"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. E, por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso"

sábado, 10 de outubro de 2009

O SÉCULO DO NADA

Autor: Gustavo Corção
Editora: Record
Edição: 2ª
Ano: 1973
Páginas: 437

Sinopse: Uma vez entendido o fundo da questão, todo o século XX merece ser revisto nas causas dos seus principais acontecimentos. Quem poderia pensar, aqui no Brasil, que uma crise no governo francês, o Affaire Dreyfus, tivesse importância para o século que começava? Corção vê estas causas e descreve como a política geralmente ensinada e propalada está cheia de enganos e erros. Assim também para a condenação da Action Française, de Charles Maurras, o papel de Franco na salvação da Espanha e todos os demais acontecimentos do século XX. Termina com um pungente capítulo sobre a Igreja, sobre o Concílio Vaticano II, que abre as portas aos progressistas, dando início ao que Corção chamou de pecado terminal.

Trechos da Obra:
“Mais tarde soube pelo Fábio, de nós todos o mais informado, que o movimento de Economia e Humanismo fora fundado pelo Pe. Lebret e outro dominicano, o Pe. Desroches, que já deixara o hábito e se tornara resolutamente marxista. O Pe. Lebret morreu dentro da Igreja e da Ordem, e até disseram publicamente que foi ele o inspirador da Populorum Progressio.


Naquele tempo não se comentavam tais coisas em nosso grupo, e pouco sabíamos do que já era efervescência e quase explosão na Europa. Recalquei minhas impressões, e reconheci que nada do que ouvira do Fe. Lebret se enquadrava mal na doutrina sagrada. O que eu poderia dizer, se naquele tempo usássemos tal vocabulário, e que sua pregação era secularizante. Punha o centro de gravidade da vida nas coisas temporais. Aonde nos levaria, com o tempo, o interesse despertado e difundido pelo Pe. Lebret?" (CORÇÃO, p.28)

"Na década dos 50, contra meus mais consolidados costumes, aventurei-me a viajar pelo Brasil e a fazer conferências sobre as coisas do Reino de Deus. Lembro-me de uma viagem nossa a Belo Horizonte onde, com surpresa, vimos que os estudantes tinham colocado faixas pelas ruas, e espalhado camionetas pela cidade a anunciar as conferências do autor destas linhas. Toda a Juventude Católica estava conosco nesse tempo e não se percebia um só sinal de comunismo entre os moços. Perdão, havia o Luís Carlos. Foi uma maratona de conferências, entrevistas e conversas em círculo, sem interrupção. Creio que em 2 ou 3 dias fizemos mais de 12 conferências, às vezes com 400 ouvintes, moços universitários. Não começara a infiltração de estupidez. Os moços eram ainda adjetivamente moços, e não substantivamente e magicamente "jovens". O comunismo ainda não começara... Perdão, havia o Luís Carlos. Sim, o Luís Carlos. No segundo dia de batalha, ao meio-dia e trinta, consegui fugir dos moços, e já me esgueirava para chegar ao hotel, onde contava descansar um pouco e almoçar, quando senti travarem-me o braço. Era o Luís Carlos, que se apresentava e queria dizer-me uma palavra. Conversamos horas: ele tinha idéias comunistas, mas já desconfiava de seu quilate; queria mais. No dia do Corpo de Deus, numa grande festa em que mais de quinhentos moços confessaram e comungaram, lá estava o Luís Carlos, humilde e feliz. Meses depois recebi no Rio uma carta dos pais de Luís Carlos, e num farrapo de papel um agradecimento escrito a lápis e uma despedida marcando encontro no céu."
(CORÇÃO, p. 29)

"Conto estas coisas porque esse Pe. Lage é hoje figura internacional. Há livros em francês mentindo sobre o Pe. Francisco Lage Pessoa, como mentem sobre Dom Hélder Câmara. E o que eu quero dizer, em poucas linhas, é que convivi, e dia a dia acompanhei a evolução desses padres que trocaram a Comunhão dos Santos pelo Partido Comunista. E assim como esses, vi de perto muitas e muitas outras degradações que julgava impossíveis. Começava para nós a Paixão da Igreja segundo o século XX."
(CORÇÃO, p. 30)

"Aqui no Brasil nós sabemos que a pregação de Economia e Humanismo do Pe. Lebret, e dos dominicanos contaminados, levou o Pe. Francisco Lage ao marxismo e ao comunismo militante. Sabemos que foi essa infiltração que transformou o Convento de Perdizes, dos frades dominicanos, em quartel-general do guerrilheiro marighela. Sabemos que as moças egressas de tradicionais colégios católicos se transformaram em salteadoras de bancos, amantes de comunistas e culpadas de assassinatos de inocentes policiais. E para maior estridência do escândalo, e para maior evidência da fonte de inspiração, temos um arcebisto [D. Helder Câmara - 1901-1999] a esvoaçar pelo mundo inteiro e a pregar uma espécie de socialismo em favor do qual é belo e meritório o ato de seqüestro e assassinato de refens." (CORÇÃO, P. 90)

Sobre o autor:

Gustavo Corção nasceu em dezembro de 1898, no Rio de Janeiro. Cursou Engenharia na antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Trabalhou em Astronomia de Campo, em Mato Grosso; em serviço de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro e Espírito Santo; em Radiocomunicações, de 1925 a 1937, e depois em atividades industriais, até 1948. Casou-se em 1924, e, em segundas núpcias, em 1937. Converteu-se à Igreja Católica em 1939. Publicou seu primeiro livro 'A descoberta do outro', em 1944; em 1945, 'Três alqueires e uma vaca'; em 1951, 'Lições de Abismo', e, em 1952, 'Fronteiras da Técnica'; em 1956, 'Dez Anos' (Crônicas) e 'O Desconcerto do Mundo', em 1965. Foi colaborador semanal de 'O Estado de São Paulo', do 'Diário de Notícias', do Rio de Janeiro, e do 'Correio do Povo', de Porto Alegre. Faleceu em 6 de julho de 1978.

Gustavo Corção
1896 - 1978
Um dos maiores escritores de nossa língua, marginalizado e enterrado pelas esquerdas que dominam nosso universo jornalístico e editorial.

O Século do Nada — Introdução 1ª parte
(Página 12 até 34)
Comecei hoje. Começo agora, nestas linhas, um livro com que venho sonhando há mais de quatro anos e que agora, depois de muitas hesitações, resolvi começar, mas logo pressenti que este livro, como todos os que quis escrever e escrevi, e como os milhares que não escrevi, está rigorosamente acima de minhas forças. O fato é que tudo o que li nestes últimos cinco anos sobre o que aconteceu no mundo católico, e sobre o que me parece explicar o que está acontecendo, compele-me imperativamente, preceptivamente, a escrever este livro, não por julgá-lo necessário e útil para a Igreja e para o mundo, mas simplesmente por julgá-lo indispensável à completação e ao retoque, do testemunho que venho deixando há tantos anos em livros, aulas e artigos. Mas, além desse imperativo de algumas retratações que tenho impaciência de formular, não escondo o velho vezo de professor que me leva ao temerário empreendimento de buscar explicações nas águas turvas deste século. Daí os subtítulos que já tenho antes de ter o título:
RETRATAÇÕES
REAFIRMAÇÕES
INTERROGAÇÕES E OUTROS ... ÕES.
Nestas páginas de introdução, tentarei dar ao leitor algumas explicações pessoais sobre posições tomadas, que hoje me obrigam às retratações e me estimulam à busca das causas. O tom será aqui e ali pessoal, evocativo e afetivo, porque na verdade vou reabrir feridas, ou ferir-me onde me julgava ileso. Deixarei correr a memória sem preocupação de método e de sistematização, mas depois desse desabafo no ombro imaginário, de um leitor imaginariamente amigo, levantarei vôo para as terras onde todo o drama deste século se iniciou e se desenrolou, e então tratarei de esquecer-me de mim e do leitor, para entregar-me de corpo e alma à observação do registro dos fatos, que nos trouxeram tão inimagináveis calamidades. Teremos de entrevistar muitos autores, teremos de nos afastar aqui e ali de alguns a que estivemos quase colados, mas também teremos de nos aproximar de outros que um preconceito dos anos quarenta e cinqüenta nos impedira de ver e de admirar. Tudo isto custou para o autor destas linhas um esforço de estudo que só pôde realizar porque, no momento em que se aposentava de alguns deveres de estado e se simplificava a família, teve ainda reservas de força e saúde para rever e ler tudo o que não lera em trinta anos de estudo mais aplicado à doutrina perene do que aos turbilhões produzidos na história pelos contatos, sempre difíceis e sempre trágicos, entre a Igreja e o Mundo.
Comecemos, pois, as explicações pessoais prometidas. E como sempre convém a qualquer obra que, embora minúscula, pretenda ser serviço de Deus, comecemos pelo sinal da santa cruz.
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.
Antes de mais nada, convém agradecer a Deus o fato de estarmos nós ainda em tempo de colher e de louvar. Por mim, considero com estupefação, e certo constrangimento, este elevado patamar da vida que nunca julguei alcançar.
Desde que me lembro de mim, vejo-me sempre espantado de sobreviver. Não que tivesse índole melancólica ou tristonha. Ao contrário, fui um menino alegre e cheio de vida, mas por isso mesmo, ou por uma das tantas contradições do pêndulo da alma, sempre senti muito vivo, muito aguçado, o provisório de tudo o que por aqui andei fazendo. Desde os dez ou doze anos vivo eu a sobreviver e a me espantar. Quando fiz vinte e quatro achei-me um Matusalém e apostei comigo mesmo que não chegaria aos vinte e cinco.
Anos atrás conheci Oswaldo Goeldi. Estava querendo ilustrar minhas Lições de Abismo e julgou que, antes de prosseguir o trabalho, devia conhecer pessoalmente o autor. Foi assim, em busca de minha obra, que uma tarde bateu-me à porta. Conversamos. Dez minutos depois éramos amigos de infância; com mais dez minutos quase chorávamos juntos, cada um sofrendo a dor do outro. A dele, no momento, era a Bienal. Só de falar "Bienal" o olhar abrasava-se e o nome saía-lhe como um soluço.
— E você? E você? — perguntava-me aflito de não saber qual era, no dia, a minha bienal. E foram só esses míseros vinte minutos toda a nossa amizade vivida. Tempos depois, atravessando uma rua entre os carros de um congestionamento, avistei-o numa fila de ônibus. Ele também me viu, e espantadíssimo exclamou: — Você está vivo? Você está vivo?
No dia seguinte recebi a notícia mais estapafúrdia e mais natural do mundo: Oswaldo Goeldi morrera.
Esta curta história de uma curtíssima amizade está descabida neste livro, ou melhor, nesta breve introdução de um livro que muito me admirará se um dia o tiver nas mãos terminado. O que tentei transmitir foi uma idéia simples, ou um critério simples que me classifica no hemisfério da humanidade onde se acotovelam, sempre mal instaladas, as almas incôngruas que andam por aqui como se estivessem a viajar no "outro lado", ao revés, ao avesso de tudo.
O fato é que assim mesmo de surpresa em surpresa, de admiração em admiração, de agradecimento em agradecimento, percorri uma quilometragem que pouco falta para somar um século. Nasci antes do balão de Santos Dumont. Antes do "Affaire Dreyfus". Antes do Século. E desde cedo comecei a ensinar. Aos onze anos tive os primeiros alunos de aritmética, e cedo habituei-me a respeitar as formas humildes da incapacidade de compreender as primeiras noções da abstração matemática. Lembro-me com ternura e admiração do meu aluno e amigo José, da mesma idade, que depois de um esforço quase muscular, rubro de vergonha ou do esforço, suplicava-me:
— Gustavo, explica outra vez. Mais devagar. Você sabe que eu sou burro.
Mais tarde, na vida de professor ou de jornalista terei muitas vezes uma lancinante saudade da casta e genial burrice do José.
Cresci dentro de um colégio, ensinando em todos os níveis e a todas as raças. Quando volvo os olhos para qualquer estação do passado, lá me veio a ensinar. Ensinei no Colégio Corção — colégio pobre e supermisto, colégio de antigamente — todas as matérias do primário e do secundário, e mais algumas que a fantasia da vida acrescentava. Ensinei matemática, português, geografia, ciências, taquigrafia, xadrez e esgrima. Toda a família estudava e ensinava, e eu, dentro dela, cumpria um modo de ser, um feitio do corpo, um código genético. Professor. Animal-professor. Sempre. Na Escola Politécnica daqueles largos e claros dias em que não existia ainda o monstro disforme chamado "universidade", fui professor de química e de astronomia todas as vezes que o avanço sobre colegas menos estudiosos me proporcionasse ocasião. Lei dos vasos comunicantes. Guarde bem, leitor, esta nota: não estou aqui a me inculcar como alguém capaz de ensinar física, química, matemática, astronomia, esgrima e xadrez. Estou apenas dizendo que sempre, ao longo da vida, por uma fatalidade cromossômica, andei ensinando o pouco que aprendia antes de outros aprenderem. Só me vejo mais engenheiro do que professor no ano de 1919, em que andei a fazer coordenadas geográficas nos confins de Mato Grosso, onde estive perdido muitas vezes, com sede, fome, e lebre e onde aprendi a laçar boi e a apanhar no chão o sombrero sem me apear do cavalo a galope.
A que vêm todas essas recordações? Não incluí nos subtítulos desta obra "confissões" nem "recordações". Abrevio, pois, as léguas que andei por esses brasis, e os anos que vivi como engenheiro. Em certa altura da vida troquei a astronomia pela eletrônica que acabava de nascer. E logo me vejo, depois de 15 anos de engenharia na Radiobrás, onde com Carlos Lacombe e José Jomotskoff fomos pioneiros dos primeiros circuitos transatlânticos de radiotelefonia, a ensinar a dita eletrônica aplicada às telecomunicações na recente Escola Técnica do Exército (hoje Instituto Militar de Engenharia), onde também fui uma espécie padrinho da nova técnica, que ensinei durante 35 anos. Na Escola Nacional de Engenharia, da Universidade do Brasil, também ensinei a mesma disciplina até a aposentadoria.
Mas antes disto, lá no meio do caminho, quando "la dirita via era smarrita", ao contrário do que aconteceu com Dante, achei-me de repente dentro de uma casa luminosa, como se já estivesse no "outro lado", onde me viu naquela tarde inesquecível o ardente olhar de Oswaldo Goeldi. Voltava à fé de meu batismo. Voltava à Casa. Já tive a estulta extravagância de tentar contar a história dessa volta em A Descoberta do Outro (AGIR, 1944). Hoje tenho certo vexame do que andei escrevendo de mim mesmo e de minhas angústias espirituais; mas não é dessas coisas que me sinto na obrigação de me desdizer e de me retratar.
Não seria capaz de encontrar hoje, em mim mesmo, suficiente petulância ou suficiente inocência para escrever, reescrever ou descrever A Descoberta do Outro. Fica como está. Quod scripsi, scripsi. Eis a dura lei da irreversibilidade dos textos imprudentemente publicados. Se ao menos, em vez do papel e da tinta, nos contentássemos em escrever com o dedo na areia, teríamos melhor patrono do que Pilatos.
Bem avisado andou Henri Charlier quando um jovem intelectual o procurou para entrevistá-lo e pedir-lhe a história de sua conversão. Interrompendo com mau humor a obra que pintava, rasgou uma tira de jornal e rabiscou: "Ma conversion est une grâce immeritée de la Toute-Puissance Divine". Não menos sábio foi o humilde e obscuro amigo que ouvia em silêncio as histórias dos "convertidos" do Centro Dom Vital. Quando lhe perguntaram: — E você? Como foi? — ele ficou meio embaraçado e afinal balbuciou: — Foi assim. Deus me pegou, me ajeitou na porta da Igreja, e me meteu o pé...
Assim ou assado, "à plat ventre dans la Maison Lumineuse", ou bola no goal de Deus, achei-me logo compelido à posição essencial de animal-professor. Estudar para ensinar. Ensinar para ser o primeiro a aprender, e para logo ensinar. E a par dos cursos que dei sobre a eletrônica aplicada às telecomunicações passei a ensinar o que quer dizer, por extenso, o credo dos Apóstolos: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, etc. etc.
E deste curso até hoje não me aposentei nem tenho nada a retratar. Nesse meio tempo escrevi livros, escrevi artigos que ainda interminavelmente escrevo nos jornais. Sempre na mesma posição genética, inevitável. Com exceção de algumas páginas em que permiti que o doido, o máscara-de-ferro, tomasse a pena e deixasse vazar a nostalgia de loucura que trazia acorrentada a sete deveres de estado, volto sempre ao plantão, ao avental. Já disse atrás que isto é um feitio do corpo. E agora, nesta recapitulação, assusto-me, acha-me a recear ter sido demasiadamente professor. Perdoem-me os amigos que enfadei pelo esquecimento de que há um tempo para tudo, como lá diz o sábio do Eclesiastes.
Mas a razão de todo este preâmbulo, onde já corri o risco de não conseguir o que mais almejava, não é a de me pintar para uma eventual posteridade, nem a de me desculpar de ser o que sou irremediavelmente. Outra é a razão. Pensando em tantos anos de ensino, de comunicações, de livros, de conferências, recapitulo preocupado, assustado, tudo o que andei transmitindo. Ou melhor, recapitulo o que deixei de dizer. Terei de fazer várias retificações, várias retratações, mas agora acode-me a idéia de uma omissão que implica uma série de recolocações, e pela qual eu estremeceria de vergonha e tristeza se, no momento de dizer o nunc dimitis, me viesse à mente o relâmpago do negrume de tão espantosa omissão. Qual? A de nunca ter escrito em minha longa vida de escritor, entre tantas páginas de louvor e de admiração, de entusiasmo e de apologia, estas poucas palavras exigidas pela mais clara verdade e pela mais límpida justiça, sim, estas poucas palavras que já deveriam ter transbordado de meu coração agradecido e deslumbrado:
Honra e glória à Espanha católica de 1936.
Honra e glória a Dom José Moscardó Ituarte,
defensor do Alcazar, a seu, filho Luis Moscardó, a
Qeipo, de Llano e a José Antonio Primo de Rivera.
"España libre, España bella
Con roquetés y Falanges 
con el tercio mui valiente..."
Honra e glória aos doze bispos mártires e aos quinze mil padres, frades e religiosas
"verdadeiros mártires em todo o sagrado
e glorioso significado da palavra" (Pio XI).
Honra e glória a todos que morreram
testemunhando com SANGRE: "Viva Cristo Rey"!
E agora que sobrevivi e consegui apressadamente cumprir um dever atrasado, poderemos mais descansadamente explicar a trama de desatenções, de erros, equívocos e empulhamentos que, entre outras coisas, produziu tão grave omissão em tantas páginas de escritores católicos. Se Deus for servido, transmitirei ao leitor o que venho estudando há alguns anos sobre as causas próximas da crise que aflige nosso século e que flagela a Igreja com espantosa crueldade. Tenho a poucos metros de distância, em formação de combate, a centena de livros básicos de que já tirei as fichas principais; em cima da mesa as esferográficas e o papel aberto, branco, vertiginosamente branco.
Foi em 1939. Sim, para entender as causas e as implicações de tão grave omissão, preciso prolongar um pouco as explicações pessoais, e preciso lembrar que foi em 1939 que me achei no grupo de amigos que nesse tempo militavam no Movimento Litúrgico, em torno do Mosteiro de São Bento e do Centro Dom Vital. Aos quarenta e dois anos voltava à fé do meu batismo, e abria os olhos para o mundo. Toda a minha formação anterior era a de um engenheiro, ou de um quase-bárbaro armado de alguns conhecimentos científicos, provado por alguns intermitentes e malogrados acessos literários, mas totalmente desinteressado do tumultuoso curso de acontecimentos com que o século, já quase meio andado, ganhava corpo. É difícil imaginar maior candura e maior despreparo do que o do pobre engenheiro e professor que em meados de 39 se achou de repente cercado e intimado a uma incondicional rendição. Lera livros de Chesterton e outros de Maritain. Descobria ao mesmo tempo a Igreja e o Mundo aos quarenta e dois anos de idade. E no mesmo despertar encontrava-me a mim mesmo nas várias tentativas que fizera no mundo da poesia, da música e da pintura. Tudo isto, que trazia guardado, e que nesse enclausuramento me mantinha apartado do mundo, quase como um anacoreta na Estação Receptora da Radiobrás, em Jacarepaguá, obrigava-me agora a entrar no turbilhão dos fatos. No Brasil, o regime originado pelo golpe de estado de 1937 inculcou-me uma aversão pelos regimes políticos semelhantes. Vinha da Europa, e mais especialmente da França, uma corrente de antifascismo que recebi sem procurar discernir as várias significações que o mesmo vocábulo encobria. Vagamente tomara conhecimento da ascensão de Hitler e de Mussolini. Lembro-me bem da primeira vez que vi em Jacarepaguá, num cinema poeira, a figura de Adolf Hitler, a discursar num cenário wagneriano. Levantei-me, como quem acorda, sem poder sopitar uma exclamação: "Esse homem é um louco!" Minha mulher puxou-me pelo casaco, e eu me espantava com a tranqüilidade da platéia. Naquele momento tive uma fulgurante intuição de que começava um período de demência universal, mas não imaginava que traços tomaria e que itinerários seguiria. A figura de Mussolini, correndo em passo ginástico com seu ministério, veio compor o que designava o termo "fascismo", e veio facilitar o sumário desprezo com que enquadraríamos o regime de Salazar em Portugal, e a recente ditadura implantada por Franco na Espanha.
Nos dias em que acordei para o mundo, já a guerra civil da Espanha estava terminada. Só ouvia vagas e sinistras alusões à hecatombe de padres e freiras feitas por católicos que nosso grupo, fiel a Jacques Maritain, tido por mestre quase infalível, via com certo desprezo. Eram os reacionários. A verdade é que, nas pequenas amostras que examinei com mais atenção, os defensores da Espanha do Alzamiento serviam mal à causa de Franco, enredando-a na do integralismo indígena, e assim comprometendo a causa que merecia melhores advogados.
Empenhado em estudar a filosofia tomista, e a Sagrada Doutrina, agarrei-me, ia dizer colei-me à pele de Jacques Maritain e tomei, sem maior exame, a posição que o mestre tomara.
Escrevendo hoje estas linhas, no limiar de um livro que desde já me dói como um descolamento de peles machucadas, pondero como é escuro o universo dos fatos, e como andamos nele às apalpadelas, com um pequenino flashlight a buscar veredas entre paredes e abismos. Além disso, pondere o leitor que naquele tempo eu tinha sete deveres de estado, família grande, aulas e aulas por dia, e que logo começaram a aparecer alunos que me procuravam para aprender o que eu acabava de aprender. Do dia para a noite, ou da noite para o dia, transformara-se a vida tranqüila do pobre engenheiro que na Estação Receptora da Radiobrás vivera quinze anos atento aos elétrons e esquecido dos homens. Por isso, não podendo acompanhar pelas revistas o que acontecia no mundo católico, tive de aproveitar as brechas de tempo para estudar intensamente a doutrina perene. Em 1939 e 40 eu cairia das nuvens, e não acreditaria, se me viessem contar o que já estava acontecendo na gauche catholique, em Paris. Foi preciso viver e sobreviver largamente para um dia ter tempo de voltar atrás e de descobrir, entre outras coisas, o que a dita gauche catholique fez com Robert Brasillach.
E ainda é preciso lembrar que, em 1939 o mundo inteiro concentrava todas as atenções na guerra monstruosa que começava.
De setembro de 1939 em diante o mundo ficou brutalmente simplificado; e na mesma proporção simplificou-se a filosofia política de meus primeiros anos de aprendizado humanístico. Não havia errada possível: era seguir em frente na trilha das "democracias". A queda da França lançou-me num inesperado estupor. Chorei como uma criança, mas logo que se delineou uma possibilidade de resistência inglesa, novamente simplificou-se para nós, brasileiros, e para mim, católico recentemente alfabetizado, a filosofia e a conduta política. Era ainda seguir em frente a trilha das democracias, e lá adiante, em 1941, dobrar à esquerda.
Lavro aqui um modesto elogio que o pobre católico semi-analfabeto daqueles anos bem mereceu. Apesar de toda a torrente antifascista e das prestidigitações de Hitler, que oscilavam entre o cômico e o diabólico, eu nunca tive o menor entusiasmo pelo papel que todos, já esquecidos do pacto germano-soviético, passaram a atribuir à URSS. Não dobrei à esquerda e resumi todos os meus anseios no desejo da derrota de Hitler pelos ingleses e americanos. Depois veríamos.
Nesse meio tempo, como atrás já disse, achei-me obrigado a estudar como nunca estudara, para me colocar de pé nos meus quarenta e tantos anos de vida nova que mais adiante, certamente, exigirá do animal-professor a sua atitude fundamental.
Cabe aqui um reparo sobre o Movimento Litúrgico, que foi uma espécie de trem andando que tive de tomar. Só se cuidava da Liturgia, só se ensinava a significação da Missa e dos Sacramentos. Havia nesse movimento uma boa tomada de consciência da participação que os fiéis devem ter no mysterium fidei, mas havia também qualquer coisa que não combinava bem com o pouco que já aprendera de catecismo. Lembro com alegria a história de minha primeira iniciação catequética. Antes de encontrar o grupo de amigos, e depois de já ter lido livros altos e difíceis, o engenheiro, pai de família numerosa, sentiu um dia a necessidade e o valor das proposições simples, e das fórmulas nítidas, para a custódia dos mais profundos mistérios da Fé.
Já possuía o primeiro compêndio que está no Símbolo dos Apóstolos. Naquele tempo os rústicos pescadores da Galiléa sentiram a mesma necessidade e trataram logo de gravar o primeiro Credo do Povo de Deus. O que havia de comum entre os primeiros apóstolos e o engenheiro de 1937 ou 38 era o bom senso de quem sabe que o homem não pensa só com a cabeça, mas também com as mãos. Nós outros, engenheiros ou pescadores, sabemos assim, por várias vias, que o homem deve ser dócil e obediente à realidade das coisas. O "intelectual", ao contrário, é aquele refinadíssimo indivíduo que acha certa vulgaridade no real, e por isso prefere pensar a conhecer, isto é, prefere jogar com os entes de razão que ele mesmo fabrica ou compõe. Digo estas coisas, com o risco de nunca acabar esta introdução, e por mais forte razão o livro, porque parece-me que nunca é demasiado insistir no valor que tem o bom senso para a mais alta vida do espírito.
Voltemos à necessidade que um dia senti de doutrina sagrada. Procurando por toda a casa, achei o catecismo de meu filho que cursara o Colégio Santo Inácio quando eu era ainda vagamente filocomunista, e o Colégio Santo Inácio era ainda menos vagamente integralista. Achei-o e tive o dissabor de ler nas margens as reflexões desairosas que meu filho escrevera, e certamente aprendera comigo. Havia pilhérias, irreverências e aqui ou ali algum palavrão.
Foi nesse livrinho assim marcado por minha própria miséria que tive uma primeira visão de conjunto da Sagrada Doutrina. Eu sentia que aquele "grau do saber" precisa começar por uma visão global, por uma primeira aproximação de um todo doutrinário. O progresso se processaria depois intensivamente, por aprofundamento, e não extensivamente por alargamento.
Lia decorando, e procurando uma primeira penetração dos mistérios da Fé. Às vezes parava angustiado, humilhado; às vezes chorava; mas também às vezes entrevia um fulgor de eternidade e então beijava a página, eventualmente no lugar de alguma reflexão deixada pelo filho de um pobre-diabo que fora filocomunista em 1934 e 35. Marxista nunca.
O materialismo ateu, e especialmente o marxismo, modéstia à parte, sempre me pareceram estúpidos demais. Naquele tempo, não era a existência de Deus a coisa mais difícil de aceitar de joelhos. Era o pio da vida, eram as chagas de um Deus escandalosamente crucificado por mim. E era sobretudo o mistério da Igreja a perpetuar com homens e para os homens a distribuição do preciosíssimo sangue.
Nos anos da guerra, já convertido e muito ajudado pelos amigos beneditinos e por Fábio Alves Ribeiro, comecei a ler Gardeil, Garrigou-Lagrange e Santo Tomás. Escrevi nesse tempo o meu primeiro livro, A Descoberta do Outro, que alcançou um inesperado sucesso: em menos de quinze dias esgotou-se a primeira edição, e em poucos meses a segunda e a terceira. Começaram a aparecer pessoas a me procurar no Centro Dom Vital. Minha vida tornou-se então dificílima na execução das tarefas, mas facílima nos critérios. Devia estudar filosofia, teologia, desejar a vitória da Inglaterra, combater o "fascismo" e a ditadura Vargas. E principalmente devia desejar ser perfeito como o Pai Celestial é perfeito, ou, pelo menos, devia nunca deixar de desejar esse desejo.
Nossa filosofia política se resumia no credo democrático às vezes excessivamente simplificado, mas incontestado. Nesse tempo todos nós, do São Bento, do Centro Dom Vital e d'O Pingüim, tínhamos convicções tranqüilas e bem definidas. O Pingüim era uma loja de discos e músicas na Rua do Ouvidor, cujo gênio tutelar, o Rocha, Oscar Rocha, a par da fina sabedoria escondida numa doce e irônica modéstia, dava-se ao luxo de ter uma cabeça de Beethoven. Nos fundos dessa loja, numa escassa Área de uns quinze metros quadrados, ou pouco mais, reunia-se todas as tardes uma tertúlia onde tive o gosto de conhecer os mais variados e surpreendentes representantes desta tão desmoralizada humanidade.
Se naquele tempo algum agente marciano quisesse seqüestrar um terrestre para estudos, eu o aconselharia a procurá-lo n'O Pingüim, onde quase todas as tardes Fernando Carneiro trazia um novo argumento para contestar Barreto Filho, a respeito do Labour Party ou do socialismo em geral, e onde Ovale freqüentemente trazia o brilho de seu monóculo e o inesperado de alguma nova apreciação sobre as coisas mais definitivas e assentadas. Tínhamos também Villa Lobos, em carne, osso e charuto, sempre lírico e sempre absurdo. E foi nesse reduto de efêmeros que o vento da vida levou, foi nesse fundo de loja que diversos encontraram a primeira notícia de vida eterna. Lembro-me de meu bom afilhado Oswaldo Dourado, de minha afilhada Maria Isabel e do excelente Tancredo Ribas Carneiro, e principalmente de Alfredo Lage, que também conheci n'O Pingüim.
Todas as tardes, pontualmente, derrotávamos Hitler e salvávamos o Brasil. Barreto Filho e Fernando Carneiro tiveram a idéia de fundar a Resistência Democrática, novo grupo que também, com o correr dos dias, tornou-se um acampamento do Reino de Deus.
Nesse tempo chegava da Europa católica um vento de ativismo. O cristão tinha de dar também seu testemunho na cidade temporal. Mas a nossa Resistência Democrática funcionou ao contrário: os resultados temporais foram medíocres, mas em compensação foram numerosas as conversões que levaram Fernando Carneiro a fazer um patético apelo ao Hilcar Leite, ateu, vagamente socialista e conhecedor de todas as prisões do Rio e de Niterói. Com os estatutos na mão, Fernando Carneiro frisava o caráter aconfessional da Resistência e concitava-o a manter-se no seu robusto ateísmo:
— Hilcar Leite, você agora é o único ateu desta casa, que é uma instituição aconfessional. A Resistência Democrática espera que você cumpra o seu dever...
Todos se riam, felizes, e no fundo da sala o próprio Hilcar Leite exibia um pobre sorriso desdentado onde se lia a mesmo comum alegria de vivermos entre irmãos.
No dia 2 de abril de 1945 o mundo inteiro estava eletrizado com a notícia do fim da guerra' Eu sentia um mal-estar indefinível. À noite recolhi-me mais cedo, e já estavam todos dormindo quando o telefone tocou. Atendi. Uma voz de mulher estrangeira gritou no meio de um vozeiro: Os russos estão entrando em Berlim!
Fiquei silencioso. E ela repetia, com estridência: — Os russos estão entrando em Berlim! Inexplicavelmente respondi-lhe: — Merda! E no quarto diante de minha mesa de trabalho e do crucifixo, depois de uma breve oração deitei a cabeça nas mãos e repeti para mim mesmo como quem geme: — Os russos estão entrando em Berlim. Uma certeza medonha e brutal apunhalou-me: perdêramos a guerra. Ou melhor, perdêramos a paz. Eu sentia o punhal: arrematara-se a mais hedionda conjuração de traições. E começava, naquele dia de festividade monstruosamente equivocada, uma era de inimagináveis imposturas. Incompreensivelmente, depois de tantos sofrimentos, de tão detidos esforços, de tão maravilhosos heroísmos, os povos de língua inglesa, derrotados por si mesmos, pelo liberalismo e pelo democratismo, entregavam ao Minotauro comunista dez vezes mais do que a parte da Polônia em razão da qual entrara o mundo em guerra. Singular e cínico paradoxo: para cumprir um tratado e para evitar a partilha da Polônia, a Inglaterra e a França aceitaram finalmente o ônus de uma guerra mundial contra o pacto germano-soviético; agora, depois da vitória sobre o nazi-comunismo, entregava-se a Polônia inteira ao comunismo que também foi vencido, e que só comparece entre os vencedores no quinto ato da comédia de erros, graças a um aberrante solecismo histórico, que nem sequer podemos imputar à habilidade e à astúcia do principal beneficiário. A impressão de uma direção invisível nessa comédia de erros impõe-se irresistivelmente.
Eu ouvia os foguetes. Milhares de bons cidadãos, de excelentes pais de família, de fidelíssimos antinazistas, abraçavam-se, congratulavam-se uns com os outros, convencidos de que finalmente as 'democracias" alcançavam a vitória. E eu perguntava: que vitória?
Terminada a guerra, voltávamos à rotina da vida. E nosso grupo dia a dia aumentava com famílias inteiras que chegavam, e de amizades que se multiplicavam na proporção de combinações de objetos 2 a 2, sem jamais nos passar pela idéia a mais tênue suspeita de que, dentro de uns poucos anos, um furacão passaria sobre o mundo com devastação maior do que a de todas as guerras somadas, e então veríamos os padres abandonarem as batinas, as freiras esquecerem os votos e os medos, e os bispos se transformarem em diretores, secretários, presidentes e vice-presidentes de uma organização burocrática incumbida de publicar falsas notícias e de difundir doutrinas e esperanças ainda mais falsas. Mas não antecipemos.
Uma noite, creio que em 1948, estava eu a ouvir um disco de Mozart quando alguém bateu à porta. Era Fernando Carneiro, o inimitável Fernando Carneiro que chegava sempre com ar de quem, entre uma corrida e outra corrida, quase digo entre um e outro vôo, precisava pousar e transmitir alguma coisa que escrevera sobre política imigratória ou sobre a pena de morte. Ele precisava angustiosamente de quem o ouvisse, e ficava nervoso, irritado, pronto a voar se percebesse o mais leve sinal de impaciência ou desinteresse. Bom Fernando Carneiro. Passou pela vida como um original, quase como um louco, sendo entretanto um homem cheio de sabedoria e de bondade. Guardo como jóias os poucos conselhos que me deu nos ângulos da vida.
Em matéria de doutrina social tínhamos divergências porque Carneiro estendeu o mais que pôde seu crédito às esquerdas. Eu, que já havia pago meu pedágio à estupidez humana nessa matéria, não sentia a menor disposição de "voltar ao vômito", mas estávamos todos longe de supor, de pressentir o que ainda deveríamos sofrer nesse capítulo.
Naquela noite, Carneiro pediu água, e no meio da sala, com o copo na mão e o lenço na outra, parecia um mágico que se preparava para tirar coelhos do lenço ou do copo. Em vez de coelho, tirou o Padre Lebret.
— Você já ouviu falar no Padre Lebret?
Eu não ouvira falar, e Carneiro continuou:
 — Olhe, o negócio é assim: Aristóteles, Santo Tomás, Lebret.
Fiquei meio alarmado, mas não pestanejei. E Carneiro explicou-me quem era esse frade dominicano que se dedicara a levantamentos sociológicos entre os pescadores da França, que fundara um movimento chamado "Economia e Humanismo" e que agora viera estudar o Brasil...
Naquele tempo poderíamos saber, se estivéssemos acompanhando de perto a evolução da esquerda católica e da infiltração comunista na ordem dominicana, se conhecêssemos a história da revista Sept, "que morrera de gripe espanhola" mas logo ressuscitara em Temps Présent, revista apresentada por Mauriac e outros como sendo totalmente diversa de Sept (condenada por Pio VI), et cependant da mesma cepa, se conhecêssemos as escapadas de Maritain na revista Vendredi, poderíamos saber que o Pe. Joseph Lebret em 1948 trazia ao Brasil os primeiros germes do "ativismo desesperado" de que nos ocuparemos no último capitulo deste livro, ou os primeiros vírus do esquerdismo católico que vinte anos depois produziria o escândalo dos dominicanos que em São Paulo transformaram o Convento das Perdizes em reduto de guerrilheiros.
Mas não antecipemos. O fato de ser dominicano o personagem que cativara Fernando Carneiro tranqüilizava-me. Lembro-me da primeira vez que vi e ouvi Frei Pedro Secondi. Falava de algum problema social, muito carrément, sem precauções e meias-palavras. E, notando talvez sombra de receio ou escândalo no semblante de alguma senhora, explicou-se: "— Nós, dominicains, podemos pisar todos os terrenos sem medo, porque temos pés firmes e boa doutrina". E, para ilustrar a sentença, andou com passo forte em cima do estrado, de um lado para outro, e eu, maravilhado, ouvia as tábuas do estrado rangerem debaixo da corpulenta ortodoxia do frade dominicano.
Com ternura ainda mais viva (e hoje indizivelmente machucada) lembro-me como se tosse hoje daquela tarde, na Praça Quinze, creio em 41 ou 42. Chegavam de França os moços da AUC que tinham escolhido o hábito branco de São Domingos, os mais numerosos já estavam vestidos de preto no Mosteiro de São Bento, ou para lá se encaminhavam. Creio que era a primeira vez que eu via um dominicano, ou pelo menos um dominicano em flor. Quem naquela tarde viria ao Centro Dom Vital dizer alguma coisa de seus projetos e de suas esperanças no Brasil era Frei Romeu Dale. Sentei-me no fundo da sala, onde convinha que se apertasse a arraia-miúda dos novatos e dos ignorantes, e fiquei ansioso a esperar o lírio vivo e branco que nascera do coração de Domenico de Guzman; e quando, na frente do Alceu, entrou um moço alto, corado, com riso de criança, eu o acompanhei com os olhos e com o coração tomado de veneração apenas um pouco menor do que se visse surgir no salão o próprio Santo Tomás de Aquino. No estrado, ladeado pelo Alceu, que exultava como um pai feliz, Frei Romeu Dale falou da França, disse que tencionava dar um curso de teologia moral segundo Santo Tomás. E no decorrer da palestra, não sei por que, falou de Gilberto Freyre, e lamentou que "aquela grande inteligência tivesse resvalado para o socialismo". Alceu sorria deslumbrado. E eu fixava, guardava no coração, como um tesouro, a figura do frade, a veste, as palavras que nos prometiam a Ia. IIae do Doutor Angélico...
Outro dia, vendo a majestosa cabeça grisalha de Gilberto Freyre a circo metros de distância, no Conselho Federal de Cultura, lembrei-me de sua profissão de Fé, no elevador, quando alguém lhe perguntou em que é que afinal ele acreditava. Franzindo o rosto severo, apontou o teto do elevador e foi conciso: — "Em Deus, ora essa! Em Deus, em Deus".
Houve no ar uma corrente invisível de afeição, e vi que ele voltava-se para mim e me sorria. E eu então senti-me transportado não sei aonde, para um céu deste mundo ou do outro. E na cena maravilhosa que sonhei, num relâmpago de imaginação, vi-me outra vez sentado no fundo da sala, nos últimos lugares, à espera de um Gilberto Freyre anunciando por um Alceu de sonho ou de delírio. Entrava Gilberto em seus 70 anos em flor, e eu, encolhendo-me nos meus 73, vi-o subir o estrado onde, ladeado pelo Alceu, dizia com austeridade: —  "Em Deus! Ora essa, em Deus!" E depois de um preâmbulo abria os braços e lamentava que a mocidade de Frei Romeu tivesse resvalado para o "progressismo" comunizante.
Dias depois do anúncio de Fernando Carneiro (voltamos a 48) assisti a uma conferência do Pe. Lebret. Não disse a ninguém minhas reservas e minha preocupação. O frade falava com voz grave, contida, que forçava a admiração e revelava um ardor interno. Descrevia as favelas que visitara, e com muita firmeza e decência exprimia a dor que sentira; "J'ai pleuré". A sala da ABI estava cheia, Hélio Beltrão sentara-se aos pés tio frade, no estrado, e quando o pregador estendia o braço com um dedo acusador, eu apreciava o quadro vivo e me lembrava de estampa igual em que Eça de Queiroz descreve a manta universitária de Antero de Quental, que caía nos degraus da escalaria com pregas de imagem. No outro lado da sala, Carneiro enxugava a testa e não despregava os olhos do pregador. Todo o mundo conhecido. Naquele tempo todos nós sabíamos que era preciso enfrentar a questão social, que era imperativo levar o testemunho cristão aos menos favorecidos. Repetia-se muito a frase de Pio XI ao Pe. Cardijn, fundador da JOC: "O maior escândalo do século foi a perda da classe operária...".
À esquerda, no grupo da Ação Católica, estavam moças conhecidas, Yolanda, Maria Augusta, Nair Cruz. No momento preciso em que o Pe. Lebret com mão reprovadora afastava o "paternalismo" de certas instituições assistenciais da Ação Católica, Maria Augusta olhou em redor, e num décimo de segundo nossos olhos se cruzaram e eu vi que Maria Augusta estava feliz. A proscrição do "paternalismo", em nome da verdadeira ação social de baixo para cima, nos unira nesse décimo de segundo. E eu imaginei que todos os conhecidos estavam felizes de se sentirem ali acampados diante de uma certeza, e imersos num confortável consabido. Mas logo doeu-me alguma juntura da alma quando ponderei a curiosa força de congregar que têm as palavras muito repetidas. No fundo de todos nós há esse insaciável apetite de ver o que os outros vêem, de sentir o que os outros sentem, de saber o que os outros sabem e de atribuir às palavras o mesmo espectro de conotações e ressonâncias que os outros atribuem. Não agüentamos ver sozinhos, sentir, ouvir, saber sozinhos. Já escrevera a minha A Descoberta do Outro, e achei-me a pensar: o céu deve ser assim, um grande, um resplandecente consabido com o Carneiro de olhos pregados num Orador, e a Maria Augusta a olhar em volta como quem quer transmitir aos outros a alegria que de outro recebeu. Disse com meus botões: o céu são os outros. E senti de repente uma dor muito aguda como a de quem quase acertou, quase atingiu o alvo, mas ficou suspenso num acorde de sétima. Mais tarde um perverso intelectual dirá. "l'enfer c'est les autres". A dor aguda que sentia vinha da descoberta do ridículo daquele céu improvisado na ABI. Imaginei como seria fácil colocar ali outro frade a dizer outra coisa e a transmitir a mesma morna contigüidade das almas que só querem viver encostadas. Tive uma vertigem de pensar na relatividade das coisas que os homens vivem dizendo, e saí triste com minha pobreza. Foi só na rua que me corrigi, não, o céu é Deus. No salão da ABI éramos nós rodos que, numa projeção convergente de subjetividades, modelávamos o pregador. O céu de Deus há de ser, ao contrário, uma verdade que se impõe fortiter et suaviter e que nos segura, como um pai segura a mão do filho.
A conclusão a que cheguei, com todas essas considerações vertiginosas, foi esta: o padre não me convencera de coisa alguma que transcendesse o sincronismo das mentes atualizadas. Guardei minhas reservas sem deixar de reconhecer a verdade dos temas, no seu plano próprio, e a força de comunicação do pregador. Certamente não fora para esse tipo de atividade que o mesmo Pe. Lebret anos atrás resolvera deixar o século para ingressar na Ordem dos Pregadores fundada por Domingos de Guzmán que se disciplinava, rugindo de dor e de amor pela salvação das almas.
Dias depois, Fábio Alves Ribeiro e eu conversávamos, e começávamos a achar que o movimento do Pe. Lebret não rimava com o que estudáramos em Santo Tomás, em Garrigou-Lagrange, e no próprio Maritain que, nesse tempo, já escrevera Humanismo Integral. Comentamos que o dominicano francês falava demais em efficacité, coisa que também não rimava com o que procurávamos no Mosteiro.
Abreviemos. Uma tarde fomos todos com o Padre Lebret ao Mosteiro. Guardei bem a cena porque eu ia atrás e podia observar bem as várias configurações que tomava o grupo, e ouvir o que diziam sem necessidade de intervir ou apartear. Na frente, ao lado de Dom Abade curvado e afável, a carrure robusta do dominicano de rosto quadrado, duro e resoluto. Dois monges esticavam o pescoço para o gosto de ouvir falar francês, e Murilo Mendes, desembaraçado e afoito, quis em certo momento dizer uma frase definitiva. E lançou: "O comunismo é chato por não ter o senso da poesia". E então eu vi, com estes mesmos olhos mais moços, uma cena inesquecível. O Pe. Lebret voltou-se como se o tivessem picado, e com dois olhos azuis implacáveis pregados no rosto de Murilo retorquiu: "C'est vous que n'avez rien compris du communisme". Os monges sorriram. O abade sorriu. Ninguém sabia o que fazer dos braços e do rosto. Murilo meteu a viola no saco. Felizmente terminava ali o corredor e uma porta envidraçada produziu um torvelinho de pequenas amabilidades que encerraram o episódio. A visita ao Mosteiro prosseguiu, os pés inquietos e petulantes dos vivos avançavam sobre as lápides tumulares do claustro, a vida continuava por cima dos mortos, mas eu sentia-me paralisado, imobilizado, e quando dei acordo de mim ouvi-me dizer aos meus botões:
—"Esse frade é um comunista que se ignora". E tive a impressão, ou a ilusão de que um dos botões retrucava:
— “Que se ignora?. . . "
Mais tarde soube pelo Fábio, de nós todos o mais informado, que o movimento de Economia e Humanismo fora fundado pelo Pe. Lebret e outro dominicano, o Pe. Desroches, que já deixara o hábito e se tornara resolutamente marxista. O Pe. Lebret morreu dentro da Igreja e da Ordem, e até disseram publicamente que foi ele o inspirador da Populorum Progressio.
Naquele tempo não se comentavam tais coisas em nosso grupo, e pouco sabíamos do que já era efervescência e quase explosão na Europa. Recalquei minhas impressões, e reconheci que nada do que ouvira do Pe. Lebret se enquadrava mal na doutrina sagrada. O que eu poderia dizer, se naquele tempo usássemos tal vocabulário, é que sua pregação era secularizante. Punha o centro de gravidade da vida nas coisas temporais. Aonde nos levaria, com o tempo, o interesse despertado e difundido pelo Pe. Lebret?
Andava no ar desse tempo um ativismo que nos concítava a levar, não apenas nossos deveres de cidadão, mas também nosso testemunho cristão, a um engajamento maior e mais direto no. luta por uma ordem temporal mais justa. Por um mundo mais cristão, para inclusive poder ser mais humano. A obra de filosofia política e cultural de Maritain nos despertava para um dever de participação mais consciente e se inseria em nossa aversão pela ditadura de Vargas. De Charles Journet recebêramos a frase "uma nova cristandade quer nascer", que acolhêramos com otimismo e confiança. Não sei quantas vezes terei eu dito a meus alunos e companheiros essa frase que não sabia inserida, e às vezes comprometida num contexto cultural liderado pelas esquerdas e já envenenado pela infiltração da praxis marxista que desde a década dos 30 se espalhava pela Europa, e mais intensamente na França.
A vida continuava, e o pobre engenheiro, que em Jacarepaguá vivera quase como um anacoreta, mal conhecendo uma pessoa a mais por ano, e até chegara ao requinte de esquecer um dia o nome do Presidente da República, achava-se agora em pleno turmoil: aulas, aulas, aulas, estudo, estudo, estudo, conferência, conferência, conferência, campanhas eleitorais, filha, filha, filha, e às tardes, no Centro Dom Vital, o mais despreparado dos homens recebia pessoas, pessoas, pessoas e aos borbotões, famílias inteiras.
Na década dos 50, contra meus mais consolidados costumes, aventurei-me a viajar pelo Brasil e a fazer conferências sobre as coisas do Reino de Deus. Lembro-me de uma viagem nossa a Belo Horizonte onde, com surpresa, vimos que os estudantes tinham colocado faixas pelas ruas, e espalhado camionetas pela cidade a anunciar as conferências do autor destas linhas. Toda a Juventude Católica estava conosco nesse tempo e não se percebia um só sinal de comunismo entre os moços. Perdão, havia o Luís Carlos. Foi uma maratona de conferências, entrevistas e conversas em círculo, sem interrupção. Creio que em 2 ou 3 dias fizemos mais de 12 conferências, às vezes com 400 ouvintes, moços universitários. Não começara a infiltração de estupidez. Os moços eram ainda adjetivamente moços, e não substantivamente e magicamente "jovens". O comunismo ainda não começara... Perdão, havia o Luís Carlos. Sim, o Luís Carlos. No segundo dia de batalha, ao meio-dia e trinta, consegui fugir dos moços, e já me esgueirava para chegar ao hotel, onde contava descansar um pouco e almoçar, quando senti travarem-me o braço. Era o Luís Carlos, que se apresentava e queria dizer-me uma palavra. Conversamos horas: ele tinha idéias comunistas, mas já desconfiava de seu quilate; queria mais. No dia do Corpo de Deus, numa grande festa em que mais de quinhentos moços confessaram e comungaram, lá estava o Luís Carlos, humilde e feliz. Meses depois recebi no Rio uma carta dos pais de Luís Carlos, e num farrapo de papel um agradecimento escrito a lápis e uma despedida marcando encontro no céu.
Agora noto que errei na cronologia. Foi numa segunda visita a Belo Horizonte que encontrei o Luís Carlos. Tudo mais está certo. Nessa segunda visita em que fora convidado para pregar a preparação para a festa do Corpo de Deus, da JUC de Belo Horizonte, escolhera o tema: "Os sinais de Deus". A sala estava repleta e na primeira fila, entre dúzias de batinas estava o Pe. Francisco Lage. Acompanhava-me por toda parte e sempre que vinha ao Rio almoçava ou jantava conosco. Foi ele quem deu os dois primeiros missais de minhas duas primeiras filhas do segundo casamento. Tenho cartas afetuosíssimas dele. Em Belo Horizonte, sentado na primeira fila, acompanhava minhas conferências sem mover um músculo da face, mas às vezes, quando lhe parecia melhor alguma conexão teológica (que é o próprio da teologia) ou alguma imagem inopinada, que era a parte de meu ofício ele sorria apertando os olhos como gato afagado e feliz. E saíamos juntos conversando sobre Sacramentos e sacramentais. . .
Muitos moços que voltavam à vida religiosa me pediam que lhes indicasse um padre, e eu indicava o Pe. Lage.
Passavam-se os dias. Os anos. Uma noite bate-me à porta o Antônio Pimenta, que chegava de Belo Horizonte "para acertar os ponteiros".
Era um dos vários que formavam, em Ferros, um grupo de estudo em torno do Pe. Lage. Soube que o Pe. Lage havia fundado um núcleo de Economia e Humanismo, e agora tinha diante de mim o Antônio Pimenta e a evidência fulgurante: o Pe. Lage estava ensinando marxismo aos moços que o haviam procurado para perseverarem no cristianismo.
Conto estas coisas porque esse Pe. Lage é hoje figura internacional. Há livros em francês mentindo sobre o Pe. Francisco Lage Pessoa, corno mentem sobre Dom Hélder Câmara. E o que eu quero dizer, em poucas linhas, é que convivi, e dia a dia acompanhei a evolução desses padres que trocaram a Comunhão dos Santos pelo Partido Comunista. E assim como esses, vi de perto muitas e muitas outras degradações que julgava impossíveis. Começava para nós a Paixão da Igreja, segundo o século XX.
Foi em 1956 que percebi que a Ordem Dominicana, no Brasil, e certamente no mundo, estava em processo de erosão; e que, naquela tarde de anos atrás, eu poderia ter dito a Fr. Pedro Secondi, com apoio em São Paulo: "Quem está de pé, olhe bem que não caia" (1 Cor. 10,12).
Naquele dia de 56 os soviéticos tinham esmagado a Hungria. De manhã, meu filho me chama por telefone, do Itamarati, e só pergunta: — Pai, não vamos fazer nada? Combinamos um encontro à tarde para uma manifestação pública de protesto, e fui com Gladstone Chaves de Melo ao Convento Dominicano combinar não sei o que com Fr. Romeu Dale. "Pai, não vamos fazer nada?" Chamamos Fr. Romeu, que afavelmente nos conduziu à biblioteca, onde nos sentamos e eu logo desabafei meu horror pelo que estava acontecendo na Hungria. Desabafei veemente e ingenuamente. Mas, de repente, parei assombrado: diante de mim um pseudo-Fr. Romeu, ou o verdadeiro Fr. Romeu, com um sorriso ao canto da boca começava a dizer: — "Também os ingleses em Suez..."
Explodi. Dei um soco na mesa, não tão forte como o daria Santo Tomás, e grifei sem poder conter-me:
— Padre! Era aqui o último lugar do mundo onde imaginava ouvir tal coisa.
Gritei outras coisas de que não me lembro. À porta acotovelavam-se frades que vinham ver o que acontecera. E eu, caído em mim, pedi desculpas a Fr. Romeu e saímos do Convento. Na rua, não disse nada: sentia a terra fugir-me embaixo dos pés, e adivinhava que nunca mais me sentaria naquela casa onde tantas vezes parecera-me ver passar, trazidas pelos anjos, as figuras de Domingos, Tomás, Catarina de Sena... e tantos outros. Tempos depois o Pe. Lage dava à revista Manchete uma entrevista em que falava de cristianismo social e dizia que “essa história de ministrar sacramentos não tem futuro". Os estudantes católicos já não me convidam. Em três ou quatro anos, sem nenhuma modificação minha, fui chamado de "inimigo no. 2 dos estudantes", e dois ou três daqueles mesmos que me tinham por padrinho naquela festa do Corpo de Deus escreveram artigos em que eu era "múmia" ou "tinha morrido, mas esquecera-me de deitar-me no caixão".
Começa a violenta infiltração no meio estudantil.Eu vi essa infiltração como quem vê uma mosca caída no leite. E vi como se degradam os moços, como se violam as almas, como se envenenam os corações. Esse espetáculo da comunização de católicos é certamente o mais feio e deprimente feito que nosso século obscenamente exibe.
Surge a UNE, o "Metropolitano", e quando já se patinhava numa nova espécie de lama espiritual, desembarca no Rio o Pe. Cardonnei, dominicano francês, que logo se põe em contato com os estudantes da UNE e com os futuros dirigentes de VOZES. Em julho de 1960 começa a falar e a dizer tolices. Nesse tempo nós já éramos veteranos e já sabíamos que alguma coisa acontecera na Igreja e especialmente na Ordem dos Pregadores. Para nós, Fr. Cardonnei teve o mérito de ser o primeiro a nos trazer amostras de um fenômeno que brevemente tomaria proporções diluvianas. Eis aqui um tópico da autoria de Fr. Cardonnel, registrado e comentado em artigo nosso no Diário de Notícias de 31-07-60 com o título "Sinais dos tempos": "É preciso — dizia Fr. Cardonnel — que desconfiemos do que chamarei de fuga abstrativa. Por exemplo, falemos de homens, em sua situação concreta, e não da pessoa humana com sua eminente dignidade. O valor abstrato que possamos destacar dos homens reais é indiferente àquilo que eles são de fato. Em que consiste o direito da Família, pelo qual se pergunta freqüentemente? A família é uma abstração e ela não existe enquanto tal...". E por aí afora galopava Fr. Cardonnel no ano 60 para admiração dos jovens da UNE e do Metropolitano. Escrevi váríos artigos Os Dois Mundos (11-09-60), Ainda os Dois Mundos (18-09-60) e mais tarde (25-06-51), sobre um manifesto da PUC, escrevi O Anti-anticomunismo. E em (28-08-60) em Carta Aberta a um estudante de Belo Horizonte, que aconselhava a aposentadoria para os intelectuais, aconselhava eu exame vestibular aos colunistas.
Começava a luta fastidiosa que dura até hoje. Avolumava-se dia a dia a infiltração comunista no meio estudantil-católico, como se houvesse uma organização para ativar os agentes e outro para amolecer os pacientes. Frei Cardonnel foi um pombo correio que se adiantou demais e chegou antes dos outros, Porque nesse tempo ainda existiam bispos, e o episcopado brasileiro não fora ainda metido dentro do liquidificador das conferências, e por isso pude ainda ver, creio que pela última vez, funcionar a autoridade episcopal. O trêfego Cardonnel foi reexportado para a França, onde oito anos mais tarde, graças à maré montante de imbecilidade que invadiu a França, alcançaram enorme sucesso suas blasfêmias e suas asneiras, mas quem foi suspenso de ordens foi o Abbé de Nantes.
Começava o tempo da Paixão. Foi nessa época que procurei o Cardeal D. Jaime Câmara, pela primeira vez, para sugerir, suplicar, demonstrar a necessidade de fechar a JUC com a idéia de reabri-Ia mais tarde, depois de purgada. Dom fez-me uma série de ponderações onde as palavras "prudência”, "caridade" e todas as outras do léxico cristão pareciam-me colocadas num painel de equívocos. E confiou-me D. Jaime que estava pensando em designar um bispo para o especial cuidado da juventude. Dias depois saía no jornal a nomeação de Dom Cândido Padim, que vinha preencher uma lacuna na coleção de equívocos eclesiásticos. Fiquei apavorado, sobretudo quando vi na fotografia e na declaração publicada no jornal que D. Padim estava otimista! Mais tarde soube que Gladstone Chaves de Melo tivera conversa semelhante e igualmente inútil com o Cardeal.
Em novembro de 1963, Alceu Amoroso Lima, Presidente do Centro Dom Vital, de regresso de longa permanência no estrangeiro, escreve numa página inteira do Jornal do Brasil uma "encíclica" intitulada A Igreja, O Socialismo e o Comunismo, para demonstrar que a Igreja, de Gregório XVI a João XXIII, em relação ao socialismo e ao comunismo evoluíra da "rígida intolerância" para o "entendimento esclarecido" e finalmente para o "diálogo", e para a colaboração. Já mostrei em Dois Amores, Duas Cidades (páginas 376 e 381) que o suposto diálogo de João XXIII não tem nenhum fundamento, e que o “entendimento esclarecido" de Pio XI baseou-se num texto da Quadragesimo Anno em que o jornalista interpela nas palavras do Papa duas palavras de sua invenção, em negrito, com as quais a frase do Papa muda de sentido. Remeto o leitor à obra e página acima citadas, onde se vê que no tópico 43 (in fine), o Papa diz: "Maior condenação ainda..." e o jornalista acrescenta e frisa "do que o comunismo", alterando o sentido do tópico.
Resolvi desligar-me do Centro Dom Vital, onde durante 15 anos militara. Escrevi ao Presidente do Centro uma carta queixando-me da plástica que tão desembaraçadamente fazia nos textos pontifícios, e dos novos rumos que tomava sua pregação. Respondeu-me afavelmente, insistindo que permanecêssemos juntos, cada um com suas idéias. Procurei o Cardeal e participei-lhe minha decisão de deixar um Instituto onde cada um dos dirigentes ficaria e ensinaria segundo suas idéias, e assim a única lição comum que transmitiriam era a do desprezo pela verdade e pela exatidão da Sagrada Doutrina.
Quando terminei minha exposição, o Cardeal pôs a mão no meu braço e disse-me: — "Não. Quem deve sair é o outro". Respondi-lhe que isto estava fora de minha alçada. O que eu queria, e aceitaria no mesmo local, era uma sala onde pudesse continuar as aulas que até hoje ministro ao mesmo grupo acrescido dos filhos que nasceram e cresceram. Pediu-me então o Cardeal que lhe indicasse três nomes de pessoas de confiança e boa doutrina. Dei-lhe os nomes: Fábio Alves Ribeiro, Oswaldo Tavares e Eduardo Borgerth. E o Cardeal acrescentou: — E o senhor afaste-se para que ninguém possa dizer que está disputando a presidência do Centro.
Despedi-me do Cardeal que me acompanhou até a porta, prometendo comunicar-me o que resolvesse. Passaram-se dias sem novidades e nosso grupo já procurava uma sala para nossas aulas quando fui avisado pelos três amigos que o Cardeal os convocara e combinara com eles um plano a partir de uma carta que aquele mesmo dia enviaria ao Dr. Alceu Amorosa Lima pedindo-lhe a renúncia do cargo. No dia seguinte, com grande espanto vejo estampada no Jornal do Brasil a notícia de um conjuração tramada no Centro Dom Vital contra o professor Alceu Amoroso Lima às vésperas de seus setenta anos.
Mais tarde tivemos a explicação desse falso "furo" do jornal: D. Jaime Câmara escrevera efetivamente a carta combinada, mas, para magoar menos o Dr. Alceu, como depois nos disse, começou-a nestes termos: "Fui procurado por um grupo do Centro Dom Vital..." E na continuação pedia-lhe que renunciasse ao cargo de Presidente. Além disso, e também para agradar ao Dr. Alceu, teve a idéia de enviar a carta por Dom Hélder Câmara. O resultado de todas essas precauções foi o que se viu: a carta foi parar no Jornal do Brasil, o Dr. Alceu respondeu respeitosamente que entregaria o cargo se fosse demitido, mas não se sentia em consciência obrigado a renunciar. O Cardeal recuou, e tudo ficou como se efetivamente a "conjuração" gorada tivesse partido daquelas pessoas... Nesse tempo, em que o Concílio absorvia a atenção dos Bispos, nosso Cardeal esqueceu o Centro Dom Vital, que se esvaziava porque a maioria dos sócios e freqüentadores não concordavam com as novas idéias do Presidente, e a revista A Ordem morreu.
E com ela morreu a obra de Jackson de Figueiredo, e inutilizou-se a doação generosa do Dr. Guilherme Guinle. Começava para a Igreja um período de "aberturas" com a esquisita conseqüência de fecharem-se seminários, ordens religiosas, conventos e colégios religiosos. Muito mais tarde, em 68, abrimos nós o movimento PERMANÊNCIA com o grupo de amigos que há mais de vinte anos nos seguiam no Centro Dom Vital, e com os assinantes que choveram de todo o Brasil.


O SÉCULO DO NADA - Introdução — 2ª Parte
O episódio do Centro Dom Vital, que só se esclarecerá no dia do Juízo, desviou-nos da história que vínhamos contando — a história da infiltração no Brasil que colocou os comunistas no poder até o inacreditável desenlace, em 1964. Já contei essa história mais de uma vez com o título de Lembrança de um Pesadelo e de um Milagre, e não resisto ao prazer de inseri-la nesta Introdução, que já ameaça tomar o livro todo. Ei-la:
O homem, como tão expressivamente disse Chesterton, é um curioso monstro que anda impetuosamente para o futuro com os olhos voltados para o passado. Conhece-se o teor de uma civilização pelo gosto e pela atenção com que se pondera o passado, com que se registram os fatos e feitos, com que se demarca com pedras — como na história de João e Maria — o caminho percorrido, como se esse trajeto fosse também um caminho de volta. Ao contrário, aquilata-se a gravidade de uma crise civilizacional (como que atravessamos no mundo inteiro) pelo desprezo ou pela violência com que os novos querem romper com o passado. Esta é uma atitude de bárbaro ou de desesperado — em qualquer hipótese uma atitude infra-humana.
Romper com o passado é, numa linha horizontal e freudiana, desejar a morte do pai; e, numa linha vertical e teológica, desejar a morte de Deus. Numa outra perspectiva, que inclui os dois vetores na mesma humana peregrinação, romper com o passado é romper com o humano.
Todos nós desejamos ardentemente um mundo melhor, libertado de certas taras, de tantos erros às vezes acumulados, renovado pelo aperfeiçoamento moral dos homens; todos nós sabemos que o homem é essencialmente progressivo, e que quem não progride regride, já que a imobilização dos passos é impossível neste restless Universe; mas também sabemos que só progride o que permanece, só avança na direção de um real progresso quem tem o olhar volvido para os grandes feitos e os grandes compromissos da humanidade. E é com esta convicção que orientamos aqui o nosso retrovisor para um passado recente e especialmente para os dias de março de 1964 em que se decidiu, milagrosamente a meu ver, a sorte do Brasil.
É instrutivo reanimar a memória para aqueles dias sinistros em que parecia vivermos um pesadelo. Depois de anos de demagogia populista e de estatizações catastróficas, o Brasil chegou ao período Kubitschek em que a pátria parecia transformada num carro carnavalesco. Perpetrou-se o erro gravíssimo da construção de Brasília, que arruinou o Brasil e até hoje impede o estancamento da inflação. Falsificaram-se metas com preferência dada aos gastos inúteis em prejuízo das coisas úteis e urgentes. Pouca gente sabe que o acréscimo percentual de potência elétrica instalada, mesmo favorecido com os trezentos e cinqüenta mil kilowatts da estação de Itapetininga (S. Paulo — Grupo Light), inteiramente construída no governo anterior e simplesmente “inaugurada” pelo Presidente Juscelino, foi a metade da cifra alcançada nos governos anteriores. Tudo isto sem falar no clima de uma jocosa corrupção que fez de Brasília o nosso panamá — com a diferença da sua perfeita superfluidade.
Segue-se a este período de alegre irresponsabilidade o curto governo de um louco, que não merece comentário. E estamos agora no sinistro período do Governo Goulart. Agrava-se a inflação e o Presidente chama a si a organização da desordem. Como todo ressentido, ou como todos os chamados homens de esquerda, João Goulart imagina que a ofensa ao princípio de autoridade agrada aos pobres, o que seria verdade se todos os pobres do Brasil já estivessem “conscientizados” pelo famoso MEB das cartilhas de luta de classes. E, com esta idéia-mestra, Goulart por seus ministros e pelegos, insuflou desordens, greves, insubordinações e insolências. Os comunistas tomam posições-chaves, e no Ministério da Educação se apoderam dos dinheiros públicos com espantosa facilidade: rapazes de vinte anos passavam recibo de somas de milhões em farrapos de papel e levavam como melhor título de recomendação a prova de pertencerem ao Partido Comunista. A UNE conseguia do Congresso verbas de 3 bilhões, que valiam o que hoje valem 500 mil cruzeiros.
Caminhávamos para o caos. O episódio da Faculdade Nacional de Filosofia é bem característico: os terroristas do diretório recusam entrada ao paraninfo eleito, o governador Carlos Lacerda. O Governo Federal mobiliza suas forças para garantir a desordem. O paraninfo, o Reitor e os demais professores são desfeiteados. E nesta mesma tarde eu vi um bravo barbeiro a agitar sua navalha e a perguntar ao céu, às árvores e ao vento:
— Como pode? Como pode? Atirar alunos contra os professores é o mesmo que atirar filho contra o pai...
Aceleram-se os acontecimentos depois do comício na Central do Brasil, no dia 13 de março. Lembro-me bem, e gostaria de que todos rememorassem aquela tarde sinistra. Sentíamos uma ameaça pesada e próxima. Dir-se-ia que até no céu carregado se viam prenúncios de desgraça. Estavam ali reunidos os possessos que desejavam reduzir o Brasil a um presídio com oitenta milhões de detentos. Os rádios, histericamente, transmitiam notícias, nomes, frases. Um matutino compusera sua primeira manchete com o novo titular: O COMISSÁRIO DO POVO... O agrupamento popular relativamente pouco numeroso, que cercava o palanque, procurava compensar sua tenuidade com multiplicação de gritos e de gestos. Um padre (de batina) pulava quase um metro de altura cada vez que seu sistema nervoso era percorrido pelas descargas vindas dos slogans. E o povo? O povo, que a UNE chamava de antipovo, olhava com medo e repugnância a desordem crescente. Greve todos os dias. Naquela tarde sombria e lívida com contrastes de tempestade e bonança, havia falta de luz. Racionamento da Light. (Esse racionamento da Light em 1964 foi uma das obras das antimetas de Juscelino Kubitschek; em seu governo a Light empreendera a construção da Usina de Ponte Coberta, que iria trazer mais 100.000 kW para o Rio. O empreendimento tinha financiamento estrangeiro, mas precisava de uma aval do governo brasileiro e portanto de uma assinatura do Presidente. Duas vezes teve a empresa de dispensar seus trabalhadores para reatualizar os orçamentos, porque o Presidente Juscelino, com uma omissão criminosa, deixava de assinar seu compromisso. Durante um ano andavam os homens da empresa a procurar o Presidente, sem conseguir seu rabisco, que aliviaria uma enorme construção e que traria luz e conforto a quatro milhões de cariocas).
Em nosso bairro as ruas estavam vazias, e nos rebordos das janelas víamos durante todo o dia velas acesas em sinal de que naquele apartamento rezava-se pedindo a Deus que não permitisse o assassinato do Brasil. Creio que foi nesta semana que um colunista católico escreveu que as reformas anunciadas por Goulart coincidiam com os ensinamentos de João XXIII!
Precipitam-se os acontecimentos. Foi nesta última semana ou na anterior? Cada manhã, à saída da missa, os amigos se entreolhavam com o ar de quem tem em casa um grande doente. Evitávamos falar no assunto. Nesta manhã, porém, alguém perguntou:
—      Viram o que aconteceu ontem na Ilha do Fundão?
O Presidente Goulart aprazara encontro com o Reitor, professores e estudantes. Desceu de helicóptero, mas a meia altura mandou parar e começou a gritar:
—      Os estudantes para a frente! Os estudantes para a frente!
E a manada de estudantes rompeu a socos e empurrões a fila dos professores. E nós, ouvindo a história, sentíamos uma vergonha profunda, alternada com convulsões de cólera perdida. Ah! que vontade de combater! “Ô rage, ô desespoir, ô vieillesse ennemie!”.
Cada notícia era uma injúria; cada página de jornal, uma bofetada. E os nervos tensos, e o coração sangrando... Não se via uma perspectiva, uma saída. A tênue esperança que tínhamos era a de que o Exército se organizasse e seus chefes soubessem sobrepor à mesquinha legalidade produzida pelo positivismo jurídico. Saberiam? Poderiam? O fato é que o comunismo já se achava no Poder e já tinha a seu favor a moleza de uma sociedade maltratada por tantos e tão maus governos. Faltava-lhe um arremate de forma, mas contava com grande parte da imprensa, com os “intelectuais”, com os estudantes e com padres e até arcebispos “progressistas” que já ensaiavam a voz para a declaração:
—      Companheiros! Eu também sou comunista! Eu sempre fui comunista!
De onde nos viria o socorro humano, a reação viável? Trouxeram-me um revólver. Que faria eu com um revólver contra um bando de executores que me cercassem a casa à noite? Aconselharam-me a mudar de posição a mesa de trabalho colocada diante da janela. Cheguei a pegar na mesa, mas detive-me, prevendo que entraria num espiral de precauções intoleráveis se admitisse a primeira. Aconselharam-me a mudar de casa, mas o mesmo horror da organização do medo me tolheu. Sinceramente, a um Brasil emporcalhado de marxismo, eu preferiria não sobreviver. Dias depois, fui dar minha aula na Companhia Telefônica, na Avenida Presidente Vargas. Quando cheguei ao local, vi-me cercado no carro por uns oito ou dez indivíduos de má catadura.
— O que vem fazer aqui?
— Vim dar uma aula — respondi com uma repugnância infinita.
— Somos o piquete da greve! Você não sabe que a CTB está em greve?
Senti oscilar a razão sob a pressão da cólera explosiva. Tive medo e raiva de ter medo. Consegui conter-me: engrenei o carro, baixei a cabeça para evitar algum tiro, e entre gritos dos pelegos e freadas de carros entrei na roleta russa da Avenida Presidente Vargas. No dia seguinte, li no jornal o que o mesmo piquete de greve fizera com uma moça datilógrafa que ousara discutir com eles. Despiram-na e deixaram-na nua junto de uma palmeira.
Os possessos! Os possessos! Tínhamos a impressão de que o número deles crescia, ou que se multiplicava a sua força. E pasmávamos diante da inexplicável insensibilidade de alguns intelectuais e de muitos padres e bispos que não sentiam o cheiro da substância que lhes entrava pelo nariz. Empoleirados a rotular com louvores o hediondo fenômeno que os empurrava, esses intelectuais e esses padres ousaram apontar no comuno-peleguismo, cruel e cafajeste, uma realização da doutrina social da... Igreja.
Não víamos saída, sobretudo quando comparávamos nossa situação à dos países tombados sob o jugo do comunismo. Os processos se repetiam. “Vejam o caso da Tchecoslováquia!”, dizia-nos um comentador de política internacional. Eu acordava resmungando, não sei por que em francês: “sans issue... sans issue...”. Receávamos todos que nossas próprias lições na Resistência Democrática se tornassem obstáculos mentais, superstições, pontos de honra para os nossos melhores soldados: democracia, vontade do povo, legalidade... receávamos que tudo isso recobrisse a noção fundamental de bem comum e de lei natural e paralisasse as melhores consciências.
De Minas chegou a notícia consoladora de um comício pelego-comunista dissolvido por um grupo de senhoras armadas com o terço. Mas a anarquia se precipitava. O grupo de marinheiros rebeldes reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos venceu a resistência do próprio Governo. O Almirante Aragão voltou ao comando dos fuzileiros, e nesta tarde o povo carioca teve de suportar o vexame da carnavalesca passeata dos comandados do Cabo Anselmo na Avenida Rio Branco. De hora em hora arrematava-se a chinificação do Brasil. O Clube Naval esboçou uma resistência que obrigou o Presidente Goulart a voltar à ofensiva no tristemente famoso discurso no Automóvel Clube. Nesta noite o Brasil chegou ao ponto mais baixo de sua história. Um marinheiro rebelde, tomando a palavra, começou um discurso bobo e convencional, e pela força do hábito deixou escapar a palavra “disciplina”. Foi estrondosamente vaiado.
Naquela manhã, à saída da missa, percebemos logo que a anormalidade chegara a um ponto decisivo. Antes mesmo de ver os lençóis azuis, sentimos o ar de um dia diferente. O que faziam ali aqueles rapazes de lenço azul e revólver na cinta? Eram milicianos. O que é que se esperava? Um ataque ao palácio do Governador da Guanabara.
Esboçavam-se filas diante dos armazéns. A cidade inteira — adivinhávamos — se preparava e se retesava. Caminhamos na direção do Palácio e encontramos amigos, homens pacíficos, negociantes e professores, que se dirigiam também ao Palácio, com um revólver surgido na cinta que jamais sonhara tamanha responsabilidade. O brasileiro bom, o brasileiro sem jeito, modesto, caminhava mansamente e sem ares de heroísmo para uma situação em que possivelmente teria de dar a vida. Povo manso, povo bom, pensava eu, mas também povo bobo e sem jeito. O que iria acontecer?
Numa esquina ouvi uma conversa entre dois populares:
— Parece que os tanques vão atacar o Palácio pela Rua Paissandu.
— Não pode. Ô cara, você não sabe que é contramão?
Perto do Palácio adensava-se a multidão, mas no meio dos homens canhestramente dispostos a dar a vida pela Pátria passavam meninos de bicicleta e moças risonhas e despreocupadas. Seria da mocidade, desta bateria nova e bem carregada, que eles tiram energia? Não. O povo todo, observando melhor, ostentava uma graciosa e leve coragem. Uma coragem humorística. E eu tive, de repente, a intuição viva e fulgurante da vitória desse gênio brasileiro contra a substância que o ameaçava.
Pouco depois chegou a primeira onda de notícias surpreendentes: os tanques tinham aderido ao Governador, as Forças Armadas dominavam a situação, João Goulart fugira do Palácio das Laranjeiras, sem tempo de meter a fralda da camisa para dentro das calças. Pouco depois confirmava-se a notícia, e o povo brasileiro (com exceção dos intelectuais de esquerda e dos eclesiásticos paracomunistas) ficou sabendo que Nossa Senhora ouvira nossas súplicas, que Deus nos salvara e que o instrumento escolhido para este milagre fora o nosso bom soldado de terra, mar e ar.
Dois dias depois, em todas as cidades grandes do Brasil, o povo encheu as ruas com a Marcha da Família — com Deus pela Liberdade. Eu e quatro amigos estivemos perdidos, imersos na mais densa multidão que jamais víramos reunida. Ali estava o que os intelectuais de esquerda chamavam de antipovo. Ali estava o sangue vivo de nosso bom Brasil. E eu então senti-me possuído de uma enorme admiração por este povo singular que acabava de vencer uma Copa do Mundo no combate ao comunismo. Agradecendo a Deus os favores de exceção que de certo modo não merecíamos, agradecia também os favores da natureza e das merecidas conseqüências. Grande povo! “A Europa curvou-se ante o Brasil” nos dias de Santos Dumont. Menino de quatro anos, cantei o pequeno hino de nossa projeção internacional. Velho, às portas dos setenta, cantava outro hino e candidamente prelibava a admiração universal diante da facilidade dançarina, graciosa, dionisíaca, com que o povo brasileiro pôs a correr os comunistas. (Mal sabia, na embriaguez de meu entusiasmo, que o mundo inteiro nos caluniaria. Os Estados Unidos com base na superstição de sua liberal democracia, ou no seu “democratismo”, e a Europa com base no esquerdismo que se apoderou dos meios de comunicação).
Foi um dos mais belos espetáculos que vi. E tenho pena dos corações alienados que não tiveram a capacidade para acolher tão boa e tão bela alegria. Lembrei-me de uma página de Léon Bloy. A França acabara de marcar a vitória do Marne. Os jornais estavam encharcados de júbilo, de esperança, de triunfo. Mas Léon Bloy folheava os jornais com cólera crescente, e depois com tristeza infinita. O que é que o velho leão procurava nos cantos dos jornais? Lá está escrito em seu Diário: “Je cherche en vain le nom de Dieu”.
Ora, em nossa grande Marcha — cuja fotografia está diante de mim — não houve menção de um só nome dos tantos civis e militares que bem mereceram o aplauso do povo. Havia um só nome: o nome de Deus.
O levante militar de 1964 pôde expulsar dos postos de governo os comunistas, mas não pôde fazer o mesmo nas ordens religiosas, onde a infiltração se agravou com a cobertura dos bispos agora burocratizados ou motorizados na CNBB. Anos atrás D. Jaime Câmara, e muitos outros bispos do Brasil clamaram contra o perigo iminente e evidente da infiltração comunista, mas agora, ao sabor da chamada era pós-conciliar, e da liquidificação da autoridade episcopal, tornou-se ostensivo e agressivo o comunismo de padres desatinados, e tornaram-se inevitáveis os atritos entre esse clero e o Governo. Um dos primeiros padres presos foi o lazarista que deixamos páginas atrás a ensinar marxismo em Ferros, perto de Belo Horizonte.
Mais tarde foram presos dois padres assuncionistas franceses que ensinavam marxismo e que pertenciam à Ação Popular. Voa de Paris o Pe. Guillemin, superior dos assuncionistas que desde a primeira entrevista anunciou a nova-Igreja pós-conciliar, disse uma dúzia de asneiras em torno desse tema, e voltou à Europa para levar a queixa à Comissão de Justiça e Paz que nesse tempo já era o que é e já estava preparada para repositório das reclamações esquerdistas. Mereci desse Superior Assuncionista uma carta suavemente injuriosa, mas nunca tendo conseguido ser colecionador de coisa alguma não guardei o autógrafo do personagem. Nesse meio tempo chegou ao Brasil, com atraso de vinte anos, o fenômeno Teilhard de Chardin. Escrevi em 1965 mais de dez artigos sobre essa nova faceta do poliedro de estupidez que o mundo católico parecia empenhado em construir. O sucesso editorial alcançado pelas obras de Teilhard de Chardin, que não têm nenhum valor filosófico, teológico, literário ou científico, só é comparável à febre de valorização de tulipas que grassou na Holanda do século XVII, ou à quase idolatria do boi zebu que foi apaixonadamente praticada no Triângulo Mineiro há mais de quarenta ou cinqüenta anos. Ponderando, no caso, a gravidade da matéria tratada, podemos dizer que essa epidemia teilhardista foi certamente o mais humilhante acontecimento do último milênio nos dois hemisférios deste honrado planeta habitado. Não insisto no assunto porque já declina o fenômeno que brevemente mergulhará no nadir de um esquecimento total e absoluto, e se misturará às fantasias de Simão, o Mágico.
Menos cômica do que a omegalização e a noogênese do infortunado jesuíta, foi a degradação que se via na ordem dominicana. Convém lembrar que em 1968 as esquerdas, vencidas e expulsas dos cargos, estavam levantando a cabeça. Vale a pena ler o divertido livro de Charles Antoine publicado pela Desclée Brouwer em 1971 com este título: L’Eglise et le Pouvoir au Brésil, e este subtítulo: Naissance du Militarisme. No capítulo 4, o autor que é ou foi padre, começa com estas palavras do mais límpido cinismo jamais impresso: “O ano de 1968 é particularmente fértil em campanhas de opinião pública contra a ala avançada da Igreja. A ofensiva se desenrola em três frentes: corrupção financeira dos bispos, comunismo no clero e perversão sexual nos colégio católicos. Os responsáveis dessas campanhas são respectivamente os meios conservadores, os integristas católicos e os militares da linha dura”.
E mais adiante o autor se entusiasma com a famosa passeata. Dom Castro Pinto e Pe. Adamo se desdobram na promoção dessa passeata chamada dos “100.000” em que todos se sentavam no chão quando o rapaz que a liderava — creio que se chamava Vladimir Palmeira ou Coqueiro, não tenho certeza — declarava que estava cansado. “Sentar no chão!” era a ordem; e padres, freiras e bispos sentavam-se no chão.
No auge do entusiasmo o professor Cândido Mendes publica no Correio da Manhã, de 30 de junho de 1968 um artigo: “Enfim, a Marcha!”, onde dizia no seu peculiar idioma:
 “No máximo a alternativa à baixa dos cassetetes ou à carga de cavalaria se constituía na exasperação dos dispositivos de “derretência”, palavra que cada vez mais assume o primeiro na logística do conflito contemporâneo”.
A avalancha de perversidade e de estupidez se avoluma e se precipita sobre os restos de uma civilização vacilante, sob disfarces e com apelidos de “progresso” e “frutos maravilhosos” do Concílio Vaticano II, que se quis a si mesmo mais “pastoral” do que definidor, dogmático e condenador de erros, começando por emprestar o termo “pastoral” um significado de tolerância que destoa não apenas da tradição mas de qualquer idéia de reger, conduzir e governar. Se o Concílio tivesse sido realmente tão pastoral como euforicamente prometiam seus padres, teria reservado espaçoso lugar para a denúncia de mercenários e para os gritos de alarme contra os lobos. Ao contrário disto, tivemos um Concílio otimista, e os resultados não tardaram.
A famosa Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Moderno, que um irreverente chamaria Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo da Lua, “reconhece agradecida a ajuda variada que recebe de parte dos homens de todas as classes e condições”. Que quererá dizer isto? Que a Igreja agradece aos padeiros e vinhateiros, e que além disso agradece ao mundo a afabilidade com que tolera sua presença e com que proporciona serviços de água e esgoto a suas instituições? Em outra passagem (21) a mesma Gaudium et Spes diz que “a Igreja, embora repelindo de forma absoluta o ateísmo, reconhece sinceramente (sic) que todos os homens, crentes e descrentes, devem colaborar na edificação do mundo em que vivem em comum, e isto requer necessariamente um prudente e sincero diálogo”. E assim se vê que já se consideram peremptos os decretos de Pio XII e João XXIII que severamente proibiam a colaboração dos católicos com os comunistas, como também se vê que cai em desuso e esquecimento a definição do Concílio de Trento pela qual “a Igreja na terra se chama de militante porque está em guerra constante contra três cruéis inimigos: o mundo, o Diabo e a carne. Agora, em vez disso “somos testemunhas do nascimento de um novo humanismo (!?) no qual o homem fica definido, principalmente, por sua responsabilidade diante de seus irmãos e diante de...”.
Se anos atrás entregássemos esse texto a alunos de catecismo elementar, com o claro por preencher, todos imediatamente escreveriam: “Deus”.
Ora, não é diante dos homens e de Deus que o “novo humanismo” deve ser principalmente responsável: é “diante dos homens e da HISTÓRIA”!!! Está claro que o realce é nosso. Nosso é o espanto, nosso é o estupor, nossa é a preocupação. Frases como estas se diziam em discursos rotarianos, ou diante das pirâmides do Egito, mas nós, católicos, raça humilde e altiva que não reconhece outro senhor senão o Deus dos exércitos, sabemos que a história, com minúscula ou maiúscula, tomada como curso dos acontecimentos ou como o registro deles estudado pelos homens, pode ser julgada, mas não pode julgar coisa nenhuma, e sabemos que não é diante do trono do século XX ou do século XXX que prestaremos conta de nossos atos.
As conseqüências de tais afrouxamentos de doutrina e de relação se traduzirão rapidamente em afrouxamentos morais e disciplinares, e veremos espetáculos espantosos nas casas de recolhimento e de oração. Em 1967, temos em Belo Horizonte e em São Paulo conventos dominicanos e beneditinos que abrem suas portas a falsos estudantes da UNE sob pretexto de retiro espiritual. Nesses dias escrevi: “Ia eu formular um apelo... Mas, quando os religiosos chegam a mentir — e mentir descaradamente, pretendendo que se enganaram, e que tomaram o ajuntamento de moços como um desejo de retiro espiritual — todos os apelos se tornam inúteis e ingênuos demais” (O Globo, 2 de julho de 1967).
Em 1968, como se tornou manifesto ulteriormente, os guerrilheiros de Marighela tinham quartel-general ou cabeça-de-ponte no Convento das Perdizes, em São Paulo. Quando as autoridades policiais prenderam “frei Chico” (o prior) para prosseguimento do inquérito, todos os padres e frades progressistas se moveram e organizaram uma passeata diante do DOPS, em São Paulo, vestidos com os hábitos que já haviam desprezado. A CNBB pressionou o governo; o Cardeal Rossi pressionou o governo do Estado, e depois a Presidência da República.
Esses senhores agiam em função de dois novos princípios, ou novos dogmas: 1°, sendo dominicano, o preso não podia ser revolucionário, e muito menos comunista; 2°, sendo militares as autoridades que promoveriam a diligência, ela era evidentemente injusta. O provincial e o vice-provincial dominicanos, chacun avec sa chacune, já preparavam as malas para deixar tudo, como ulteriormente efetivaram.
E é nessa atmosfera de apostasias e de corrupção que os senhores bispos resolvem corrigir as estruturas econômicas da América Latina e aprazam reunião na Colômbia, em Medelin, onde, com base num manifesto marxista do padre belga José Comblin, elaboram um documento inflado de auto-suficiência, mas absolutamente vazio de qualquer saber sócio-econômico. O senso comum de nível mais elementar os aconselharia a não discorrerem tão profundamente sobre matéria que tão mal conhecem e que escapa a sua jurisdição, enquanto lavrava o incêndio nas próprias dioceses abandonadas, e as almas eram devoradas. Sim, senhores bispos, as almas que lhes foram confiadas se perdem! Ou não? Mas então, se a salvação não é o mais importante dos affaires, se não é para cooperar com Cristo crucificado que os padres e os bispos são padres e bispos, então fica provada, à luz da “Gaudium et Spes” ou de outros tópicos conciliares que invoquem à História, a perfeita inutilidade do esbanjamento do preciosíssimo Sangue.
Um ano depois estoura o escândalo Marighela, e logo depois, como era de esperar, surgem da Europa, de onde nos vêem as diretrizes e os agentes da corrupção, denúncias contra arbitrariedades e perversidades praticadas pelo governo do Brasil.
O tenebroso nadir de todo esse amontoado de perversidade e estupidez é atingido no dia em que todos os provinciais dominicanos franceses escrevem uma carta ao Cardeal Leroy, presidente da Comissão de Justiça e Paz. Nessa carta inimaginável os provinciais franceses, negando pura e simplesmente os fatos atribuem as notícias à invencionice do governo brasileiro.
O que terá acontecido na ordem dos dominicanos, perguntaria alguém que tivesse cochilado, não cem ou duzentos anos como no apólogo do frade que se entretém com o canto melodioso de um pássaro, mas apenas vinte.
Sim, o que aconteceu entre a data do desembarque do Pe. Lebret no Brasil e o dia em que Marighela marcou encontro fatal com dois comparsas duplamente traidores? Apenas isto: os erros, os desvios produziram suas conseqüências. E alargaram-se: parvus error in initio magnus est in fine.
Recrudesce em toda a América Latina a onda de assaltos e seqüestros. Praticam-se friamente crimes espantosos. No aniversário de morte de Guevara é decidida nos “tribunais” revolucionários a condenação à morte de um norte-americano qualquer. É “justiçado” o oficial Chandler, quando saía de casa com seu filho de onze anos.
Entusiasmado com esses feitos praticados por jovens, o arcebispo de Olinda e Recife sai voando e em Paris dá à revista L’Express uma entrevista que fica registrada para vergonha do planeta Terra: ele aplaude os seqüestradores assassinos. Pede bis. Escreve em livro que devemos abrir aos jovens “crédito de ilimitada confiança”. E nós nos perdemos em monótonas indagações: como se explica? O que aconteceu com o Concílio? Com o Papa? Com os bispos? Com as freiras que vendem prédios, imagens, objetos sagrados para saírem por aí a multiplicar conferências sobre o sexo? O que aconteceu com a Igreja? “Has the church gone mad?”.
Uma ponta do mistério está no Livro Santo: “Simão, Simão, eis que Satanás te reclamou para joeirar-te como trigo, mas eu roguei por ti para que tua fé não desfaleça: e tu, uma vez convertido, vai e conforta teus irmãos” (Luc. XXII, 31, 32). Nesta hora sexta do século, Deus permitiu que Satanás passasse pelo crivo os discípulos de Jesus. Se quisermos lograr algum entendimento de tão sombrio mistério, será preciso voltar anos atrás a fim de ver e auscultar o que andaram fazendo os homens que descendiam de uma civilização cristã, e orgulhosamente anunciavam o surgimento de um “novo humanismo”. Nas páginas subseqüentes trago minha minúscula colaboração, arrancada das lágrimas e do estudo, e tornada possível com a graça de Deus e com uma sobrevivência que já me causa certo espanto, e que quero aproveitar para o serviço da mesma Igreja de Deus, tão bela, tão luminosa, mas momentaneamente toldada eclipsada pelo enxame dos que a abandonam mas ainda se detêm em torno de suas torres, diante de sua porta, para o triste mister de um escândalo rendoso, e de uma última bofetada na Mãe e Mestra que renegam. Ousemos desejar que esses maus filhos se afastem mais lealmente e vão comer bolotas com os porcos, porque essa será talvez a última oportunidade que terão de sentirem um dia saudades da Casa do Pai. E como filhos pequeninos que temem e tremem nesta hora crepuscular, nesta hora do lobo, coloquemos estas páginas sofridas e choradas aos pés de Nossa Senhora, Consoladora dos Aflitos.
E agora que já esbocei um resumo de nossos itinerários e de nossos extravios, deixemos o Brasil, aonde apenas chegaram os efeitos de causas remotas e alheias. Proponho ao leitor, nas páginas deste livro, que ainda não começou, a procura, a indagação, não digo das causas de tão assombrosos acontecimentos, por me parecer que o termo é austero demais e que a aventura está acima de minhas forças, mas a procura e indagação de sinais, das pegadas, dos sulcos que vêm deixando na história a passagem de uma caravana destruidora. Contentemo-nos com os marcos mais próximos e recentes e procuremos de onde vieram eles, o que disseram, por onde passaram...
E não se queixa algum leitor de que estejam na Europa e principalmente na França, na Inglaterra e na Espanha os personagens da Comédia de Erros, nem espalhe por aí que me desinteressei da própria história pátria. Na tragédia ou comédia de que depende a sorte da Civilização por alguns milênios já escrevi, e continuo a escrever, milhares de páginas sobre o que vem acontecendo no Brasil. Reunidas em volume dariam dez livros maiores do que este que hoje ofereço.
E agora partamos. Examinemos o chão do século e procuremos de onde vieram eles, os principais, por onde passaram e o que pelo caminho deixaram. E retiremo-nos para esperar novos avanços da sinistra caravana que dá à desesperança e ao nada do século nomes de otimismo e de progresso.

(Página 34 até página 47 do livro – Editora Globo)

sábado, 3 de outubro de 2009

O PRÍNCIPE

Título original: Il principe
Autor: Maquiavel
Tradução: Antonio D´Elia
Editora: Círculo do Livro
Assunto: Ciência política
Edição: s/ ref.
Ano: 1982
Páginas: 169

Sinopse: Escrito em 1513, é um livro polêmico, perigoso e revolucionário. É um manual para ação. É a obra-prima de Maquiavel. Maquiavel é considerado o 'pai' da ciência política e seus textos são analisados em escolas e universidades de todo o mundo.

Comentários: A obra O PRÍNCIPE, de Maquiavel, é certamente o marco decisivo para a modernidade e se opõe diretamente aos valores não apenas cristãos, mas também àqueles da tradição de Sócrates, Platão e Aristóteles. Esse livro é o manual para novos príncipes que irão surgir desde então, tornando-se o pai de todos os aventureiros políticos e a bíblia daqueles que construíram os partidos de vanguarda. Maquiavel conseguiu transformar todos os vícios e canalhices da política nas virtudes por excelência dos governantes. Tresvalorizou todos os valores muito antes de Nietzsche, filósofo que fechou o ciclo macabro aberto pelo florentino no campo da política.

Não que a canalhice não fosse prática corrente desde tempos imemoriais onde se organizou alguma forma de Estado. É próprio da política a violência, a traição, a rapina. A guerra, diz a expressão consagrada, é a continuação da política por outros meios, e nada há de mais atroz do que a guerra. O que Maquiavel fez foi teorizar a canalhice e dar sustentação filosófica para ela. Não é possível compreender o morticínio perpetrado na modernidade, desde a Revolução Francesa pelo menos, sem que essa filosofia seja devidamente situada na motivação e na justificação da ação dos atores políticos. Que seria de Napoleão sem Maquiavel? E de Lênin? E de Hitler? E de todos os herdeiros gnósticos da modernidade? Marx e Nietzsche são santos perto do que fez Maquiavel.

Estudiosos da obra do florentino não se cansam de exaltar a fria lógica e o cálculo racional que ele emprestou ao estudo da ciência política. E, no entanto, quedam surpreendidos com o elemento mítico com que o autor fecha a obra, ao falar da Fortuna ou, em termos astrológicos, da Roda da Fortuna, a X carta dos Arcanos Maiores do Tarô, que era ao que ele se referia verdadeiramente. A questão colocada é que todos os aventureiros poderiam usar do manual maquiavélico, como aliás têm feito desde sempre. Por que apenas alguns chegam lá, como Lula lá, e outros fracassam redondamente, como Luiz Carlos Prestes? Por que outros são efêmeros, como o nosso Fernando Collor de Mello? [As declarações da ex-esposa Roseane à revista Veja, relatando os sacrifícios de animais no quintal da Casa da Dinda pelas madrugadas quando ele era presidente da República – 3 da manhã é a hora satânica – são fatos ilustrativos de como o elemento irracional demoníaco pode tomar conta das personalidades mais proeminentes. O poder pode literalmente enfeitiçar aqueles que foram por ele fascinados]. Efêmeros como Hitler, este que também era um satanista emérito? E por que outros se mantêm no poder até a morte, como Lênin, Mao e Fidel Castro?

Não basta o manual de canalhice para ser bem sucedido, disso Maquiavel sabia. O símbolo da Roda da Fortuna é encimado por uma figura que é metade anjo e metade demônio. É, a meu ver, uma excelente representação pictórica do poder, que pode ter tanto um lado benéfico como um lado maléfico, dependendo de quem esteja a exercê-lo. Platão e Agostinho criaram a tradição de que deve o governante buscar a Justiça, sendo esse o papel fundamental do poder de Estado, a sua missão por essência. A política, para eles, era a arte de praticar a Justiça. Por isso apóstolo São Paulo escreveria sobre a fundamentação divina do poder. Do governante esperava-se ao menos a boa intenção.

Maquiavel joga na lata do lixo a investigação das virtudes, despreza a missão de Justiça e recomenda expressamente que os candidatos a novos príncipes sejam mal-intencionados. Que Justiça que nada! Põe ele as armas como o único sustentáculo do poder. Obviamente que isso é um erro, a negação da essência do elemento civilizacional. Maquiavel tem, no entanto, o mérito de reconhecer esse elemento transcendente que condiciona o poder de Estado e a ação dos seus agentes, fato que seus discípulos posteriores negam ou abandonam. Esqueceram-se do principal.

Quanto maior o orgulho, maior será a queda. Ou, dito de outra forma, quanto maior a ambição política, maior a frustração. Hitler terá sido o mais audacioso dos revolucionários, o mais temerário e, no entanto, foi consumido pelas chamas de sua paixão. Queimou numa pira funerária, uma maneira plástica de ser remetido aos infernos. Muitos ditadores seguiram o seu caminho. Permanece a questão de saber porque o governante malvado pode morrer no governo, em pleno exercício do poder totalitário.

Entendo que as coisas do poder não são alheias a Deus. O jovem teólogo Ratzinger, no seu brilhante INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO, escrito quando ainda não tinha as responsabilidades que hoje tem, sugere haver um elemento irreconciliável entre o reino desse mundo e as coisas de Deus. Por isso o Deus de Abraão não tinha território, vivia em tendas, uma maneira bastante didática de dizer que não era um Deus estatal, não era um concorrente de Baal e Moloch. É aquele que é, o Deus vivo. Da mesma forma, Cristo rejeita peremptoriamente a terceira tentação que lhe fez o Demônio e disse a quem queria ouvir que seu reino não era o desse mundo.

Penso que a contribuição do homem virtuoso à política é se manter virtuoso quando do exercício da política. Ao contrário do que pensava Maquiavel, isso não implica em fraqueza ou tibieza. A virtude pode ser varonil, viril, como bem o demonstra Voegelin no seu A NOVA CIÊNCIA DA POLÍTICA. O governante virtuoso pratica o bem por escolha, mas sempre poderá usar mão da força para combater os oponentes movidos pela ambição das trevas. E esse uso da força é santificado, caracteriza o bom combate.

Os tempos de hoje conhecem os piores governantes simplesmente porque as idéias de Maquiavel (e de Marx, Hegel, Lênin, Gramsci. Nietzsche e tutti quantti) governam gente do seu próprio nível moral. A Europa da primeira metade do século XX já não era mais cristã, era atéia, como agora o é mais ainda. A força do Islã no território europeu é o espelho de sua fraqueza espiritual. O que dizer de nosso Brasil de Lula Lá? Collor, sacrificando animais no quintal à terceira hora da madrugada, é bem o emblema de um povo que cultua o Maligno alegremente. Um povo assim merece os seus governantes. Com propriedade poderíamos repetir aqui, com Cristo, que essa gente é palha que deve ser queimada no fogo inextinguível. Vivemos o tempo do Estado Total e tudo pode acontecer.
(Nivaldo Cordeiro)

sábado, 26 de setembro de 2009

A AMEAÇA TOTALITÁRIA

“Nós assim o compreendíamos, porque assim o queríamos compreender”.
Pero Vaz de Caminha
Por Nivaldo Cordeiro

Tenho escrito reiteradamente sobre os perigos que vejo nos tempos presentes, no que tenho chamado de Estado Total. O Estado contemporâneo, não obstante sua aparência democrática, e talvez até mesmo por causa dela, da democracia no estilo proposto por Rousseau, está cada vez mais parecido com os Estados totalitários que floresceram na primeira metade do século XX e redundaram no nazismo e no comunismo. Veja você, caro leitor, que estamos falando de formas democráticas que descambaram para a supressão do regime de propriedade privada, das liberdades pessoais, do controle permanente da educação dos jovens, mediante a estatização dos cuidados com as crianças, desde tenra idade, a vigilância permanente sobre as pessoas. Aqui me refiro aos países da Europa Ocidental, os EUA e Brasil.

Não será casual que as teses racistas tenham ganhado terreno, assim como aquelas que enxergam os fenômenos pela lógica da luta de classe. As mesmas teses de outrora, os mesmo métodos?

Peguemos a questão da propriedade privada. Pelo menos 40% do PIB (exceto os EUA, que terão que enfrentar seus déficits proximamente mediante brutal elevação nos impostos) está sendo recolhido na forma de impostos; da mesma forma, a propriedade das grandes empresas, notadamente bancos nos últimos tempos, está passado ao controle direto do Estado; a emissão de moeda é monopólio estatal desde o final dos anos Trinta; devemos lembrar que parte considerável da força de trabalho é composta por funcionários públicos e por empregados de fornecedores do Estado (e por “terceirizados”), e que a Previdência Social é estatal, assim como a Assistência Social na maior parte dos países. Quem, de alguma forma, não se ligar economicamente ao Estado está condenado á miséria econômica e, se cair nesta, virará cliente automático do Estado. Se partir para a delinqüência cairá no sistema prisional e os prisioneiros são os mais perfeitos clientes do Estado na atualidade. Eu estou dizendo que a sociedade que está aí já é uma sociedade totalitária, se vista pelo lado da Economia.

Se olharmos pelo lado da representação política, também. A hegemonia das forças de esquerdas alcançou tal grau que a democracia é agora, na melhor das hipóteses, uma comédia de mau gosto. O que se chama de “direita” na Europa não passa de uma variação de uma facção política que não tem menor interesse em mexer nos interesses estabelecidos, isto é, no sistema sindical e de Previdência Social, a verdadeira fonte de poder e de legitimidade nesses países. Os eleitores, amealhados em torno dos trabalhadores sindicalizados e dos aposentados é que escolhem a elite governante. Nos EUA a crise trouxe à tona a mesma realidade política que se vê na Europa e por aqui. Mesmo os políticos nominalmente de “direita” só o são naqueles itens que não contrariam o sistema corporativo vigente. O caso da GM foi emblemático: a empresa, há anos controlada por sindicalista, é pagadora de vultosos salários e benefícios, não capazes de serem cobertos por sua atividade produtiva. Na hora de quebrar, o Tesouro lhe foi em socorro, precisamente para manter inalterados os privilégios imorais dessa elite sindical. E o respectivo curral eleitoral.

A questão dos fundos de pensão é séria. Têm aparência de coisa privada, mas na prática não passam de fundos gigantescos, controlados politicamente por sindicalistas, avalizados, em última instância, pelo poder de Estado. Nos EUA, na Europa e no Brasil. Em toda a parte. São à prova de quebra, tanto quanto os grandes bancos e as grandes corporações. Os elos que ligam ao Tesouro esses fundos ficaram agora bem visíveis. De novo, estamos diante de uma realidade político-econômica típica de Estado totalitário, em que uma elite de políticos e sindicalistas comanda a economia e as instituições, dentro de sua lógica de guilda.

A crise econômica fez soar o alarme dos perigos que aguardam a humanidade se o poder estabelecido for posto em xeque. No primeiro momento, valeram-se da emissão de moeda e da estatização para manter o status quo. Bem sabemos que o equilíbrio econômico não pode jamais ser obtido por essa via, pois seria admitir a abolição das leis econômicas, algo deveras estúpido. Então penso que os bailouts e os rescues apenas adiaram o enfrentamento que precisará ocorrer: como tornar sã uma sociedade que ficou gravemente doente? Como escapar à Segunda Realidade que foi criada pelo agigantamento do Estado, literalmente caindo no real? A falha na administração da superação da crise pelos métodos ditos keynesianos poderá colocar a atual elite dirigente diante da tentação totalitária. Será o esgotamento da Terceira Via e, com ela, a ameaça do totalitarismo. Ainda outra vez.

As forças da Terceira Via estão usando a última carta na manga para superar a crise sistêmica: a construção do Governo Mundial. Claro, é uma falsa solução, na verdade, o caminho do agravamento. E da destruição da liberdade. É um atalho para o totalitarismo em escala planetária. A “fuga para a frente” do delírio político mais maluco. O mundo está sob uma ameaça equivalente àquela que viveu sob Hitler e Stalin, só que a ameaça agora tem nomes mais populares, como Obama e Lula e os atuais governantes europeus. Eu realmente estou preocupado com o futuro imediato, porque não enxergo nenhuma alternativa política a essa gente que está no poder.

Então é preciso ter uma resposta teórica adequada à ameaça totalitária que paira sobre o mundo, até para se poder construir um caminho alternativo ao totalitarismo. Um mundo são terá que resgatar os valores do liberalismo clássico, mas este só pôde vigorar plenamente enquanto a mentalidade vigente era a moral cristã. O que vimos ao longo do século XX foi a destruição paulatina dessa moral, de tal forma que só mesmo uma contra-revolução conservadora, em termos cristãos, terá força para enfrentar o poder de destruição que se aproxima.

Filósofos importantes debruçaram-se sobre o que houve na primeira metade do século XX, para entender a tempestade totalitária que assolou o mundo. Ortega y Gasset deu algumas respostas, na verdade foi uma espécie de profeta do Apocalipse ao publicar, em 1930, seu famoso livro A REBELIÃO DAS MASSAS. Nesta obra ele via que as massas estupidificadas estavam sem condutores, elas que tomaram os freios nos dentes e elegeram os piores para o governo (ou chegaram ao poder por golpe de Estado). O monstro estatal, detentor das modernas técnicas, foi colocado a serviço do apetite mais feroz das massas. O morticínio foi imenso.


Depois da guerra tivermos várias obras analisando o fenômeno. De um lado, o famoso livro de Karl Popper – A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS – que atribuiu nada menos ao platonismo a responsabilidade pelos acontecidos. Essa vertente, embora largamente difundida, é claramente uma explicação ligeira e falsificada, que coloca Platão e mesmo Aristóteles como fundadores do historicismo. Sim, Popper acertou em ligar a tragédia ao historicismo, mas cometeu um erro colossal em enxergar suas raízes na filosofia clássica. A via política liberal, seguidora de Popper, bastou-se com essa explicação e baixou a guarda no campo político, de forma que, na segunda metade do século XX a chamada Terceira Via (ou o marxismo ocidental) pôde ocupar todos os espaços e refazer desde dentro a sua revolução, sem ameaçar diretamente a ordem do mercado e os poderes constituídos. O processo de estatização foi lento, gradual e seguro. Os liberais viram cada uma das suas fortalezas doutrinárias e institucionais serem tomadas pelos inimigos da civilização sem reagir, pois as aparências enganosas da estabilidade estavam mantidas, de forma deliberada, pelos inimigos.

A outra linha teórica de explicação da origem do totalitarismo vem da dupla de filósofos germânicos Voegelin e Strauss, fugidos do nazismo e estabelecidos nos EUA. Quero aqui sublinhar a obra deste último, DIREITO NATURAL E HISTÓRIA, que acabou de ser traduzida em Portugal por Miguel Morgado. Neste livro Strauss mostrou que o monstro totalitário nasceu de um outro grego, Epicuro, que é justamente o filósofo que moldou a modernidade e enterrou a tradição clássica. Não apenas o Direito, mas a filosofia política, foram tomados pelo epicurismo. Não casualmente Marx fará a sua tese de douramento sobre o pai do utilitarismo.

Para Strauss, Epicuro, o filósofo da “felicidade”, é uma variante dos sofistas e ao analisar sua influência concluiu: “A aparência de justiça combinada com a injustiça efetiva conduziria ao auge da felicidade... Para ser rigoroso, o auge da felicidade (para Epicuro) é a vida do tirano, do homem que conseguiu cometer o maior de todos os crimes ao subordinar a cidade como um todo ao seu bem particular, e que se pode dar ao luxo de abandonar a aparência de justiça ou de legalidade”. Epicuro é o pai do totalitarismo e o avô de Maquiavel.

Strauss vai mostrar que a superação das loucuras da modernidade só poderá acontecer pelo resgate do Direito Natural, basicamente o resgate de Platão e Aristóteles. Fica mais do que evidente que o livro de Popper, apesar de sua retórica envolvente, é pura tolice filosófica. Popper provavelmente morreu sem se dar conta das besteiras que escreveu, levando legião de leitores a mal compreender os fatos e, ao assim fazer, objetivamente ajudando os inimigos da civilização a tomarem todos os espaços de poder. O primeiro passo para combater a ameaça totalitária é ter uma correta teoria sobre a realidade política.

sábado, 19 de setembro de 2009

HITLER E OS ALEMÃES

Título original: Hitler and the Germans
Autor: Eric Voegelin
Tradutor: Elpídio Mário Dantas Fonseca
Assunto: Filosofia
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 368

Sinopse: Hitler e os Alemães... não é um assunto do passado porque a consciência humana vive na tensão permanente entre o tempo e os valores espirituais eternos. E o que está eternamente vivo tem de ser preservado e defendido no presente. Talvez, por isso, todo alemão culto conheça a frase escrita pelo poeta Heinrich Heine em 1821: “Onde queimam livros, acabam por queimar pessoas”.

O tema do livro não é uma história das origens, da evolução e queda do regime nacional-socialista, muito embora Eric Voegelin tenha presente algumas das análises clássicas. O tema é a cumplicidade dos alemães no regime nazista.

Entre 1933 e 1938, Eric Voegelin publicou quatro livros que o colocaram em uma crescente oposição ao regime de Hitler na Alemanha. Em virtude disso, foi forçado a abandonar a Áustria em 1938, escapando por pouco da prisão pela Gestapo quando fugiu para a Suíça e, mais tarde, para os Estados Unidos. Vinte anos depois, foi convidado a tornar-se o diretor do novo Instituto de Ciência Política na Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique.

Em 1964 Voegelin apresentou uma série de preleções memoráveis acerca do que ele considerou "o problema experiencial alemão central" de seu tempo: a ascenção de Adolf Hitler ao poder, as razões para isso e suas conseqüências para a Alemanha pós-nazista. Para Voegelin, essas questões demandavam um escrutínio da mentalidade dos alemães individuais e da ordem da sociedade alemã durante e depois do período nazista. Hitler e os Alemães, publicado aqui pela primeira vez, oferece a crítica de Voegelin mais completa e minuciosa da era de Hitler.

Voegelin interpreta essa era em relação às ferramentas de diagnóstico oferecidas pela filosofia de Platão e de Aristóteles, pela cultura judaico-cristã e por escritores contemporâneos de língua alemã como Heimito von Doderer, Karl Kraus, Thomas Mann e Robert Musil. Reagindo a publicações acerca da Alemanha nacional-socialista, Voegelin discute a "Anatomia de um ditador", do historiador Percy Schramm, a par de estudos das Igrejas e da profissão legal. Sua pesquisa descobre uma historiografia que foi substancialmente a-histórica, uma Igreja Evangélica Alemã que interpretou mal o Evangelho, uma Igreja Católica Alemã que negou a humanidade universal e um processo legal enredado em homídio.

Enquanto a maior parte das preleções lidam com o que Voegelin chamou sua "descida aos abismos" moral e espiritual do nazismo e de seus corolários, elas também apontam para uma restauração da ordem. Sua preleção "A grandeza de Max Weber" mostra como Weber, enquanto atingido pela cultura dentro da qual Hitler subiu ao poder, já tinha ido além dela, através de sua recuperação angustiante da experiência da transcendência.

Hitler e os Alemães apresenta um tratamento alternativo profundo para o tópico da ligação dos alemães individuais como o regime de Hitler e suas implicações posteriores. Esta leitura completa do período nazista ainda não foi ultrapassada.

Fenômeno semelhante está acontecendo no Brasil com a cumplicidade do povo brasileiro que está levando o país, a passos largos, para um regime totalitário via socialismo marxista. Assim como na Alemanha é preciso, também no Brasil, fazer um escrutínio da mentalidade de cada brasileiro, incluindo notadamente os governantes e intelectualóides psicopatas e toda a mídia engajada.


AS DUAS REALIDADES

A obra de Eric Voegelin, toda ela, é essencial para a compreensão da realidade histórica e política e fornece instrumentos sem os quais o que se passa no Brasil não pode ser compreendido. Um deles, que quero explorar aqui, é aquele que demonstra a gênese dos movimentos gnósticos e os perigos inerentes a eles, que é a análise do abandono da realidade como ela é e a assunção de uma segunda realidade como substituta. Este simulacro passa a ser o referencial para a tomada de decisões individuais e coletivas que levam fatalmente ao desastre. Indivíduos perfeitamente estúpidos tomam as funções de estadistas e passam a reger o Estado. E não estou falando apenas de Lula, não. A assunção da segunda realidade como substituta do real Voegelin chamou de “gnose”. Terá sido essa a sua imorredoura contribuição à filosofia política. Citarei abaixo alguns trechos interessantes do livro HITLER E OS ALEMÃES, já referido em textos anteriores, para resgatar a discussão:

"Lidamos com questões estritamente empíricas: quando o homem, como tal, foi descoberto? E o que ele descobriu ser? Essas descobertas aconteceram respectivamente nas sociedades helênica e israelita. Na sociedade helênica, o homem era experienciado pelos filósofos do período clássico como um ser que é constituído pelo noûs, pela razão. Na sociedade israelita, o homem é experienciado como o ser a quem Deus dirige a palavra, ou seja, como um ser pneumático que está aberto à palavra de Deus. A razão e o espírito são os dois modos de constituição do homem, os quais foram generalizados como a idéia de homem. Não formos além desses conteúdos da idéia de homem, ou seja, sua constituição pela razão e pelo espírito. Isso parece ser o descobrimento definitivo. O que significa existir constituído pela razão e pelo espírito? As experiências da razão e do espírito concordam no ponto em que o homem experiencia a si mesmo como um ser que não existe por si mesmo. Ele existe num mundo já dado. Este mundo em si existe em razão de um mistério, e o nome deste mistério, da causa desse ser no mundo, do qual o homem é um componente, é chamado de 'Deus'. Então, dependência da existência (Dasein) na causação divina da existência (Existenz) permanece até hoje a pergunta básica da Filosofia”. (Página 117)

Veja, caro leitor, que isso é aceitar a realidade como nos é dada. Por exemplo, e quero abaixo explorar a questão com base numa declaração dada ontem pelo vice-presidente da República, José Alencar, a lei da escassez, razão de ser da ciência econômica, é parte integrante dessa realidade imutável que não pode ser superada por artifícios mágicos. Todo o discurso da gnose esquerdista é uma rebelião do Homem contra Deus, na medida em que prega a possibilidade de eliminação dessa condição divina instituidora da realidade. “Comerás o pão com o suor do seu rosto” é um descortino do real. A única alternativa ao trabalho é o roubo, seja diretamente, seja institucionalmente, via tributação do Estado. Os esquerdistas, portanto, ao prometerem algo impossível como a eliminação da lei da escassez, mentem. Ao tentarem pôr em prática seu programa contra a natureza e contra a realidade, perpetram as mais nefandas injustiças e criam atalhos para a construção de sofrimentos indizíveis e agravamento da escassez além daquela normal e superável pelo trabalho de cada um. A reengenharia da realidade contra Deus é o inferno na terra. Continua Voegelin:

“Em ambos os modos, pela procura do divino, o amoroso sair de nós mesmos em direção ao divino na experiência filosófica e o encontro amoroso através da palavra na experiência pneumática, o homem participa do divino. Os conceitos são methexis, em grego, e participatio, em latim, participação no divino. Já que o homem participa do divino, ou seja, já que ele pode experimentá-lo, o homem é 'teomórfico', no sentido grego, ou a imagem de Deus, a imago Dei, na esfera pneumática. A dignidade específica do homem é baseada nisto, em sua natureza teomórfica, de forma e imagem de Deus. Este é um complexo básico com que temos de começar, a fim de investigar a defecção desse complexo. A defecção, em seu âmago, sempre toma a forma de uma perda e dignidade. A perda de dignidade vem através da desdivinização do homem. Mas já que é precisamente essa participação no divino, esse ser teomórfico, que constitui essencialmente o homem, a desdivinização é sempre seguida de uma desumanização. Não se pode desdivinizar sem se desumanizar - com todas as conseqüências de uma desumanização com que ainda temos que lidar. Tal desdivinização é a conseqüência de um fechamento deliberado de si mesmo para o divino, tanto para o racionalmente divino como para o pneumaticamente divino, ou seja, o divino filosófico ou revelado. Em ambos os casos, ocorre uma perda da realidade, já que esse ser divino, esse fundamento do ser, é, na verdade, a realidade também, e se alguém se fecha a essa realidade, esse alguém não possui a experiência dessa parte da realidade, essa parte decisiva que constitui o homem".
(Páginas 118/119).

As palavras-chaves são desdivinização e desumanização. Significam cair na condição animalesca superada na Antiguidade pela religião e pela filosofia. A perda de contato com o divino é a perda de contato da realidade como está dada. A revolta contra o Criador redunda na regressão civilizacional, anterior ao século IV a.C. É a tragédia da modernidade que os homens abracem a estupidez radical em matéria política, nos movimentos redentoristas à moda do comunismo e do fascismo/nazismo, que acabam sempre em banho de sangue e em sofrimentos infindos. Podemos ver aqui na América do Sul um caso em estado avançado de putrefação pneumopatológica, que é a Venezuela. Um país rico artificialmente empobrecido pela demência do povo tomado pela estupidez radical, conduzido por um tirano insensato que representa existencialmente a maioria estupidificada. O desastre econômico será sempre a porta de entrada na desintegração irracional, cuja saída quase sempre se dá pela guerra. Vejamos mais um trecho do livro:

“O homem continua homem em toda a realidade, mesmo quando perde a razão e o espírito como aquelas partes da realidade que o ajudam a ordenar-lhe a existência; ele não cessa de ser homem. E não há nenhuma razão, como ainda se faz tão freqüentemente, em acusar Hitler de desumanidade; foi uma humanidade absoluta em forma humana, porém a humanidade notavelmente desordenada e doente, uma humanidade pneumopatológica. Tal imagem do homem da realidade, portanto, embora falha, não perdeu a forma de realidade; ou seja, ele ainda é um homem, com todo direito de fazer declarações de ordem, mesmo quando a força ordenadora de orientação para o ser divino se perdeu – mesmo assim – a menos que ele coloque uma pseudo-ordem no lugar da ordem real. Então, a realidade e a experiência da realidade são substituídas por uma falsa imagem da realidade. O homem, assim, não vive mais na realidade, mas em uma falsa imagem da realidade, que diz, no entanto, ser a realidade genuína. Há, então, se essa condição pneumopatológica ocorreu, duas realidades: a primeira realidade, onde o homem normalmente ordenado vive, e a segunda realidade, em que o homem pneumopatológicamente doente agora vive e que, portanto, entra em constante conflito com a primeira realidade”. (Páginas 145/146).

Essa é a questão teórica relevante que resgato para comentar a fala do vice-presidente José Alencar. Lembrando que o vice-presidente, antes de ser político, é um empreendedor muito bem sucedido e, pelos critérios habituais, deveria ser alguém “realista”, imerso na realidade como ela é, supostamente insuspeito de agir no mundo na “segunda realidade”. Por ter essa biografia é que o tomo como exemplo acabado da pneumopatologia que tomou conta da Nação brasileira. Em resumo, nosso problema não é apenas o PT, o PSOL, o PC do B e todas as gangues partidárias engajadas na revolução socialista de propósitos homicidas. Eles são apenas o elo febril da ação gnóstica, a mais delirante. Gente como José Alencar e integrantes da elite empresarial (como a FIESP) são talvez os agentes mais perigosos, porque têm dinheiro e poder e legitimam os revolucionários que conduzem a coletividade para o mergulho no abismo.

Vejamos sua declaração, dada à Rádio Eldorado e registrada na edição do Estadão: “Você não pode achatar o consumo de quem não consome. Não temos de ter medo do consumo, mas sim, da fome”. Aparentemente uma declaração banal, mas devemos atentar para o que está dito. Dá a síntese da nossa tragédia.

Vejamos a primeira frase: “Você não pode achatar o consumo de quem não consome”. Um aparente truísmo. Mas quem teria falado em achatar o consumo de quem não consome? E haverá mesmo alguém que não consome? Imagino dois tipos de pessoas que nada consomem: os mortos e os ainda não nascidos. O vice-presidente não se referia a eles, naturalmente, mas aos viventes. Viventes consomem, por definição. Ele não se deu conta de que falou uma absurdidade lógica, uma irrealidade que se fez necessária para fundamentar a segunda afirmação: “Não temos de ter medo do consumo, mas sim, da fome”. Ora, quem tem medo do consumo? Fome, onde há fome endêmica no Brasil? Irresistível aqui lembrar as palavras de Jesus, na Primeira Tentação: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”.

Não ouvi a entrevista e não sei o contexto em que a frase foi proferida. Ela, todavia, espelha a cegueira radical daqueles empenhados em supor que podem eliminar a lei da escassez por meio de políticas estatais. Simplesmente não é possível. Ainda ontem os jornais noticiaram que a inflação está praticamente na faixa dos dois dígitos e que o país caminha a galope para produzir déficits em conta corrente no balanço de pagamento. Como essa realidade foi produzida? Por muitos erros na condução dos negócios do Estado e do país, mas dois pontos são fundamentais para a sua explicação: 1- A frouxidão na política salarial, que tem elevado os salários acima da produtividade e 2- A prodigalidade nos gastos públicos. A lei da escassez se manifesta de muitas formas e uma delas é o país consumir mais do que a sua capacidade de produzir. A absorção além da produção potencial leva a crises no balanço de pagamentos e *obrigam* o Estado a voltar ao princípio de realidade. Não há como enganar a lei da escassez, exceto no discurso dos populistas.

A crise econômica vai se manifestar brevemente e aí passaremos à fase aguda do processo revolucionário. Aí gente como José de Alencar perderá a sua serventia de “companheiro de viagem” dos verdadeiros agentes da revolução. Não imagino Lula promulgando leis de redução de salários para ajustar o Brasil ao mundo real. Aí serão eleitos os culpados de sempre: os empresários, os EUA, os fantasmas de sempre do imaginário socialista. Como os agentes revolucionários controlam o Estado e as forças de repressão, então chegaremos ao estágio final, da violência aberta contra os supostos inimigos dos poderosos do dia. Haverá choro e ranger de dentes. (Nivaldo Cordeiro)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

KARL MARX segundo ERIC VOEGELIN

Eric Voegelin

Mendo Castro Henriques, professor na Universidade Católica de Lisboa e já conhecido dos visitantes desta homepage, selecionou alguns textos inéditos compostos por Eric Voegelin para o abortado projeto de uma History of Political Ideas e com eles montou um volume, Estudos de Idéias Políticas – de Erasmo a Nietzsche, publicado pelas Edições Ática, de Lisboa, em 1996. Foi portanto em português que esses textos, originalmente datilografados em inglês, se publicaram pela primeira vez no mundo. O volume saiu com uma bela introdução pelo próprio Mendo Castro Henriques e uma nota assinada pela viúva do autor, Lissy Voegelin. - O. de C.


Karl Marx (1818-1883)
por Eric Voegelin
Tradução de Mendo Castro Henriques

1.1. Marx: história e lenda.

Ao iniciar o estudo de Marx, nunca é demais acentuar que a polémica partidária dificultou o acesso à obra; muitos escritos considerados secundários permaneceram inéditos até à edição MEGA de 1927-32 e, ainda em vida, a pessoa histórica de Marx desapareceu debaixo da figura mítica. Nos marxistas da primeira geração e nos da revolução russa, cresceu a lenda que não valia a pena conhecer o filósofo precoce que, apenas a partir de 1845 desenvolvera as verdadeiras intuições no Manifesto e em O Capital, e que foi fundador da 1ª Internacional. Debateu-se, depois, se o verdadeiro Marx era o de Bernstein, Kautsky, Rosa Luxemburgo ou Lenine. Só após o Instituto Marx-Engels-Lenine de Moscovo e os sociais-democratas alemães desenterrarem os manuscritos dos arquivos começou uma interpretação séria na qual se destacam as obras de S.Landshut e J.P. Mayer Der historische Materialismus. Die Frühschriften, 2 vols., Leipzig, 1932.

Por detrás desta história de incompreensão e redescoberta está a tragédia do activista. Para passar do velho para o novo mundo, Marx exigia uma metanoia, semelhante à conversão de Bakunine mas obtida através de um movimento revolucionário. A revolução seria uma mudança radical do homem: permitiria derrubar as instituições e purificar a classe operária. Libertaria a classe oprimida da "porca miséria" (Drecke) e permitiria recriar a sociedade. Marx não queria criar primeiro o povo eleito e depois fazer a revolução: pretendia que a criação do "povo eleito" resultasse da experiência da revolução. Esta ideia é profundamente trágica porque, caso não houvesse revolução, o coração humano não mudaria. O carácter insensato da ideia permaneceria mascarado até que a experiência fosse levada a cabo. E ao contrário do que se passou com o anarquismo de Bakunine, este carácter peculiar da ideia marxiana foi agravado pela visão comunista do novo mundo.

1.2. A visão dos reinos da necessidade e da liberdade.

Marx sobressai entre os revolucionários da sua geração pelos superiores poderes intelectuais. Evoca um novo mundo mas não cai nas propostas delirantes de abolição da sociedade industrial e nas utopias socialistas. Jamais aceitaria a metamorfose comteana da tradição francesa católica dos clercs em intelectuais positivistas, desejosos de conquistar o poder temporal. Através de Hegel e dos jovens hegelianos, herdara as tradições do protestantismo intelectualista luterano, defensor da verdadeira democracia realizada em cada homem. No mundo do sistema industrial, o novo reino da liberdade resultaria da experiência emancipadora da revolução.

Esta visão não foi um apenas um episódio da juventude; permaneceu constante até ao fim da vida. Em O Capital vol.3, reflecte na grande vantagem do sistema de produção capitalista: maior produtividade e, portanto, redução do horário laboral. O homem civilizado e o primitivo têm de lutar com a natureza para satisfazer carências; nenhuma revolução abolirá este reino da necessidade natural, que continuará a crescer à medida das necessidades humanas. A liberdade neste domínio será, quando muito, a regulamentação racional do metabolismo humano. O homem socializado, der vergesellschaftete Mensch poderá controlar colectivamente este metabolismo, reduzindo as horas de trabalho e as perdas de produção e organizando os lazeres em vez de os deixar ao acaso. Só depois começa o reino da liberdade, a finalidade que não resulta da base material mas da experiência da revolução.

A distinção entre os dois reinos é bastante clara. A abolição da propriedade privada não é o fim em si mesmo e o controle colectivo só interessa para diminuir as horas de trabalho. As horas de lazer ganhas são o solo no qual o reino da liberdade poderá enraizar-se. A burguesia usa esse tempo para ócio, entretenimento recreio, jogo, divertimento. Mas será isto preencher a liberdade? Dados os conhecimentos filosóficos de Marx, por reino da liberdade dever-se-ia entender a acção concretizadora das capacidades humanas, algo de semelhante às aristótélicas scholé e bios theoretikos. O decisivo é que a liberdade não provenha da base material mas da experiência de revolução. A superação (Aufhebung) do trabalho convertê-lo-ia em auto-determinação (Selbstbetätigung).

1.3. O descaminho de Marx 1837-1847.

De 1837 a 1847 Marx clarificou os pensamentos que tiveram a expressão tardia atrás esboçada. Após a visão, impunha-se a acção revolucionária. O reino da necessidade seria a indústria menos a burguesia. O reino da liberdade tinha de crescer por si e não podia ser planeado. Entre adoptar a existência romântica à Bakunine, ou o silêncio, optou por preparar a revolução.

1.4. Lenda do Jovem Marx.

Se Marx se sentisse obrigado a produzir uma renovatio revolucionária nos seus contemporâneos através de sua autoridade espiritual, nada resultaria excepto o seu drama pessoal. Mas bastava-lhe mover o Aqueronte no homem, para a liberdade resultar da revolução e a revolução da necessidade. Defendia um ideal de dignidade humana; mas, na acção, desprezava o homem. A revolução que derrubaria a burguesia dependeria de: 1) A análise dos factores do capitalismo que desintegravam o sistema. 2) A forja da organização proletária que iria tomar o poder. Em vez de se tornar o dirigente da revolução, Marx escreveu o Manifesto como apelo à organização das forças que iriam executar a revolução inevitável. Em vez de descrever a sociedade futura escreveu O Capital, análise da sociedade moribunda. A partir de 1845 tornou-se o parteiro da revolução. E foi esta transição do fazer a revolução para o preparar a revolução que constituiu o seu descaminho. A imensidade dos trabalhos preparatórios ensombrou a experiência escatológica que motivara a visão revolucionária e a culminância no reino da liberdade.

1.5. O movimento marxista. Revisionismo.

O descaminho ensombrou a ideia mas não aboliu a tensão revolucionária. As actividades preparatórias puderam ser imitadas por quem não tinha a experiência originária de Marx, provocando a morte do espírito e da esperança de renovação num mundo novo após a revolução. Os marxistas eram quase todos almas já mortas que apenas experimentavam a tensão entre o presente miserável e o imaginado futuro radioso e que desejavam a melhoria da sorte dos operários.

O descaminho intensificou-se com a passagem do tempo. A preparação intelectual e organizacional da revolução tornou-se um modo de vida. Bernstein pôde afirmar: "O que vulgarmente se chama a finalidade derradeiro do socialismo nada representa para mim; o movimento é tudo"; e Kautsky no Neue Zeit de 1893: "O partido socialista é um partido revolucionário; não é um partido que faça revoluções". A revolução foi transformada em evolução. Horários, salários e controles laborais poderiam ser adquiridos por legislação. A ala revisionista tornara-se um movimento de reforma social.

Se no domínio das ideias estes problemas marxistas têm pouco interesse, já no da história são importantíssimos. Para um Kautsky convicto de que revolução é inescapável, o revolucionário apenas tem de esperar que a situação esteja madura para agir. O revolucionário genuíno aguarda; o utópico faz aventuras. Este descaminho quase cómico de Kautsky aparece já no Marx de 1848-50. Até à revolução de Fevereiro, Marx esperava a grande revolução. A secção 4 do Manifesto revela esse estado de espírito: "A revolução burguesa na Alemanha será apenas o prelúdio de uma evolução proletária imediatamente subsequente". Quando a revolução falhou, foram necessárias muitas explicações. A primeira fase do falhanço foi explicada em A Luta de Classes em França, 1850; a segunda fase em O 18 Brumário de Luís Napoleão, 1852. Em 1850, no Discurso à Liga Comunista desenvolve pela primeira vez a táctica da luta de classes, cunhando a palavra de ordem "evolução permanente". Depois de grande intervalo escreve A Guerra Civil em França, 1871 para explicar o falhanço da Comuna. Após a morte de Marx, Engels prosseguiu estas explicações. Para a história da Liga dos Comunistas, 1885 prevê a revolução para breve, efabulando a existência de ciclos imaginários de 15 ou 18 anos. No prefácio de 1895 à reedição de A Luta de Classes em França, fascinado com a existência de dois milhões de votantes sociais-democratas, Engels louva-se nos excelentes resultados dos processo legais de luta. Na expansão da Social-Democracia, vê um fenómeno semelhante ao crescimento do Cristianismo na decadente sociedade romana. Bismarck é o Diocleciano alemão. E como se vê, Kautsky podia razoavelmente considerar-se o portador do facho marxiano.

1.6. O movimento marxista. Comunismo.

O descaminho que levou à revolução comunista apresentou-se como regresso ao verdadeiro Marx. Após 1890 surgem radicais que já não aceitam o reformismo evolucionista. Lenine perante Kautsky tem a mesma atitude de Marx perante os sindicalistas ingleses. Pretende uma élite partidária, rejeita a cooperação democrática, quer a concentração do poder e despreza as massas que podem ser compradas mediante vantagens, como se vê no discurso de Genebra em 1908. Com as lições ainda frescas da revolução falhada de 1905, Lenine acentua os aspectos violentos do Comunismo. A Comuna de 1870 falhou porque não foi suficientemente radical, não expropriou os expropriadores, foi indulgente para com inimigos, tentou influenciar moralmente em vez de matar, não percebeu a acção militar e teve hesitações. Mas pelo menos lutou, demonstrando assim como lidar concretamente com o problema da revolução. A insurreição russa de 1905 mostra que a lição fôra aprendida e os Sovietes de trabalhadores e de soldados indicavam a actuação correcta .

Reconquistava-se assim a tensão revolucionária ao nível da acção no reino da necessidade. A visão marxiana aparece em parte na obra de Lenine e nas fórmulas da Constituição Soviética de 1936, através do reconhecimento de que a revolução socialista ainda não produziu o verdadeiro reino comunista. A URSS é uma união de repúblicas socialistas guiadas pelo partido comunista em direcção a um Estado perfeito, distinção que remonta à Crítica do Programa de Gotha e Erfurt, 1875. Na fase original da revolução, o comunismo incipiente compensará o trabalho de acordo com a respectiva qualidade e quantidade. Na fase superior, o trabalho já não será meio de vida mas sim a maior necessidade da vida (Lebenbedürfnis). O princípio então será, de cada um conforme a sua capacidade, a cada um conforme a sua necessidade". Esta fórmula de Enfantin em1831, é parafraseada por Louis Blanc em 1839 e depois usada por Marx. Em O Estado e a Revolução, 1917 Lenine usou-a de modo que se tornou um dos ícones semânticos do comunismo russo. O contexto táctico da distinção reforça a visão de que o comunismo final é remoto (está a décadas de distância segundo Marx, a séculos segundo Lenine) enquanto a fase imediata é de pós-revolução. Os erros repetidos das explicações e das tácticas comunistas acerca do falhanço do milénio como passo necessário e inevitável para o respectivo advento, acabaram por cair no ridículo após a 1ª Grande Guerra, sendo estigmatizadas por Karl Kraus como o tic-tac dos tác-ticos marxistas.

1.7. Triunfo político do marxismo.

Num artigo de Enciclopédia de1914, Lenine faz curta biografia de Marx e depois expôe o Materialismo Filosófico, baseando-se no Anti-Dühring, na dialéctica em Engels e Feuerbach e na concepção materialista da história, da página famosa da Crítica da Economia Politica. Depois vem luta de classes e doutrina económica, socialismo e táctica. Não há uma só palavra sobre o "reino da liberdade" e as suas precárias realizações. Deste modo, Lenine e os leninistas recuperaram a tensão revolucionária no domínio da necessidade mas perderam-na ao nível da liberdade. A passagem do tempo obrigava-os a considerarem cada vez mais os acontecimentos históricos como passos tácticos. Após 1917 continuou a debater-se se aquela era mesmo a grande revolução, se apenas o seu começo, se deveria ser expandida no mundo, se estaria segura enquanto não fosse mundial, se poderia ser num só país, quanto tempo levaria o Estado a desaparecer,etc. Como após o triunfo russo não surgiu o Pentecostes da liberdade, surgiu a inquietação. O jogo da táctica servia para os dirigentes mas o comum não o entendia. Passaram dez, vinte anos, e o Estado não desaparecia. E a relevância doutrinária de Estaline consiste em ter encontrado um substituto para o milénio - a pátria do socialismo. A injecção de patriotismo no comunismo russo é um apocalipse substituto para massas que não podem viver em permanente tensão revolucionária. Mas a táctica do descaminho não desaparece só porque uma paragem táctica foi oferecida às massas.

2.1. Dialéctica invertida. A formulação da questão.

A dialéctica da matéria é uma inversão consciente da dialéctica hegeliana da ideia, e corresponde a processos semelhantes praticados por sofistas, iluministas e anarquistas. Sob a designação mais respeitável de "materialismo histórico" ou mesmo "interpretação económica da história e da política" é correntemente aceite e surpreende que o diletantismo filosófico de tais teorias não abale a sua influência maciça. Dialéctica é um movimento inteligível das ideias, quer na mente quer noutros domínio do ser ou, então, em todo o universo. Hegel interpretava a história dialecticamente por considerar o logos incarnado na história. No Prefácio à 2ª ed. de O Capital, 1873, afirma Marx que "o meu método dialéctico nos seus fundamentos não só difere do dos hegelianos mas é o seu oposto directo". Na 1ª ed. declarava-se um discípulo do grande pensador contra os autores medíocres que o tratavam como um "cão morto". Considera que na forma mistificada hegeliana, a dialéctica é glorificação do que existe. Na forma racional marxiana "explica a forma do devir no fluxo do movimento". Ao compreender criticamente o que existe positivamente, também implica a compreensão da sua negação e desaparecimento.

A intenção marxiana de inverter (umstülpen) Hegel, considerado como de pés para o ar, assenta numa incompreensão da dialéctica. Para Hegel a ideia não é o demiurgo do real, no sentido de "real" significar o fluxo de realidade empírica que contém elementos que não revelam a ideia. Hegel debate se a realidade empírica é apenas um fluxo ou se tem uma ordem; como filósofo, tem de discernir entre a fonte de ordem e os elementos que nela não cabem. A dialéctica da Ideia é a sua resposta a este problema. Mas Marx abole o problema filosófico da realidade precisamente antes de praticar a inversão; não inverte a dialéctica: recusa-se sim, a teorizar. Trinta anos antes mostrara na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1843 que compreendia o problema da realidade mas que preferia ignorá-lo. Criticara então a concepção hegeliana por não estar à altura de conceito de realidade. (Cf. notas à secção 262 de CFDH). Os filósofos têm o hábito de questionar a realidade. Em vez de deixar a essência como predicado da realidade existente, extraem-na para sujeito, "die Prädicate selbst zu Subjekten gemacht". Mais do que censurar Hegel, Marx estava a atacar a filosofia. Os filósofos, de facto, não deixam a realidade em paz nem se conformam que a ordem seja produto do real.

2.2. A proibição-de-perguntar ou Fragesverbot.

Mas se afinal Marx compreendia perfeitamente Hegel, como revela a passagem da Crítica da Economia Política, p.lv., onde mostra que a filosofia crítica discorda de visão pré-crítica, foi talvez por desonestidade intelectual que deliberadamente se fez desentendido. É um problema de pneumopatologia: receava os conceitos filosóficos, sofria de logofobia. Engels no Anti-Dühring, ed 1919, pp.10 e ss., dissera que o materialismo moderno é dialéctico pois dispensa uma filosofia acima do discurso das ciências. Enquanto a dialéctica pesquisar leis e processos de evolução, a filosofia é supérflua. Cada ciência quer clareza no contexto total das coisas e dos conhecimentos das coisas (Gesamtzusammenhang); mas uma ciência particular do total é supérflua e pode ser dissolvida em ciência positiva da natureza e da história. Também aqui, apenas uma pneumopatologia pode conferir sentido a estas afirmações de Engels. Os conceitos críticos conduziriam ao contexto total da ordem do ser ou ordem cósmica. Um contexto total não deve existir para o sujeito autónomo de que Marx e Engels são insignificantes predicados; a existir, é só como predicado de todos os sujeitos, nomeadamente Engels e Marx.

Atingimos aqui o estrato profundo da revolta marxiana contra Deus. A análise levaria a reconhecer a ordem do logos na constituição do ser, esclarecendo como blásfémia inútil a ideia marxiana de estabelecer um reino da liberdade e de mudar a natureza do homem através da revolução. Como Marx se recusa a utilizar uma linguagem crítica, temos de compreender os símbolos a que recorre. Marx criou um meio específico de expressão: quando atinge um ponto crítico, apresenta metáforas que forçam as relações entre termos indefinidos como se viu no já citado passo do Prefácio, p.xvii " o ideal nada mais é que o material transformado e traduzido na cabeça do homem ". Seria uma afirmação brilhante se condensasse numa imagem o que já fôra dito de modo crítico. Mas o problema é que não existe esse contexto crítico. O que é "pôr na cabeça" ? É milagre fisiológico ? Actividade mental ? Acto cognitivo ? Processo cósmico ? Atente-se de novo na passagem da Kritik p.lv:

1ª "Na produção social dos seus meios de existência, os seres humanos efectuam relações definitivas e necessárias que são independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um estádio definido de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais". O estilo é fraco mas passagens anteriores explicaram cada um destes termos. 2ª "O agregado destas relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade". Nada a dizer. 3ª "A estrutura económica da sociedade é a base real na qual uma superestrutura jurídica e política surge e a que correspondem formas definitivas de consciência social". Por que razão é a economia a base ? Nada no texto o justifica. 4ª "O modo de produção dos meios materiais de existência condiciona todo o processo da vida intelectual, social e política". Mas que significa condicionar ? Não se explica ! 5ª "Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é, pelo contrário, o seu ser social que determina a sua consciência".Então passa-se sem mais de condicionar para determinar ? E o que é ser e consciência ? Esta passagem célebre ilustra como Marx salta de problemas concretos de economia e de sociologia para uma especulação com símbolos não-críticos. A metáfora é um intrumento ditatorial que impede o debate. E em rigor, é impossível uma análise crítica da doutrina marxiana, porque não existe uma teoria marxiana do materialismo histórico.

2.3. Especulação pseudológica.

Então que faz Marx? Para referirmos a sua "teorização" efectuada com uma linguagem não-teórica, podemos falar de especulação pseudológica, uma teoria aparente apresentada como teoria genuína e que supôe uma filosofia genuína do logos que pode ser pervertida. A inversão marxiana é a transformação pseudológica da especulação de Hegel. Não inverteu Hegel porque o material não é a realidade de Hegel nem o seu ideal é a ideia de Hegel. A vulgata materialista afirma que tudo é disfarce de interesses materiais (económicos, políticos, etc.). Marx era um pouco mais sofisticado. Reteve a visão de Hegel de que a história é a realização do reino da liberdade. E Engels louva Hegel que se ocupou da ordem inteligível da história mas aponta-lhhe a contradição entre a lei dinâmica da história e a insistência de que já existe o Inbegriff, o total da verdade absoluta. Censura a tentativa de interpretar a história como desdobramento de uma ideia que alcançou conclusão no presente. Reconhece, portanto, a falácia da gnose histórica: o decurso empírico da história não deve ser interpretado como o desdobramento da Ideia.

Mas Engels engana-se redondamente ao argumentar que o processo da história, por natureza, não encontra conclusão natural mediante a descoberta de uma verdade absoluta. Pelo contrário, esse seria o único modo possível de encontrar uma conclusão para o decurso empírico da história; pela mesma razão, a história não é fechada mas permanece processo transcendental. A falácia desta gnose consiste na imanentização da verdade transcendental. Se quissesse dizer a verdade, Engels deveria afirmar que o fim-da-história imanentista não pára a historia e, portanto, não deve ser usado. Mas para Engels apenas a realidade empírica tem significado como desdobramento da ideia mas sem a conclusão, um eterno fluxo de Heraclito. A realidade hegeliana do desdobramento da ideia é abolida e fica só a realidade empírica como se fosse uma Ideia. Do mesmo modo se explica a incompreensão do problema de Hegel por parte de Marx como-se-fosse deliberada. Arrasta-se o significado da ideia para a realidade, sem encontrar o problema da metafísica da ideia.

A confusão entre realidade empírica e a realidade da Ideia arrasta a dialéctica da ideia para a realidade empírica. O marxiano apresenta o filósofo como uma criança da escola que ainda acredita na conclusividade dos sistemas metafísicos. Mas então o marxismo não seria também um dia ultrapassável ? Na confusão em que Engels se move, as dificuldades deste género são ultrapassáveis pelo simples esquecimento. Cem páginas adiante, Engels reconhece que Hegel descobriu que o decurso da história é a realização da liberdade; Hegel compreendeu que a liberdade é a intuição da necessidade. "A necessidade é cega apenas enquanto não compreendida". A liberdade da vontade é apenas a capacidade de tomar decisões baseadas em conhecimentos (Sachkentnnis). E a liberdade progride com as descobertas tecnológicas. A máquina a vapor é a promessa da "verdadeira liberdade humana". Que a incarnação do logos seja substitida pela máquina a vapor é bem um sintoma da indisciplina intelectual de Engels, na qual se conjugam várias tendências da desintegração ocidental.

1. A gnose de Marx-Engels difere da de Hegel apenas por afastar um pouco o fim-da-história, para abarcar a curta etapa da revolução.

2. Como só a forma da conclusão intelectual é de Hegel, não a substância, o intelecto programático torna-se o portador do movimento. Há um salto revolucionário para a natureza revolucionada do homem. Elimina-se o bios theoretikos. Só fica o conhecimento do mundo exterior. Quem conhecer o problema do propósito que causa indecisão, será livre. E Lenine, que se baseia mais em Engels do que em Marx, louva aquele no artigo de Enciclopédia em 1914 sobre Os Ensinamentos de Marx por transformar a coisa-em-si em coisa-para-nós. É a destruição da substância humana.

3. A fórmula de que a liberdade consiste no domínio do homem sobre a natureza e sobre si próprio, lembra as posições de Littré, Mill e de outros intelectuais positivistas e liberais que são fontes de Engels. Há bastante espaço entre as capas do livro para desenvolver esta especulação pseudológica. Apesar de ter dissolvido a existência humana, Engels ocupa-se da moral cristã-feudal, burguês moderna e da moralidade proletária. Não existe outra ética absoluta a não ser o sistema proletário, tema maior daEndgültigkeit como sistema moral de sobreviver no fim.

2.4. Inversão.

Vimos de que modo o ataque anti-filosófico marxiano, estabelecendo a realidade empírica como objecto de investigação, utiliza um meio linguístico especial; a destruição logofóbica dos problemas filosóficos. Dentro do novo meio de expressão, nada se inverte; a gnose hegeliana é traduzida em especulação pseudológica. A inversão surge numa terceira fase em que o resultado das duas primeiras operações é construido como uma interpretação dos reinos do ser a partir da base da hierarquia ontológica.

Para analisar esta tarefa de Marx, seria aqui necessária uma filosofia da cultura. Seria preciso explicar: 1)A natureza dos fenómenos culturais; 2) Que tais fenómenos podem ser considerados a partir de uma base da existência, por exemplo, a matéria; 3 ) E finalmente, o que é esta base da existência. Marx só fornece a fórmula de que a consciência é condicionada pela existência. Surgem ainda passagens sobre "ideologia". KPO pp.lv e ss. As revoluções começam na esfera económica e arrastam a superestrutura. Se isso significa que o conteúdo da cultura mais não é senão luta pelo domínio da esfera económica, não é verdade.

Em relação à base do fundo da existência, veja-se a nota 89 de O Capital, 1 sobre a tecnologia. A história dos elementos produtivos é mais relevante e mais fácil que a história das plantas e dos animais de Darwin porque, como afirma Vico, foi o homem que fez a história do homem. A tecnologia revela o comportamento do homem perante a natureza e portanto as concepções mentais, geistigen Vorstellungen, que delas provêm. É também mais fácil encontrar o cerne terreno das religiões, do que ir pelo caminho oposto e desenvolver as formas tornadas celestiais,"verhimmelten Formen" fora da relação com a vida. Um dos defeitos do naturwissenschaftenlichen Materialismus é excluir o processo histórico. Marx critica pois a história psicologizante que se reduz aos motivos terrenos das religiões. As religiões têm motivos económicos, como se lê no Anti-Dühring, p.31: é preciso um princípio. E são estas as ideias que abalam o mundo?

Publicado originalmente em: http://www.olavodecarvalho.org/

domingo, 30 de agosto de 2009

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO CLUBE BILDERBERG

Título original: La Verdadera Historia del Club Bilderberg
Autor: Daniel Estulin
Tradução: Lea P. Zylberlicht
Editora: Planeta do Brasil
Assunto: História
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 320

Sinopse: Durante os últimos 50 anos, um grupo seleto de políticos, empresários, banqueiros e poderosos em geral tem se reunido secretamente para planejar as grandes decisões que movem o mundo e que, depois, simplesmente acontecem. O livro A Verdadeira História do Clube Bilderberg, de autoria do jornalista e especialista em comunicação Daniel Estulin, que há 13 anos investiga as atividades secretas do Clube Bilderberg e que foi ganhador de três prêmios de pesquisa nos EUA e Canadá, aponta quem aciona os controles por detrás da fachada das organizações internacionais conhecidas. O livro foi editado em 28 países em 21 idiomas. Segundo o autor, a 1ª edição na Venezuela, Colômbia e México foi esgotada em menos de 4 horas e causou manifestações em frente às embaixadas dos EUA que, como é óbvio, ninguém viu e nem ouviu na TV ou nos noticiários de imprensa. A seguir, você vai saber o motivo.


Resumo: Uma resenha do livro A Verdadeira História do Clube Bilderberg, que relata a formação do estado totalitário mais perfeito já criado.

A verdadeira história do Clube Bilderberg é uma narração da subjugação impiedosa da população por parte de seus governantes. Um Estado Policial Global que ultrapassa o pior pesadelo de Orwell, com um governo invisível, onipresente, que manipula os fios desde a sombra, que controla o governo dos EUA, a União Européia, a Organização Mundial de Saúde, as Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e outras instituições similares. E, o mais espantoso de tudo, formula os projetos futuros da Nova Ordem Mundial.

Muitos grandes empresários, políticos, incluindo alguns de seus colaboradores, estão lutando para impor limites ao Clube, alguns de fora, outros de dentro, se bem que de forma encoberta. Esse interesse de dominar o mundo não é novidade na história da Humanidade. Outros já tentaram antes.

O lado obscuro do Clube Bilderberg – o pior mal já enfrentado pela humanidade – está entre nós e utiliza os novos e amplos poderes de coação e terror que a ditadura do complexo industrial-militar global – segundo palavras do autor - requer para acabar com a resistência e governar aquela parte do mundo que resiste às suas intenções.

Cada nova medida, por si só, pode parecer uma aberração, mas o conjunto de mudanças, que formam parte do processo em curso, constitui um movimento em direção à Escravidão Total. A batalha está se realizando neste preciso instante em que você lê esta matéria e a ditadura global – o Governo Mundial Único – está vencendo.

O objetivo dos que lutam contra essa ditadura global é defender a nossa intimidade pessoal e nossos direitos individuais, a pedra angular da liberdade. E essa batalha envolve o Congresso dos EUA, a União Européia, os tribunais, as redes de comunicação, as câmeras de vigilância, a militarização da polícia, os campos de concentração, as tropas estrangeiras estacionadas em solo de diversos países, os mecanismos de controle de uma sociedade sem dinheiro em espécie, os microchips implantáveis, o rastreamento por satélite GPS, os cartões de identificação por radiofreqüência (RFID), o controle da mente, as contas bancárias, os cartões inteligentes e outros dispositivos de identificação que o Grande Irmão nos impõe e que conectam os detalhes da nossa vida a enormes bancos de dados secretos dos governos.

Os caminhos que forem tomados agora determinarão o futuro da humanidade: se passaremos a fazer parte de um Estado policial eletrônico global ou se continuaremos como seres humanos livres.

O Clube do governo mundial na sombra decide, numa reunião anual secreta, como devem ser realizados seus projetos diabólicos. Quando se celebram essas reuniões, não por acaso seguem-se guerras, a fome, a pobreza, a derrubada de governos e abruptas e surpreendentes mudanças políticas, sociais e monetárias.

Skinner – Burrhus Frederic Skinner -, cientista do comportamento e do aprendizado, colaborador do Instituto Tavistock – organização de pesquisa no campo da psicologia social aplicada – que, por sua vez, é colaboradora do Clube Bilderberg, considera a população em geral incompetente para educar seus filhos e propõe como sociedade ideal aquela em que os filhos são separados das famílias por ocasião do nascimento e educados pelo Estado, que paga aos pais por seus filhos uma determinada quantia, em centros onde passam a viver.

Outra forma de manipulação de conduta utilizada pelo Clube Bilderberg é conseguir que as pessoas obtenham algo que desejam em troca da renúncia de outra coisa, principalmente a liberdade.

Se bem que o Clube Bilderberg, a Comissão Trilateral, a Mesa-Redonda, o Conselho de Relações Internacionais, as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Clube de Roma e algumas outras organizações realizem seus planejamentos e suas gestões em particular; a imprensa, as rádios e as cadeias de TV se negam a cobrir o tema e não se atrevem a falar dele. Isso mantém a maioria da população num estado contínuo de ansiedade interior porque as pessoas estão demasiado ocupadas garantindo sua própria sobrevivência ou lutando por ela.

A técnica do Clube Bilderberg consiste em submeter a população e levar a sociedade a uma forte situação de insegurança, angústia e terror, de maneira que as pessoas cheguem a sentir-se tão exaltadas que peçam, aos gritos, uma solução, qualquer que seja. Essa técnica tem sido aplicada às gangues de rua, às crises financeiras, às drogas e ao atual sistema educacional e prisional.

Com relação ao sistema educacional é necessário dar a conhecer que os estudos realizados pelo Clube Bilderberg demonstram que conseguiram diminuir o coeficiente intelectual médio da população. Para conseguir isso não só manipulam as escolas e as empresas, mas também têm se apoiado na arma mais letal que possuem: a televisão e seus programas de baixo nível, para afastar a população de situações estimulantes e conseguir assim entorpecê-la.

O objetivo final desse pesadelo – ou dessa "confusão dos diabos"... - é um futuro que transformará a Terra num planeta-prisão por meio de um Mercado Globalizado Único – que tornou o mundo plano -, vigiado por um Exército Mundial Único, regulado economicamente por um Banco Mundial e habitado por uma população controlada por microchips cujas necessidades vitais terão sido reduzidas ao materialismo e à sobrevivência: trabalhar, comprar, procriar, dormir, tudo conectado a um computador global que supervisionará cada um de nossos movimentos.

Os membros do Bilderberg "possuem" os bancos centrais e, portanto, estão em condições de determinar os tipos de interesses, a disponibilidade de dinheiro, o preço do ouro e quais os países que devem receber quais empréstimos. Ao movimentar divisas, os membros do Bilderberg ganham milhares de dólares.

Desde 1954, os sócios do Bilderberg representam a elite das nações ocidentais - financistas, industriais, banqueiros, políticos, líderes de corporações multinacionais, presidentes, primeiros-ministros, ministros das Finanças, secretários de Estado, representantes do Banco Mundial, OMC, FMI, executivos dos meios de comunicação e lideranças militares -, um governo nas sombras que se reúne em segredo para debater e conseguir um consenso sobre a estratégia global. Todos os presidentes dos EUA, desde Eisenhower, pertenceram ao Clube. Também Tony Blair, assim como Lionel Jospin, Romano Prodi, ex-presidente da Comissão Européia, Mario Monti, comissário europeu para a Concorrência, Pascal Lamy, comissário do Comércio, José Manuel Durão Barroso, atual presidente da Comissão Européia, Alan Greenspan, chefe do FED (o Banco Central dos EUA), Hillary Clinton, John Kerry, a ministra de Assuntos Internacionais da Suécia, assassinada, Anna Lindh, Melinda e Bill Gates, Henry Kissinger, a dinastia Rothschild, Jean-Claude Trichet, cabeça visível do Banco Central Europeu, James Wolfenson, presidente do Banco Mundial, Javier Solana, ex-Secretário Geral do Conselho da Comunidade Européia, o financista George Soros, um especulador capaz de derrubar moedas nacionais em proveito próprio, e todas as famílias reais da Europa. Juntamente com eles sentam-se os grandes proprietários dos meios de comunicação, pessoas que controlam tudo o que se lê e assiste.

Em 2004, no Grande Hotel des Iles Borromées, em Stresa, Itália, em mais um Encontro, celebrou-se o 50º aniversário do Grupo, que foi constituído entre os dias 29 e 31 de maio de 1954 no hotel Bilderberg (daí o nome de Grupo Bilderberg), na localidade holandesa de Oosterbeckl em um evento organizado pelo príncipe Bernard, da Holanda.

Tanto Donald Rumsfeld, atual Ministro da Defesa dos EUA, como o general Peter Sutherland, da Irlanda, são membros do Bilderberg. Sutherland é ex-comissário europeu e presidente da Goldman, Sachs e Britsh Petroleum. Rumsfeld e Sutherland ganharam um bom dinheiro em 2000 trabalhando juntos no conselho da companhia energética suíça ABB (Asea Brown Bovery Ltda). Sua aliança secreta tornou-se pública quando se descobriu que a ABB havia vendido dois reatores nucleares a um membro ativo do "eixo do mal", a Coréia do Norte!

Por outro lado, é muito difícil resumir como o Clube Biderberg esteve envolvido com a administração de Ronald Reagan, eleito presidente dos EUA em 1980. Todos os cargos importantes do governo foram ocupados por socialistas fabianos, recomendados pelo Heritage Foundation do Bilderberg/Rockefeller (um parêntesis para assinalar que a Heritage Foundation, fundada em 1973, apresenta-se como um instituto educacional de pesquisa que formula e promove políticas públicas e conservadoras baseadas nos princípios de livre-empresa, governo limitado e liberdade individual, o que torna essa afirmativa – pelo menos essa – inverossímil); com o assassinato de Aldo Moro - morto pelo grupo maçon P2, com o objetivo de alinhar a Itália com o Clube de Roma e com Bilderberg; com o assassinato de Ali Bhutto, presidente do Paquistão, em 1979, que queria desenvolver armas nucleares como elemento de dissuasão contra "as contínuas agressões israelenses no Oriente Médio"; com a deposição do Xá do Irã pelo aiatolá Khomeini, uma criação da VI Divisão de Inteligência Militar britânica, popularmente conhecida como MI6 (sobre o qual o Parlamento britânico não tem jurisdição); ou com o caso Watergate. Ao contrário do que sempre afirmou oWashington Post, não houve nenhuma "evidência" de que Nixon tenha abusado de seu poder. Se cometeu algum crime foi o de não defender a Constituição dos EUA, como jurou na cerimônia de posse.

O surgimento de Bill Clinton, "ungido" como candidato à presidência dos EUA na conferência de Bilderberg de 1991, em Baden-Baden, Alemanha, à qual ele esteve presente, também não é muito fácil de esclarecer. O que é completamente desconhecido pela maior parte da população mundial é que Bill Clinton, saindo da conferência, realizou uma inesperada viagem a Moscou, onde em uma terça-feira, 9 de junho de 1991, entrevistou-se durante uma hora com o Ministro do Interior soviético, Vadim Bakatin, ministro do já então condenado governo de Mikhail Gorbachev. Especula-se que Clinton tenha sido enviado a Moscou pelo Clube Bilderberg para conseguir que "enterrassem" os relatórios da KGB sobre a juventude do próprio Clinton e suas atividades contra a guerra do Vietnã, dois meses antes de anunciar a sua candidatura à presidência. Afinal, Vadim Bakatin, no governo de Boris Yeltsin, que sucedeu Gorbachev, foi nomeado para um importante cargo na KGB.

Como esses fatos podem ser verificados? É virtualmente impossível penetrar no Clube Bilderberg. Algumas provas não estão ao alcance porque fazem parte dos arquivos da Inteligência e só uma minoria privilegiada pode vê-las. Não esperem nunca que os meios de comunicação mencionem a conspiração nos telejornais da noite. E, como nada disso que consta no livro de Daniel Estulin aparece nos noticiários, as pessoas imaginam tratar-se de mais uma das muitas teorias de conspiração a serem desprezadas, freqüentemente ridicularizadas e, por fim, rejeitadas. Resumindo: "uma confusão dos diabos".

O objetivo do Clube Bilderberg é a busca de uma era pós-nacionalismo, em que já não haverá países, só regiões e valores universais. Ou seja, só uma economia universal, um governo universal (designado, não eleito) e uma religião universal. Para assegurar esses objetivos, os membros do Clube defendem um enfoque mais técnico e menos conhecimento por parte do público. Seu objetivo final é o controle de absolutamente tudo no mundo, em todos os sentidos da palavra: a atmosfera, os oceanos, os continentes com todas as suas criaturas. Agem como se fossem Deus na Terra.

Deus pode ter criado o Universo, mas no que diz respeito ao planeta Terra, a mensagem do Clube Bilderberg para Deus é simplesmente a seguinte: "Obrigado. Mas a partir de agora nós mesmos vamos tomar conta".

Em 28 de fevereiro de 2006, Daniel Estulin denunciou, na Internet, as dificuldades para que seu livro seja vendido em Portugal e Espanha, inclusive com boicote por parte da editora Planeta, que o editou.


DOCUMENTÁRIO: END GAME [JOGO FINAL]














segunda-feira, 17 de agosto de 2009

PEQUENA HISTÓRIA DA DESINFORMAÇÃO

Do Cavalo de Tróia a Internet
Título original: Petite histoire de la désinformation
Autor: Vladimir Volkoff
Editora: Editions du Rocher – 1999 – Tradução cedida pela Editorial Notícias, Portugal.
Assunto: Comunicação
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 270

Sinopse: Desde sempre que o homem compreendeu a possibilidade (e a importância) de tirar vantagem de qualquer informação, por mais ligeira e inocente que seja. Como a dose de veracidade existente na informação não é fixa, nem garantida, nada mais fácil, pois, do que juntar-lhe um bocado de falsidade ou fabricá-la por inteiro. Nesta obra, o autor analisa as grandes operações de desinformação da História, desde o mitológico Cavalo de Tróia à globalização com a rede mundial de computadores. Largamente difundida e altamente especializada, a produção de informações fraudulentas, a serviço de interesses estratégicos, políticos e ideológicos, parece cada vez mais comum, mais fácil e mais eficaz. Este livro causará muitas perplexidades e que despertarão consciências. O texto aqui publicado é uma tradução portuguesa, cuja terminologia e ortografia mantiveram-se.


Sobre o autor: Vladimir Volkoff nasceu em Paris em 1932, tendo se licenciado em Literatura Clássica na Sorbonne em 1954. Cumpriu serviço militar na Argélia, de cuja guerra participou; em 1963 recebeu o Prêmio Júlio Verne com “Metrô para o Inferno”, de ficção científica. Em “Os humores do mar” e “A Montanha” retrata os métodos e as redes da desinformação soviética na Europa. Escreveu ainda ensaios anticonformistas e biografias históricas.

Trechos da obra:

A antiga língua de pau se utilizava de imagens lingüísticas e figuras de retórica para fazer propaganda ideológica, como a alegoria, o eufemismo, a prosopopéia, a metonímia, a metalepse. Utilizava-se do maniqueísmo simplista para exaltar suas próprias virtudes e demonizar o inimigo. Com o tempo, o idioma russo foi se empobrecendo, tornando-se minimalista. “O dicionário de Dahl contém 22000 palavras; os escritores soviéticos utilizavam 1500” (pg. 68). Enfim, o “idioma fantasma” assume a confissão de Goebbels: “Não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito” (cit. pg. 68).


Goerge Orwell, no grandioso 1984, desenvolveu com muita propriedade uma língua de pau imaginária, a Newspeak (Novalíngua). Nessa obra, havia um tirano em Oceânia, chamado Big Brother, que impunha à população uma doutrina totalitária, o Ingsoc (Socialismo inglês), de modo que “um pensamento herético, ou seja, um pensamento divergente dos princípios do Ingsoc, se torna literalmente inconcebível, pelo menos na parte em que o pensamento depende das palavras” tão logo a “Oldspeak”, a língua atual, seja esquecida. Tal resultado era alcançado “parcialmente, com a invenção de novas palavras, mas sobretudo através da eliminação de palavras indesejáveis e despindo as restantes de qualquer significação heterodoxa e, tanto quanto possível, de significado secundário, seja ele qual for. Reduziu-se o número de palavras, pois “cada redução era um ganho, pois menos escolha havia e menor era a tentação de pensar” (pg. 69-70).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

MANUAL DO PERFEITO IDIOTA LATINO-AMERICANO

Autor 1: Álvaro Vargas Llosa.
Autor 2: Plínio Apuleyo Mendonza.
Autor 3: Carlos Alberto Montaner.
Assunto: Ciências Sociais e Ciência Política.
Editora: Bertrand Brasil
Edição: 1ª
Ano: 1997
Páginas: 364

Sinopse: Nesta obra, três “ex-idiotas latino americanos” analisam e refutam todas as bobagens esquerdistas que vêm sendo repetidas há décadas na América Latina. Desde a Teologia da Libertação até o antiamericanismo primário, as mentiras comunistas vão sendo destruídas uma a uma. Com grande conhecimento de história e economia e com uma apresentação exaustiva de dados, eles provam que a idiotice não precisa ser vitalícia, bastando para afastá-la estudo e honestidade.

Acredita que somos pobres porque eles são ricos e vice-versa, que a história é uma bem-sucedida conspiração dos maus contra os bons, onde aqueles sempre ganham e nós sempre perdemos (em todos os casos, está entre as pobres vítimas e os bons perdedores), não se constrange em navegar no espaço cibernético, sentir-se on line e (sem perceber a contradição) abominar o consumismo. Quando fala de cultura, ergue a seguinte bandeira: “O que sei, aprendi na vida, não em livros; por isso, minha cultura não é livresca, mas vital.” É o idiota latino-americano.

Eis a descrição do idiota na apresentação, redigida pelo escritor peruano Mário Vargas Llosa, à obra Manual do perfeito idiota latino-americano, de Plínio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa. Intencionalmente polêmico, o livro traça, com humor ferino, o perfil do sujeito que freqüentou universidade e, depois, passou a militar nos sindicatos, nos partidos, nas ONGs e outras associações que se dizem sociais. De quebra, destrói impiedosamente a galeria de mitos revolucionários e heróis populistas que infestaram a região.

A idiotia latino-americana, diz ainda o apresentador, é deliberada e de livre-escolha: “é adotada conscientemente por preguiça intelectual, apatia ética e oportunismo civil. É ideológica e política, mas acima de tudo frívola, pois revela uma abdicação da faculdade de pensar por conta própria, de cotejar as palavras com os fatos que pretendem descrever, de questionar a retórica que faz as vezes de pensamento.” Não parece uma descrição fiel da intelectualidade brasileira que se diz “esquerdista”?

O idiota latino tem sempre uma biblioteca política. Afinal, é bom leitor, ainda que só leia livros ruins. “Não lê da esquerda para a direita” – escarnecem os autores -, “como os ocidentais, nem da direita para esquerda, como os orientais. Dá um jeito para ler da esquerda para a esquerda. Pratica a endogamia e o incesto ideológico.

Mas o que lê o nosso idiota? O livro cita algumas obras, considerando uma delas a bíblia da idiotia: As veias abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que tem devastado cabeças desde os anos 70. Ainda é levado a sério por muita gente e recomendado a alunos por professores idiotas. As outras obras são: A História me absolverá, de Fidel Castro; Os condenados da Terra, de Frantz Fanon; A guerra de guerrilhas, de Ernesto (Che) Guevara; o onipresente Os conceitos elementares do materialismo histórico, de Marta Harnecker; O homem unidimensional, de Herbert Marcuse (um ataque à “civilização industrial”); Para ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart (obrigatório nas escolinhas de comunicação nos anos 70); e Para uma teologia da libertação, de Gustavo Gutiérrez.

Dois brasileiros contribuem para a formação do idiota latino-americano: Fernando Henrique Cardoso que, com Enzo Faletto, escreveu Dependência e desenvolvimento na América Latina (que dividiu o mundo entre “centro” e “periferia”), e Frei Betto, apóstolo da teologia da libertação no Brasil e “conselheiro espiritual” do presidente Lula. FHC, como se sabe, tomou o rumo da civilização; já o frei continua escrevendo bobagens nos jornais (exemplos: "Cuba é o único país onde a palavra dignidade tem sentido"; "Em nossos países se nasce para morrer. Em Cuba, não!").
(Olando Tambosi)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO

Autor: Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Tradução: Daniela Caldas e Olavo de Carvalho
Editora: Topbooks
Assunto: Dialética erística
Edição: 1ª
Ano: 1997
Páginas: 258

Sinopse: Trata-se de um tratado de patifaria intelectual, não para uso dos patifes e sim de suas possíveis vítimas: o povo. Obra de um espírito arguto e particularmente sensível aos ardis da malícia humana, é um receituário de precauções contra a argumentação desonesta – aquele tipo de polêmica interesseira onde o que importa não é provar, mas vencer. O livro ensina a reconhecer e a desmontar as artimanhas do debatedor capcioso – o sujeitinho que, nada tendo a objetar seriamente às razões do adversário, procura apenas desmoralizá-lo ou confundir a platéia para fazer com que o verdadeiro pareça falso e o falso verdadeiro, típico dos petistas, socialistas e comunistas que utilizam essa tática em profusão.

Ao ler o livro, você terá a impressão que foi escrito hoje, sob medida, e retrata com fidelidade desconcertante o modus operandi do governo do PT, bem como dos políticos esquerdistas e da imprensa marxista engajada que formam a legião esquerdopata brasileira.

Nesta edição, o livro é enriquecido por extensos comentários e acréscimos do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, um expert no desmascaramento da pseudo-argumentação.

Se você não deseja continuar fazendo o papel de trouxa nessa conversinha fiada do governo do PT e da imprensa engajada, então leia e estude este livro. Você descobrirá como essa gente mente e engana o povo brasileiro.