abraham Maslow e outros criadores dos “grupos-de-encontro” da década de 60. A “liberação”, em suma, não passava de “engenharia do consentimento”. Lewin e seus sucessores haviam descoberto um tipo de controle comportamental infinitamente mais eficiente e irresistível do que todas as técnicas descritas no Admirável Mundo Novo. Como admitiu um dos praticantes do método, Robert Blake, ex-aluno de Lewin no Tavistock Institute de Londres (a principal academia inglesa de guerra psicológica), “não importa quanto o orientador desses grupos tente ser não-diretivo, ele será ainda sutilmente ditatorial e até mais ditatorial (por causa da sua sutileza) do que o mais rígido adestrador, porque todo o controle está escondido”. Por uma coincidência que neste contexto adquire as dimensões de um símbolo, Blake dirigiu um desses grupos justamente na Standard Oil – a empresa com a qual o príncipe herdeiro Murugan está louco para fazer negócios.

Após presenciar uma sessão de “educação para o amor” das crianças de Pala, Will Farnaby, o visitante trazido pelo naufrágio, protesta: “Isto é puro Pavlov!”. O instrutor, com aquele ar beatífico de tantos lavadores de cérebros da década de 60, responde: “Pavlov usado exclusivamente com bom propósito. Pavlov para a amizade, para a confiança, para a compaixão.”
Tanto pelas suas origens blavatskianas quanto pelos métodos de dirigismo sutil, a ideologia palanesa é irmã gêmea do autoritarismo de Rendang-Lobo. A Ilha não é a tragédia de um paraíso de liberdade destruído pela invasão de militares malvados: é a tragédia da autodestruição de uma utopia intrinsecamente má e mentirosa envolta em belas palavras.

No momento culminante da narrativa, Will Farnaby, finalmente rendido aos encantos da “religião sem dogmas” dos palaneses, resolve experimentar a moksha, a erva alucinógena ritual que, em vez de precipitar somente o consumidor num estado de apatetado bem-estar como o soma do Admirável Mundo Novo, lhe abriria as portas do conhecimento transcendental. Nos primeiros instantes, Will “vê a luz”, ou pelo menos pensa que vê. Mergulha num estado de beatitude indescritível e supõe ter conhecido o próprio Deus. De repente, a visão se transfigura. Abrem-se as portas do inferno: vermes horrendos aparecem misturados à figura de Adolf Hitler que gesticula e berra. A visão de Will mostra a verdadeira natureza da religião palanesa: uma religião de “experiências psíquicas”, incapaz de transcender a dualidade cósmica e elevar-se ao reino da eternidade. É a religião dos “grupos-de-encontro”, o substitutivo postiço que uma estratégia política oportunista quis substituir ao cristianismo. Tão logo Will emerge do transe, ele ouve os primeiros tiros do exército invasor: é a mentira essencial de Pala que se desfaz ao mesmo tempo que a falsa visão espiritual.

Poucos livros foram tão fundo na compreensão do auto-engano congênito da cultura contemporânea. Perto da pedagogia palanesa da ilusão, as técnicas de controle social do Admirável Mundo Novo parecem ingênuas e rudimentares, assim como perto da engenharia comportamental dos anos 60 o totalitarismo explícito da década de 30 parece coisa de orangotangos. O diagnóstico impiedoso do neototalitarismo mental dos anos 60 não pôde ser compreendido por seus contemporâneos. Eles estavam embriagados na mentira nascente, e a antevisão de Huxley passou léguas acima de suas cabeças. Mas, hoje, vivemos no mundo criado por aqueles malditos “jovens idealistas” dos anos 60. As técnicas de controle social e engenharia do consentimento já não são experiências limitadas, efetuadas na privacidade de grupos-de-encontro: são o dia a dia das escolas públicas, onde nossos filhos se encontram à mercê daquilo que Pascal Bernardin chamou “ministério da reforma psicológica”. Tal como Mary Sarojini MacPhail, cada criança, submetida à pressão sutil do grupo, aí adota alegremente as condutas desejadas, sem ter a mínima idéia de possíveis alternativas. Nos EUA, os resultados da adoção maciça dessas técnicas no ensino já são patentes: os índices assustadores de consumo de drogas e a criminalidade infantil nas escolas públicas levam muitos pais a preferir educar seus filhos em casa, enquanto a Prefeitura de Nova York, admitindo-se incapaz de controlar a violência das crianças, privatiza suas escolas como quem entrega um fardo superior às suas forças. No Brasil, esse processo ainda está no começo, mas basta ler os “Parâmetros Curriculares Nacionais” do Ministério da Educação para perceber que a engenharia de comportamento aí predomina amplamente sobre a formação intelectual e a instrução moral honesta. O espírito dos “grupos de encontro” dos anos 60 tomou conta da pedagogia universal, firmemente decidido a “libertar” as crianças do legado da civilização cristã. Quando a “libertação” mostrar sua outra face, quando Pala revelar sua identidade com Rendang-Lobo, haverá choro e ranger de dentes. Mas, como aconteceu com a geração de 60, nenhum dos autores da tragédia reconhecerá suas culpas: cada um deles se proclamará um idealista traído pelos rumos imprevisíveis da História e, revigorado pelo sentimento de inocência, tirará da cartola um novo projeto de “mundo melhor”.

Conclusão:

1. As principais características da sociedade utópica de Pala e que a levaram a destruição são as que se seguem:

­ - Considerar que a natureza é sacrossanta. (Não é)

- ­ O princípio de que todas as pessoas são boas. (Não são)

-­ O princípio de que a mente do ser humano é capaz de produzir a realidade. (Não é capaz)

-­ A revolta contra o cristianismo. (A única possibilidade do ser humano é via cristianismo. Não há outra).

-­ A experiência humana desassociada da possibilidade de transcendência para o divino. (Ateísmo, Gnosticismo)

­- O antropocentrismo (do grego anthropos, "humano"; e kentron, "centro"), uma concepção que considera que a humanidade deve permanecer no centro do entendimento dos humanos, isto é, tudo no universo deve ser avaliado de acordo com a sua relação com o homem.

-­ A tentativa de libertação do próprio destino.

-­ A rebelião metafísica.

­- A tirania intrínseca com face humana.

-­ A falta de liberdade individual.

-­ A destruição da liberdade.

­- A modificação da sociedade por meios subliminares.

­- O controle da sociedade.

-­ O totalitarismo.

2. O moksha (erva alucinógena) faz a ligação com a própria condição humana (bom/mau). Uma “experiência psíquica”, incapaz de transcender a dualidade cósmica e elevar-se ao reino da eternidade. É a mentira essencial de Pala que se desfaz ao mesmo tempo em que a falsa visão espiritual.

3. Pala foi destruída pela própria utopia, pois a utopia não resiste a uma única noite frente à realidade.

-­ Não é possível produzir um ser humano ideal a partir de critérios humanos.

-­ Não se pode resolver os problemas humanos produzindo uma reengenharia humana, ou seja, mudando a própria natureza das pessoas.

-­ Não se pode assumir o lugar de Deus e construir um novo homem.

Finalizando:

“A Ilha não é a tragédia de um paraíso de liberdade destruído pela invasão de militares malvados: é a tragédia da autodestruição de uma utopia intrinsecamente má e mentirosa envolta em belas palavras”

Se o mundo não é perfeito, cabe ao homem promover atos perfeitos para viver melhor e não querer construir um mundo perfeito.

“Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas”, afirma o prof. José Monir Nasser.