"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. E, por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso"

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

LÊNIN, STÁLIN e HITLER: A ERA DA CATÁSTROFE

Título Original: Lenin, Stalin and Hitler
Autor: Robert Gellately
Tradutor: Vitor Paolozzi
Assunto: História (Comunismo e Nazismo)
Editora: Record
Edição: 1ª
Ano: 2010
Páginas: 796

Sinopse: Este livro conta a história da catástrofe social e política que engolfou a Europa entre 1914 e 1945. Num período de turbulência quase contínua, a sociedade foi transformada por duas guerras mundiais, pela Revolução Russa, pelo Holocausto e pela ascensão e queda do Terceiro Reich. Lenin, Stalin e Hitler ocuparam posições centrais nessa catástrofe, e Gellately recorre a fontes alemãs e russas recém-abertas para explicar como suas buscas por ideais utópicos - e terrivelmente distorcidos - levaram somente a um pesadelo histórico.

Comentários: Lênin, Stálin, Hitler. Nomes inextrincavelmente ligados ao curso da história contemporânea. No meio do turbilhão europeu da primeira metade do século XX, esses ditadores tomaram decisões que moldaram o mundo como conhecemos. E tornaram impossível conjurar outra imagem para a Europa atual. Em LÊNIN, STÁLIN E HITLER, o renomado historiador Robert Gellately disseca o período entre 1914 e 1945, uma era de turbulência quase contínua: duas guerras mundiais, a Revolução Russa, o Holocausto, a ascensão do Terceiro Reich. E mostra como esses três homens ocuparam posições centrais nesses eventos.

Gellately analisa, ainda, as ligações entre estes momentos históricos e avisa: considerar tais acontecimentos como episódios não conectados equivale a não compreender suas gêneses e naturezas. O autor foca as potências dominantes da época, União Soviética e Alemanha nazista, mas analisa a catástrofe em termos globais. Afinal, mais vidas foram perdidas nesse intervalo do que em qualquer outro na história. Poucas semanas após a tomada do poder, os bolcheviques criaram forças policiais secretas muito mais brutais que os similares czaristas. Os nazistas fizeram o mesmo e instituíram a Gestapo. Sob ambos os regimes, milhões foram encarcerados, torturados e mortos. Neste livro Gellately argumenta contra a corrente que ameniza o papel de Lenin nos crimes de Stálin e mostra que o terror colhido pelo segundo foi em grande parte plantado pelo primeiro.

Na Primeira Guerra Mundial, algo ao redor de oito milhões de homens morreram em combate, sete milhões ficaram permanentemente incapacitados e outros 15 milhões, seriamente feridos. Estimados cinco milhões de civis perderam suas vidas em decorrência de “causas relacionadas à guerra”, tais como doenças e subnutrição. Essas mortes civis não incluem as da Rússia, onde a situação foi a mais grave de todas, extremamente amplificada por (duas) revoluções em 1917, seguidas por uma guerra civil e fome. Tudo isso aconteceu no que viria a ser somente a primeira fase da grande catástrofe social e política. A vez seguinte seria ainda mais letal.

A “normalidade” pós-guerra na Europa foi marcada por violência política, tentativas de golpes (e golpes bem-sucedidos), assassinatos e instabilidade geral. Esse clima foi propício ao surgimento de novos partidos e, acima de tudo, à aparição de radicais e ditadores de direita e esquerda, que, apoiados pelos enraivecidos, extremistas e, especialmente, também pelos jovens “idealistas”, tentaram tirar vantagem da crise geral. O monstro da guerra estava a postos para o próximo round, que começou em setembro de 1939. A Segunda Guerra irrompeu em torno da Polônia e se expandiu pela Europa ocidental até que por fim o mundo envolveu-se num pandemônio de destruição e horror bem mais mortífero do que até mesmo a Grande Guerra.

Tudo decorre das buscas por ideais utópicos que resultam num pesadelo sem precedentes na história humana. O nome desses “ideais” são: Comunismo e Nazismo, irmãos siameses e filhos de Karl Marx.


  Sobre o autor: Robert Gellately é professor da cátedra Earl Ray de História na Universidade Estadual da Flórida, tendo recentemente ocupado a posição de professor-visitante de Política Judaica e História do Século XX na Universidade Oxford. É autor de The Gestapo and German Society: Enforcing Racial Policy 1933-1945 e Backing Hitler: Consent and Coercion in Nazi Germany. Mora em Tallahassee, Flórida.


domingo, 1 de julho de 2012

ENSAIOS REUNIDOS - VOLUME I

De A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa
Autor: Otto Maria Carpeaux *
Organização, Introdução e Notas: Olavo de Carvalho
Assunto: Ensaios
Editora: UniverCidade / Topbooks
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 928  

Apresentação da obra: "A importância da atuação de Otto Maria Carpeaux na cultura nacional é um fato que nunca foi contestado, embora nem sempre compreendido em sua extensão humanística. Durante a sua vida, formou-se em torno dele um grupo de intelectuais e artistas que nele encontraram, em primeira mão, as tradicionais heranças que sempre buscáramos na Europa, momentaneamente interrompidas pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Agora, 21 anos da sua morte [de 1978 morte de Carpeaux; 1999 data de lançamento do livro], com a reedição cuidadosa de suas obras principais pela UniverCidade Editora - sob orientação de Olavo de Carvalho - em convênio com a Topbooks, as novas gerações nele poderão encontrar a visão abrangente de um verdadeiro scholar, de um espírito superior que armazenou amplos conhecimentos em vários setores da cultura ocidental e soube transmití-los em notável coleção de ensaios, artigos e estudos." (Carlos Heitor Cony)
Comentários: Para que você, leitor deste blog, tenha uma idéia do conteúdo desta obra, não por acaso, escolhi uma parte dela para mostrar e demonstrar a riqueza de um pensamento e a visão filosófica, sociológica e histórica de um momento da vida brasileira no contexto do cenário mundial. Infelizmente, hoje, por conta de uma ideologia psicopata, de governos comuno-socialistas que se sucedem há quase duas décadas, a nação se encontra nas trevas e a cultura superior deste país desapareceu. Não existe mais. Nem uma sombra pálida do passado restou. Só as malditas bandeiras vermelhas tremulando nas nossas "universidades" e nos cérebros do povo brasileiro. Boa leitura! (Anatolli).


A Idéia de Universidade e as idéias das classes médias
In Ensaios Reunidos (1942-1978), Volume I, p. 211-218

"Jamais esquecerei o dia em que entrei pela primeira vez, com toda a ingenuidade dos meus dezoito anos, no solene recinto da Universidade da minha cidade natal. Um pórtico silencioso. Nas paredes viam-se os bustos dos professores que ali estudaram e ensinaram; no busto de um helenista lia-se a inscrição: "Ele acendeu e transmitiu a flâmula sagrada"; e no busto de um astrônomo: "O princípio que traz o seu nome ilumina-nos os espaços celestes". No meio do pátio, num pequeno jardim, sob o ameno sol de outono, erguia-se uma estátua de mulher nua, com olhos enigmáticos: a deusa da sabedoria. Silêncio. Não esquecerei nunca.


A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam "acadêmicos".


A última vez que passei perto deste "templo das Musas", o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais – estávamos na primavera – via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo.

Por toda parte, as universidades são doentes, senão moribundas, e isto é grande coisa. Os iniciados bem sabem que não é esta uma questão para os pedagogos especializados. Das universidades depende a vida espiritual das nações. O fim das universidades seria um fim definitivo. O abismo entre o progresso material e a cultura espiritual aumenta de dia para dia, e as armas desse progresso nas mãos dos bárbaros é fato que clama aos céus. Os edifícios das universidades resistem ainda, e neles trabalha-se muito, demais, às vezes, mas o edifício do espírito, esta catedral invisível, está ameaçado de cair em ruínas. Em tempos mais felizes a sueca Ellen Key dizia com sutileza: "Cultura é o que nos resta depois de termos esquecido tudo quanto aprendemos." E, deste modo, somos riquíssimos de saber e mendigos de cultura. Hoje em dia Herbert George Wells pode dizer: We are entered in a race between education and catastrophe. (Entramos numa corrida entre educação e catástrofe) Aí está a questão da Universidade.

Quem é o culpado? Evidentemente, é inadmissível simplificar uma discussão de tal envergadura. Acusa-se o Estado por ter-se intrometido, e acusa-se o Estado por não se intrometer. Acusam-se os professores por mergulharem nos ensinos profissionais e descuidarem-se da ciência desinteressada, e acusam-se os professores por mergulharem na ciência pura sem saberem ensinar. Aqui, queixam-se de as universidades não fornecerem elites, de que a nação tem necessidade; ali, queixam-se de que as universidades fornecem elites demais, um proletariado intelectual. Abundam os remédios propostos. Desejam salvar as universidades pela separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino, o que agravaria o problema em vez de o resolver: a ciência seria, assim, afastada da vida, e o ensino entregue à rotina. Falham, igualmente, as tentativas mais bem pensadas de curar a doença infundindo uma nova crença ou uma velha fé: teremos os mesmos estudantes, os mesmos bacharéis, os mesmos doutores que antes, e as suas boas crenças não resolverão a doença da Universidade. Porque não cabe à Universidade formar crentes nem sequer sugerir convicções, mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Já abundam os homens cegamente convictos, muito "práticos", "úteis" para os serviços do Estado, da Igreja, dos partidos e das empresas comerciais. Pode ser que todas essas instituições lamentem, em breve, a abundância de homens convictos e a falta de homens livres. Então, acusar-se-á amargamente o utilitarismo das universidades modernas. O utilitarismo é o inimigo mortal da Universidade.

Mas o que quer dizer prático, útil? A resposta não é tão simples. Por felicidade os poderosos deste mundo introduziram um novo ponto de vista, ao qual julgo que devemos algumas perspectivas novas.

Para a mentalidade média do nosso tempo a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química, que nos forneceram a luz elétrica e os gases asfixiantes, são as ciências úteis; a história e a filosofia, que não nos fornecem nada, são ciências "inúteis". Apelo desta sentença para a sabedoria de certos homens práticos, que disso entendem muito bem. Certos regimes, ditos totalitários, acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências, cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. Ora, que vemos nós, com surpresa? Estes regimes não se ocupam, absolutamente, com as ciências "práticas", a física e a química, que continuam bem tranqüilas. Mas as ciências totalmente inúteis, a história, a filosofia, os estudos literários, são justamente as favoritas dos regimes totalitários, que as abraçam até sufocá-las. É digno de nota.

Mas o que é ainda mais notável é uma certa coincidência. Sabemos que a Universidade, Universitas Litterarum, é uma criação da Idade Média. Ora, os ditos regimes não se ocupam com as ciências naturais, que a Idade Média conhecia pouco, e que se juntaram mais tarde à Universidade. Tratam somente das "velhas" ciências, das Litterae, que na Idade Média já eram conhecidas, e que formam a verdadeira alma da Universidade. Está claro. Foram justamente estas Litterae que formaram os caracteres das nações; e aquele que desejar transformar uma nação deverá transformá-las integralmente. Eles sabem o que é uma universidade.

A história das universidades é a história espiritual das nações. A França medieval é a Sorbonne, cujo enfraquecimento coincide com a fundação renascentista do Collège de France, e cujo prolongamento moderno é a Ecole Normale Supérieure. A Inglaterra, mais conservadora, é sempre Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana é Wittemberg e Iena; a Alemanha moderna é Bonn e Berlim. As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não fornecem homens práticos; formam o tipo ideal da nação: o lettré, o gentleman, o Gebildeter. Elas formam os homens que substituem, nos tempos modernos, o clero das universidades medievais. Elas formam os clercs.

As universidades americanas têm a mesma origem. As velhas universidades da América Latina – Lima, México, Bogotá, Córdova – são fundações da Coroa de Espanha; mas foram, desde o início, confiadas aos frades, e já a primeira cédula de fundação, a ordem real do imperador Carlos V, de 21 de setembro de 1551, dá claramente a entender o sentimento da responsabilidade perante o espírito, o espírito desinteressado da Universidade medieval: Para servir a Deus, Nosso Senhor, e ao bem público de nossos reinos, convém que nossos vassalos, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades, e pelo muito amor e vontade que temos de honrar e favorecer aos de Nossas Índias, e desterrar deles as trevas da ignorância, criamos, fundamos e constituímos na cidade de Lima dos reinos do Peru, e na cidade de México da Nova Espanha, Universidades e Estudos Gerais. Nada mais eloqüente, admirável, do que semelhantes termos haverem sido empregados quando os puritanos fundaram, em 1636, a primeira universidade da América inglesa, a de Harvard: After God had carried us safe to New England, and we builded our houses and settled the Civil Government; one of the next things we looked after was to advance Learning and perpetuate it to Posterity, dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust. (New England's First Fruits, 1643.) (Depois que Deus nos tinha seguramente conduzido a Nova-Inglaterra, e que construímos as nossas casas e estabelecemos um governo civil, uma das nossas primeiras ocupações foi estimular o ensino e perpertuá-lo para a posteridade, com receio de deixar às igrejas um clero iletrado quando os nossos clérigos atuais jazerem em pó.)

O que resta destas Universitates Litterarum? O nome. Já não formam lettrés, nem gentlemen, nem Gebildeter; formam médicos, advogados, professores. As universidades tornaram-se lugares de investigações científicas; e é um romantismo utilitário que vem muni-las das asas do progresso. Não há mais clercs, só há estudantes.

Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados.

Há duas espécies de estudantes: chamá-las-emos os "ricos" e os "pobres", sublinhando que há pobres entre os "ricos" e ricos entre os "pobres"; são apenas duas expressões cômodas para abraçar uma generalização inevitável. Os estudantes "pobres" são aqueles que estudam "para a manteiga e para o pão"; estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. Seria cruel e estúpido censurá-los. Antes, devemos admirá-los, em virtude dos sacrifícios, muitas vezes imensos, feitos por eles e seus pais para melhorar um futuro incerto e tornar a existência mais digna. Todavia, importa não se dissimularem os graves inconvenientes. Estudantes "pobres", há muitos deles: vivem embaraçados pela miséria, pelas ocupações acessórias para ganhar a vida; sobretudo têm pressa de terminar os estudos. Junte-se a isto a benevolência, plenamente justificável, que os examinadores lhes devem como recompensa dos seus esforços. Em suma, o nível baixa sensivelmente. O nível baixa, dizemos, até o nível dos estudantes "ricos". São estes os que têm necessidade de um grau acadêmico, porque o pai tem um, porque isto dá certa consideração na sociedade ou para adornar fortuna um pouco recente. Entre os estudantes "ricos" existem os pobres que desejam manter penosamente o standard de uma família em decadência, o que é, aliás, muito louvável. Existem outros verdadeiramente ricos, que não têm necessidade de estudar, mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências; e estas, por sua vez, precisam deles, para subsistir materialmente. Em todo caso, os seus estudos não são de necessidade absoluta; eles não estudam mais do que o necessário, o indispensável para passar nos exames; os esforços ulteriores parecem-lhes ridículos. E são eles que, pela sua situação social, determinam o nível geral. E esse nível é a morte da Universidade.


Queixam-se de que as universidades já não fornecem elites. Sim, mas em compensação fornecem verdadeiras massas, porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidade de cérebros que de batalhões de estudantes; e para isto eles satisfazem. A inteligência que é precisa para estudar uma profissão, mesmo acadêmica, não é tão grande como os leigos imaginam. Há vários séculos um sábio inglês, o cônego dr. Copleston, fellow do Ariel College, em Oxford, predizia: Ainda que a ciência seja favorecida por essas concentrações de inteligência a seu serviço, os homens que se encerram nas especializações têm a inteligência em regresso. (Citado pelo cardeal Newman, The idea of a university, p. 72). É o regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos.

É preciso que se digam, aqui, algumas verdades muito impopulares e muito desagradáveis. Existe Inteligência e existem "intelectuais". Intelectuais são os médicos, os advogados, os funcionários superiores de toda espécie, os especialistas científicos de toda sorte. Mas deve-se dizer que somente uma parte desses "intelectuais" pertence à Inteligência, que é, por seu lado, o resto dos "clercs", da elite de outrora. Sejamos sinceros: podemos ser bom médico, bom advogado, bom professor, e ter o espírito preso aos limites da profissão; e sabemos que o grau acadêmico nem sequer é sempre a garantia de boas qualidades profissionais. Mas ele confere sempre uma autoridade social. José Ortega y Gasset caracterizou essa nova espécie de intelectuais, violentamente, mas sinceramente: Nuevo bárbaro, retrasado com respecto a su época, arcaico y primitivo en comparación con la terrible actualidad de sus problemas. Este nuevo bárbaro es principalmente el profesional más sabio que nunca, pero más inculto también – el ingeniero, el médico, el abogado, el científico. (Misión de la Universidad, Obras, p. 1289).


O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas. Dessas massas que os pensadores políticos muitas vezes confundem com o proletariado econômico. Sim, mas o espírito proletário, o espírito da reação violenta contra certas condições econômicas e sociais, não está exclusivamente ligado às massas obreiras; participam dele todas as "massas", como fenômenos sociológicos, e a massa dos intelectuais também. É o fato central da nossa época: as classes médias, mesmo antes de serem proletarizadas, mesmo justamente para evitar a ameaça da proletarização, transformam-se em massas proletárias. E esta proletarização interior é um fenômeno da educação. Chama-se "classes médias" o problema central da nossa época. O livro mais bem documentado que conheço sobre o fascismo, Fascisme et grand capital, de Daniel Guérin, apresenta a tese de que o fascismo é a última expressão do grande capitalismo. Tese errônea. Provando irrefutavelmente que o grande capital se serviu do fascismo para bater o movimento trabalhista, Guérin esquece-se de concluir que o instrumento se mostrou, enfim, mais forte do que o mestre, e que os operários e os capitalistas perderam, juntos, a liberdade de movimento, pela ação deste inimigo de ambos – as classes médias. Fato fundamental do nosso tempo: o fascismo propaga-se e vence através das classes médias, das quais é a expressão triunfal.

O fascismo foi impossível na Rússia. É também um fato fundamental que a Rússia não conheceu, não teve uma classe média. Ora, seguindo a corrente da época, o bolchevismo criou uma classe média. A burocracia soviética, os stakhanovistas e outras camadas privilegiadas do operariado, não são outra coisa senão uma nova classe média. Considerando, nos outros países, a ascensão de camadas igualmente novas, que o século XIX ainda não conhecia, verdadeiros exércitos de empregados privados, de funcionários públicos, de pequenos empresários, todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado, essas massas de homens, todos mais ou menos educados, essas multidões de "pequenos intelectuais"; considerando essas multidões de homens novos, nem capitalistas nem trabalhistas, que Karl Marx não podia prever, deve-se precisar o pensamento: o fascismo e o bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa, violentamente revolucionária e anti-intelectualista.



Explica-se, por isso, que Georges Sorel, o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo, Georges Sorel, o ideólogo da violência, seja um homem profundamente pequeno-burguês, representante típico das classes médias francesas, preocupado com a decadência das "autoridades sociais", que ele concebeu fielmente no espírito conservador de Le Play; preocupado, enfim, com a decadência vital da raça latina, pela qual ele responsabiliza violentamente a Inteligência; ao espírito ele prefere a vitalização pelos instintos bárbaros da massa.

Fica-se a admirar que Sorel fale em decadência, na França dos Taine e Bergson, dos Flaubert e Proust, dos Mallarmé e Claudel, dos Degas e Cézanne, dos Rodin e Debussy, dos Pasteur e Henri Poincaré, numa das épocas mais magníficas do espírito francês. Mas é por isso mesmo. Sorel é violentamente anti-intelectualista. Vê no espírito e suas obras o grande obstáculo da volta ao primitivo. Neste ponto, Sorel parece sobretudo "moderno", contemporâneo de nós outros. É a hostilidade ao espírito que liga Sorel diretamente às novas classes médias.

No pensador revolucionário Sorel não se viu o conservador, o representante das classes médias. O mal-entendido correspondente não viu nas novas classes médias as possibilidades revolucionárias. Durante um século, o século XIX, esqueceu-se que a classe média fizera a Grande Revolução. Via-se na classe média a classe essencialmente conservadora, a portadora mesma das tradições humanísticas, e ela o era enquanto os princípios consolidados da Revolução Francesa abrigavam a classe média contra as ameaças do grande capitalismo e do movimento socialista. Isto, porém, acabou. Chegou o dia de uma nova classe média, pronta a vencer por uma nova revolução violenta ou, como na Rússia, triunfar contra um regime obsoleto. Foi Sorel quem emprestou às novas classes médias a ideologia revolucionária.

Poder-se-ia acreditar que os grandes obstáculos dessa revolução fossem os capitalistas e os trabalhadores, ou, na Rússia, um regime milenário e eclesiasticamente consolidado. Engano. Vimos a fraqueza incrível do regime tzarista, a derrota fácil dos socialistas, o suicídio dos capitalistas. O verdadeiro obstáculo – e Sorel o previra bem – era a Inteligência. É ela que merece as diatribes mais cruéis dos chefes e dos caudilhos. Para a vitória final, precisa-se acabar com a Inteligência.

Como? Não é a classe média o principal agente dos movimentos espirituais? Sim, é, ou, melhor, foi. O século XIX, o século liberal, abre a todos todas as possibilidades. A educação superior é o caminho da ascensão. A preeminência da classe média no século XIX baseia-se na sua cultura universitária. Mas o século XX acaba com isso. O grande capitalismo precisa mais de exércitos de pequenos empregados do que de self-made men; as profissões liberais estão superlotadas; o movimento socialista repele os que resistem à proletarização e suas humilhações e privações. Privada dos privilégios da Inteligência, a classe média quebra furiosamente o instrumento, como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. É uma criança, essa nova classe média; mas uma criança perigosa, cheia dos ressentimentos dos déclassés, furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem a ascensão social. Está madura para a violência.

A violência é o fenômeno "espiritual" central das novas classes médias e da nossa época; significa a determinação de empregar todas as armas, todas as que o esforço do espírito criou, para conseguir um fim material: a salvação social da classe. Não se admitem outros fins. Ridiculizam ou anatematizam todos os esforços independentes, desinteressados, do espírito. Admiram a especialização útil do "intelectual de profissão", e banem o humanismo do "professor". A violência anti-intelectualista das novas classes médias é, afinal, uma falta de educação, ou, antes, o fruto de uma falsa educação. Fruto da falsa idéia que as classes médias formavam da Universidade: da nova Universidade, que fornece exércitos de médicos, advogados e técnicos, em vez de "clercs", de uma elite.

O problema capital do nosso tempo, o problema da elite, é, no fim das contas, um problema de pedagogia humanística. Existe mesmo, hoje, política que consiste na exterminação das elites pelas armas dos especialistas. E foi bem preparada: da diminuição das lições latinas, existe apenas um passo para a destruição dos livros e dos museus.


O resultado mais freqüente da moderna educação universitária é um decidido adeus aos livros. Mais tarde, combaterão as "línguas mortas" na escola. Enfim, declararão inútil todo o ensino secundário, com as suas idéias vagas e inúteis duma "cultura geral"; talvez toquem, com isso, no ponto nevrálgico da discussão. Todo o problema espiritual dos nossos dias é, pois, um problema de falta de educação humanística, um problema pedagógico; e todo o problema pedagógico dos nossos dias é um problema da escola específica das classes médias, da escola secundária.

Segundo o regime escolar vigente em todos os países, sem exceção, a Universidade dedica-se ao ensino profissional superior, enquanto a "cultura geral" fica reservada ao ensino secundário, aos ginásios e aos liceus. Quer dizer: o ensino da cultura geral limita-se aos jovens de dez a dezoito anos. Depois, a "cultura" termina, e a medicina e a jurisprudência começam, sem nenhuma "cultura geral". Os conhecimentos do ensino secundário empalidecem, naturalmente, com o tempo; mas ainda há coisa pior: todo esse ensino de "cultura geral" é feito ao alcance de jovens de dez a dezoito anos: a história, a filosofia, a literatura, amoldadas ad usum Delphini, e forçosamente puerilizadas. E aí fica. Nunca mais o jovem médico ou engenheiro ouve falar em história, filosofia, literatura, exceto pela imprensa ou pelo rádio, que se colocam ao alcance do espírito das grandes massas, pueris por natureza. Resultado: um espírito artificialmente preservado no estado pueril com uma formação profissional superposta. Conheço bem as numerosas exceções que felizmente existem. Mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas. Ainda uma vez cito Ortega y Gasset: La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raiz todas las demás. (O. c., p. 1291). Eles, porém, os iletrados, têm sempre razão, porque são muitos e ocupam um lugar de elite, esse "proletariado intelectual", sem dinheiro ou com ele, isso não importa. Julgam tudo, e tudo deles depende. Lêem os livros e decidem sobre os sucessos de livraria, criticam os quadros e as exposições, aplaudem e vaiam no teatro e nos concertos, dirigem as correntes das idéias políticas, e tudo isto com a autoridade que o grau acadêmico lhes confere. Em suma, desempenham o papel de elite. São os nouveaux maîtres, os señoritos arrogantes, graduados e violentos; e nós sofremos as conseqüências, amargamente, cruelmente.

We are entered in a race between education and catastrophe. Wells tem muita razão. Mas é de grande importância datar a desgraça. Esta catástrofe irrompeu sob o signo do progresso, e o progresso ilimitado, muito do gosto de um Wells, cavará mais profundamente o abismo. O verdadeiro caminho é a volta.

Temos mais uma vez "a disputa do medievalismo". Uma coisa fica, porém: a Universidade é uma criação da Idade Média. Todas as universidades medievais são, por princípio, instituições "clericais": elas formam os clercs. O restabelecimento das universidades "clericais" é uma restauração de tradições.

Quatro ou cinco faculdades reunidas não constituem ainda uma universidade. Elas não criam esta "convivence of sciences, which forms a philosophical habit of mind", de que fala o cardeal Newman. Não se trata destas ciências ou daquelas profissões. Trata-se do espírito comum que as anima, do espírito filosófico, anti-utilitário, desinteressado, que as nossas universidades perderam, e que é a própria Idéia de Universidade. Derrubemos, pois, este estado de coisas. É ao ensino secundário que cabe o preparo do ensino profissional, dispensado nos hospitais e na magistratura. Em conclusão, é à Universidade que incumbe a formação do espírito da "clericatura".

Voltemos aos estudantes: o seu utilitarismo, mais perigoso que o das ciências, perdurará enquanto a freqüência das universidades for a chave para as posições de mando na sociedade. Verdadeiramente, o oposto deste utilitarismo é o desinteresse, no qual Newman via o espírito e a idéia de universidade, o espírito do clero universitário medieval que se sentia independente do mundo e somente responsável perante Deus. Sem tais padres o altar fica vazio e o culto abandonado. Poderia chegar o dia em que ninguém compreenderia mais as fórmulas nem os poemas, em que os quadros de Rembrandt seriam pedaços de tela e as partituras de Beethoven farrapos de papel; dia da barbaria, em que a história humana se transformaria, pela sucessão de desgraças, num formigueiro mal organizado. E este dia talvez já esteja mais próximo do que realmente pensamos. "Somos a última reserva, fiquemos conscientes disto." – dizia Hugo Ball. Fiquemos conscientes, "dreading to leave an illiterate Ministery to the Churches, when our present Ministers shall lie in the dust".

* Otto Maria Carpeaux nasceu na Áustria em 1900 e veio para o Brasil por instância e esforço pessoal de Pio XII. Naturalizou-se brasileiro em janeiro de 1944, tendo se destacado como crítico e ensaísta de literatura brasileira e universal. Erudito de sólida formação humanística, Carpeaux trabalhou no Correio da Manhã, foi diretor da Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia e da Fundação Getúlio Vargas. Faleceu em 3 de fevereiro de 1978.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

GETÚLIO: 1882-1930

Dos anos de Formação à Conquista do Poder
Autor: Lira Neto
Editora: Companhia das Letras
Assunto: Biografias - Política
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 624

Sinopse: Esta obra procura reconstituir a trajetória pessoal e política de Getúlio Dornelles Vargas. O autor buscou se debruçar sobre documentos para ajudar a decifrar a 'esfinge Getúlio', e mostrar como foi possível que convivessem no mesmo indivíduo o revolucionário, o ditador, o reformador social e o demagogo. Lira Neto pretendeu se servir de cartas pessoais e memorandos oficiais, de diários íntimos, autos judiciais, boletins de ocorrência, notícias de jornal, anúncios de publicidade, charges, hinos, marchinhas, livros de memórias, entrevistas, depoimento, entre outros.
Comentários de Nivaldo Cordeiro: A Companhia das Letras fez chegar ao mercado o primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas (Getúlio – 1882-1930: Dos anos de formação à conquista do poder), de Lira Neto, prevista para ser uma trilogia. Um grande feito editorial, narrado em detalhes no posfácio (que bem poderia ser um prefácio) do próprio autor. A editora apostou no projeto, financiou-o e pôs à disposição do autor os meios para realizar sua obra. O fato é inusual no nosso acanhado mercado editorial, no qual geralmente os editores são medrosos e argentários, fugindo do risco.
Não bastante, a editora precificou o volume em apenas R$ 52,50, um grosso volume bem encadernado, em excelente papel. Segundo a revista Veja a tiragem inicial foi de trinta mil exemplares, muito acima da média nacional. O livro é tão bom, o preço tão acessível e o personagem tão fascinante que deverá ser esgotada rapidamente. Se o autor está de parabéns pela iniciativa, mais ainda está o editor Luiz Schwartz. Que outros sigam o exemplo.
Lira Neto é já um consagrado escritor, autor da biografia de José de Alencar e da melhor feita sobre o Padre Cícero, seu trabalho anterior, que virou best seller. Ele é um pesquisador exaustivo e também um escritor talentoso. Sua narrativa lembra, em muito, aquela utilizada por Fernando Moraes ao escrever o já clássico Chatô - O rei do Brasil. Sem perder nunca o fio ele narra a vida do biografado intercalando diferentes momentos e diferentes episódios, criando um efeito parecido com aquele encontrado nos melhores livros policiais. O suspense é integral.
Mesmo se conhecendo a vida de Getúlio Vargas, a técnica narrativa prende o leitor de forma magnética. Eu simplesmente fui largando tudo que lia para poder dar cabo à leitura do excelente livro do Lira Neto. Um grande prazer e um suplemento adicionais de informações, não apenas biográficas, mas da política brasileira no período abordado. O painel feito é uma perfeição, acrescentando informações importantes sobre o que aconteceu naqueles momentos fatídicos do início do século XX, quando os destinos do Brasil foram moldados. Para o bem e para o mal, Getúlio Vargas tornou-se o principal responsável pela formação política que herdamos.
A chamada República Velha foi o período de transição entre o Império e os tempos contemporâneos. O Brasil era, de fato, uma federação e o poder central estava longe de ser o que é hoje, uma força esmagadora de um Estado central. As liberdades eram maiores, tanto para as unidades políticas subalternas como para as pessoas. Desde Vargas entrou-se em um ciclo de concentração de poderes  ao qual estamos agora submetidos. Não seria mais possível, depois de Vargas, haver uma "revolução" por cima, a partir de um dos estados federados. A desproporção de forças é tamanha que algo como se viu em 1964 só é possível a partir da própria unidade central.
Getúlio foi um personagem fáustico, personificando o pacto que nosso país realizou. Sua própria morte trágica é sinal hiperbólico desse pacto. Não ao acaso o mantra do desenvolvimento - o desenvolvimentismo - deriva diretamente da intervenção getulista em nossa história. O desenvolvimentismo é a ideologia desse pacto, abraçada por todas as forças políticas desde então, fazendo do poder de Estado a alavanca motora. Getúlio chegou ao Rio de Janeiro para subir no promontório e ver sua obra fáustica se realizar, algo como narrado esplendidamente por Goethe em seu poema monumental.
O escritor que melhor retratou essa mudança na República Velha foi Guimarães Rosa. Grande Sertão, Veredas, Sagarana e Corpo de Baile são ambientados nessa época. Ler a obra do escritor mineiro em conjunto com a biografia de Getúlio, por Lira Neto, é altamente esclarecedor das metamorfoses por que passou o Brasil, em consonância com aquelas vividas por todo o Ocidente.
Lira Neto, assim, ajuda-nos a compreender a nossa própria formação como Nação e esclarece pontos obscuros desse processo. Não fosse por outra razão, esta já seria suficiente para tornar seu belo livro um clássico, de leitura obrigatória por aqueles interessados em entender o Brasil.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

PODER GLOBAL E RELIGIÃO UNIVERSAL

Título original: Poder Global y Religión Universal
Autor: Juan Claudio Sanahuja
Tradutor: Lyège Carvalho
Assunto: Ensaio social e religioso
Editora: Ecclesiae
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 206     

Sinopse: NA PASSAGEM PARA O TERCEIRO MILÊNIO, ao inaugurar o Grande Jubileu de 2000, o beato João Paulo II exortou os cristãos a confiarem na vereda de Cristo, lembrando a estreiteza da via que, em uma história bimilenar, foi capaz de fazer a Igreja vencer tantas sombras e perigos incontáveis, ameaças e perseguições, e tantas outras incompreensões e falsas interpretações; assim, a luz fulgurante de Cristo chegou ao século XXI como um fato incontestável: “Entramos por esta Porta, que representa Cristo mesmo: com efeito, só Ele é o Salvador.” Esta verdade histórica chegou até nós, a geração pós-Concílio Vaticano II, mas está hoje (e novamente) atacada de modo intenso e sistêmico, por forças culturais, econômicas e políticas, no afã de impor uma nova ordem mundial, destituída das premissas cristãs, ordem imposta por diversas formas de manipulação, a pior de todas as violências. Uma nova ordem não apenas política, mas também religiosa, de uma religiosidade light, “sem dogmas, sem estruturas, sem hierarquias, sem morais rigorosas”, como ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, neste lúcido livro Poder Global e Religião Universal.

Este “poder global”, como um novo Leviatã, “procura a perversão dos menores, a anticoncepção, o aborto, a eutanásia, a investigação com embriões humanos, a injusta legitimação jurídica de casais do mesmo sexo etc. A falsa espiritualidade da nova ordem procura ensinar às crianças de 5 anos a normalidade da homossexualidade e da masturbação e instruí-la no uso de preservativos e da pílula do dia seguinte, inculcando-lhes que o aborto é um direito, como propõe a UNESCO”.

Comentários: A crise da Igreja é grave. Tenho a impressão de que não se esconde de ninguém que o cataclismo social – que afeta o respeito à vida humana e à família – tem essa triste situação como causa. Michel Schooyans afirma, sem nenhuma dúvida, que a Nova Ordem Mundial, “do ponto de vista cristão, é o maior perigo que ameaça a Igreja desde a crise ariana do século IV”, quando, nas palavras atribuídas a São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”.

(...) Soma-se à atitude vacilante de muitos católicos a ditadura do politicamente correto, muito mais sutil que as anteriores e que reivindica a cumplicidade da religião, uma religião que por sua vez não pode intervir nem na forma de conduta nem no modo de pensar. A nova ditadura corrompe e envenena as consciências individuais e falsifica quase todas as esferas da existência humana.

A sociedade e o estado excluíram Deus, e “onde Deus é excluído, a lei da organização criminal toma seu lugar, não importa se de forma descarada ou sutil. Isto começa a tornar-se evidente ali onde a eliminação organizada de pessoas inocentes – ainda não nascidas – se reveste de uma aparência de direito, por ter a seu favor a proteção do interesse da maioria”.

O autor: Argentino, sacerdote ordenado em 1972, Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Teologia Moral e História da Filosofia e da Teologia, Capelão de sua Santidade o Papa Bento XVI e Colaborador do Conselho Pontifício para a Vida. É também jornalista pela Universidade de Navarra e autor de «El desarrollo sustentable. La nueva ética internacional» («O desenvolvimento sustentável. A nova ética internacional»)

Entrevista com o autor:

Canção Nova - De que forma funcionam essas estratégias de estabelecimento de um poder global e religião universal?

Monsenhor Juan Claudio Sanahuja - É algo fabricado pelos mesmos lobbys antivida, porque precisam transformar a cultura dos países cristãos, a fim de que a mensagem antivida possa ser aceita nesses países. Para isso, precisam "trocar" as crenças dos povos cristãos, especialmente católicos, e isso desgraçadamente é favorecido por uma situação de "crise" no interior da Igreja, pois há pessoas, inclusive eclesiásticos, que não aceitam os pronunciamentos magisteriais.

Justamente estes projetos de nova ética internacional baseiam-se no relativismo ético. Portanto, os documentos do Magistério que afirmam verdades imutáveis são rechaçados por esses projetos. E querem inculcar isso no povo cristão e católico, em parte valendo-se de alguns eclesiásticos que não aceitam o ensinamento da Igreja.

Canção Nova - Já tivemos na história regimes políticos que promoveram o ateísmo, e, depois, surgiu essa tendência de promover a religião aconfessional. Qual é a diferença desses dois mecanismos?

Monsenhor Sanahuja - As pessoas são quase sempre as mesmas e tudo está impregnado de um neomarxismo. Então, o que ocorre é que querem substituir a religião revelada, cristã, por uma outra, de valores relativos, utilizando inclusive as mesmas palavras que têm grande valor para a religião cristã. Por exemplo, a "paz". É uma palavra que tem forte embasamento de conteúdo cristão. Por isso, não bastam as palavras: temos que ver quem diz e por que as diz.

É o que o então Cardeal Joseph Ratzinger chamou de moralismo político. Não basta falar sobre paz, proteção das crianças, igualdade. Tem-se que ver quem diz e qual é a sua ideologia, pois podem ser palavras enganosas, embora baseadas em conteúdo católico. Então, aqueles que pregavam ateísmo há uns anos são os mesmos, ou discípulos desses, e agora pregam uma nova ética de valores relativos, mutáveis. Assim, tudo o que seja verdade imutável é fundamentalismo e, portanto, rechaçável, condenável. Por isso, alguns dizem que a posição da Igreja em relação ao aborto altera a paz, tanto social quanto mundial. Já outros abordam as formas de se combater a Aids: a Igreja fala sobre o cultivo de bons costumes, e há quem acuse isso de crime!

Canção Nova - De que forma os padres e bispos podem ajudar nesse contexto? E o povo católico, já abriu os olhos para essa realidade?

Monsenhor Sanahuja - Sendo fiéis ao Magistério, pregando a doutrina ensinada por Jesus. Acontece que nós sacerdotes, os clérigos, inclusive bispos, temos a pressão do ambiente, do "politicamente correto". Temos que pregar a Jesus e a conduta que Ele nos ensina a ter, apesar da presença do politicamente correto. Com a ajuda de Deus, não podemos ceder às pressões. Isso é inadmissível. Os sacerdotes devem pregar Jesus e a doutrina católica, em sua integridade, e não se deixar pressionar, ainda que isso possa trazer dor de cabeça.

CONSPIRAÇÃO ANTICRISTÃ

Principe Dom Bertrand de Orléans e Bragança

segunda-feira, 2 de abril de 2012

REVOLUÇÃO e CONTRA-REVOLUÇÃO

Autor: Plinio Corrêa de Oliveira
Assunto: Ensaio social e religioso
Editora: Artpress
Edição: Comemorativa dos 50 anos da publicação.
Ano: 2009
Páginas: 166


Sinopse: A humanidade de nossos dias encontra-se diante de um impasse: de um lado, parece estar marchando rumo a um progresso maravilhoso e indefinido, nos campos humano e científico, cujos confins não se consegue sequer vislumbrar: de outro lado, assiste-se uma deterioração abrumadora da civilização, do convívio social, e das próprias condições da vida moderna, que pode desfechar, de um momento para outro, no confronto generalizado de indivíduos, família, sociedades, povos e nações.

- Como resolver esse impasse? Como se chegou a ele? É das respostas a estas duas perguntas que este livro se ocupa. Mas não paremos por aqui. Continuemos a descrição da obra.

Uma pergunta prévia: esse impasse é fruto previsível das paixões humanas entregues a si mesmas, ou a elas se acrescentou a atuação coordenada de forças que atuaram intencionalmente para atingir tal resultado? Estaríamos então diante de um processo duplo, em parte natural e em parte artificial, que se desenvolveu conjuntamente para produzir esse efeito?

Apontando a existência desse processo, autores – tanto contrários como favoráveis a ele – deram-lhe um nome: Revolução.

Assim, grandes pensadores – católicos e não católicos – foram delineando e descrevendo, passo a passo, o processo revolucionário que conduziu a sociedade humana, a partir da Idade Média – com sua fé primaveril nos ensinamentos do Evangelho e nos da Igreja Católica – à sociedade atual, esteada na trilogia liberté-egalité-fraternité, que, seduzindo a humanidade com avanços tecnológicos deslumbrantes, implantou a mais cínica e escancarada liberdade de costumes. A tal ponto que, no estágio em que as coisas hoje se encontram, é lícito perguntar-se, sem uma intervenção extraordinária da Providência, o desconserto do mundo moderno tem solução.

Muitos estão convencidos de que não.

Carta de Pio IX

“Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes estendesse mão amiga.[1] Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerâncias das leis mais iníquas.[2] Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem [não é o caso do Brasil], como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo.”[i]


[1] Um exemplo contemporâneo é a CNBB que hipotecou, em nome da Igreja Católica brasileira, o seu apoio a candidata revolucionária comunista, abortista e atéia, Dilma Roussef, nas eleições de 2010 para presidente da república. (Nota de Anatoli Oliynik)
[2] Tem-se a nítida sensação que Pio IX está escrevendo esta carta para a CNBB e para muitos católicos brasileiros que mantém uma relação incestuosa com o governo revolucionário do PT e com partidos políticos comunistas. (Nota de Anatoli Oliynik)


[i] Carta ao presidente e membros do Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6 de março de 1873, apud I Papi e la Gioventù, Editrice A.V.E., Roma, 1944, p. 36.

segunda-feira, 5 de março de 2012

IDEAIS TRAÍDOS

Nota preliminar:

Este post, publicado originalmente neste blog em 08/02/2010, foi revisto e ampliado. Àqueles que desejarem compreender o quadro político nacional e o comportamento atual do EB diante desse quadro, devem buscar as explicações neste livro, pois o ovo da serpente foi gestado no governo Geisel e comandado pelo presidente, razão pela qual, se justifica o título da obra.

Editor do blog

 
IDEAIS TRAÍDOS
Autor: Sylvio Frota
Editora: Jorge Zahar
Assunto: História do Brasil
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 662




Sinopse: Nesse inédito documento histórico, o leitor tem uma rara visão dos bastidores do período militar no Brasil (1964-1985). Frota faz uma análise minuciosa da história e, ao acusar os que em seu entender haviam traído os ideais do Movimento de 64, torna esse livro um depoimento detalhado e único sobre o tema.

A obra, lançada agora por iniciativa de seu filho – já que o autor, até sua morte, em 1996, não quis divulgar o texto –, mostra detalhes ainda desconhecidos sobre a cúpula militar brasileira.

SYLVIO FROTA foi ministro do Exército entre 1974 e 1977, período em que o presidente Ernesto Geisel iniciou o processo de abertura [prefiro a expressão: entregadura]. Contrário a essa política e apoiado por militares e políticos da “linha dura” que o queriam candidato à sucessão, Frota distanciou-se cada vez mais do presidente, a quem via como ideologicamente de esquerda. O desfecho foi sua demissão por Geisel em 12 de outubro de 1977.

Afastado da vida pública, o ex-ministro dedicou-se, nos anos seguintes, a escrever sua versão dos fatos. Ideais traídos publicado 28 anos depois do início de sua redação.

Comentários: Este livro é muito mais do que o registro de fatos passados. Ele é um prognóstico do futuro do país e, se lido analiticamente com espírito desarmado, esclarece e ajuda a compreender o sucesso que as esquerdas marxistas, socialistas, comunistas e revolucionárias vêm obtendo na implantação de um regime socialista que será totalitário num breve espaço de tempo, sem que surja uma única reação contra esse câncer que destrói nações, diviniza a nomenclatura e se locupleta pela corrupção do erário e do suor daqueles que trabalham para sustentar uma nação de cultura parasitária, governada pela súcia encastelada no poder pela massa ignara.

Excertos da obra:

“A esta altura dos acontecimentos, já se delineavam no seio da Revolução três grupos militares, de tendências e aspirações diferentes: o grupo castelista, de inclinações liberais centro-esquerdistas, em que se destacavam os generais Cordeiro de Farias, Ernesto Geisel e Golbery, homens ligados à Escola Superior de Guerra, onde iam buscar as bases de suas atividades; o nacionalista, de fortes tinturas socialistas com Afonso de Albuquerque Lima, Euler Bentes Monteiro e outros generais, dispondo, segundo se dizia, da valiosa simpatia de Juarez Távora; e finalmente o grupo ortodoxo, conservador sem ser imobilista, fiel às teses do Movimento de 1964 e que tinha na sua liderança a figura dominante de Costa e Silva.” (p. 84)

“O governo do general Médici teve a penosa e arriscada missão de enfrentar a subversão em sua fase agressiva e de maior periculosidade.” (p.86)

Com “... os Centro de Operações da Defesa Interna e o Destacamento de Operações e Informações. A subversão foi contida e quase extinta." (p. 87)

As esquerdas infiltradas no governo e agora contando com um presidente simpatizante, que mais tarde se revela ser de esquerda, começam a pressionar para extinção destes órgãos de segurança:

"Eis aí, a verdadeira causa da revoltante e acirrada campanha feita, por inspiração comunista, contra esses dois órgãos de segurança – a subversão estertorava. Era e é, pois, o seu objetivo prioritário extingui-los no mais curto prazo.”

“Ninguém pode assegurar que, numa luta de morte como a que foi travada, não tenha havido violência, porque violência gera violência. Porém, querer atribuir-lhe um caráter sistemático e geral é imputação caluniosa e desmoralizadora, de orientação marxista – o que se pode verificar pela documentação apreendida e declarações de próprios subversivos presos.” (p. 87)

“E, um governo, comprometido espiritualmente com as correntes de esquerda, como foi o do general Ernesto Geisel, não hesitou em tentá-lo em todas as ocasiões julgadas favoráveis.” (pp. 88-89)

Sobre as falsas acusações de tortura e a indiferença dos acusados:




"Um jovem casal, preso numa reunião de subversivos, foi tratado costumeiramente com todo o respeito, entretanto, o marido, ao prestar depoimento na Auditoria Militar, afirmou, cinicamente, que suas declarações anteriores tinham sido obtidas sob tortura. Indignado, interpelei-o, ao correr de uma habitual visita, instando para que dissesse quando e onde tinha sido torturado e quem praticara a tortura. Baixou a cabeça e, num assomo de dignidade, respondeu, textualmente:

- Cumpri ordens do Partido!

Nós militares compreendíamos o propósito de desmoralizar os órgãos de segurança, neutralizando-os para posteriormente extingui-los.

O que nos surpreendia era a indiferença governamental, porquanto a técnica subversiva nem a marca da originalidade possuía. Reproduzia-se fielmente, aqui, o que acontecera em outros países."

Frota convidado para assumir o Ministério do Exército: “Iria penetrar num ambiente desconhecido, envolvido nas névoas do pragmatismo, em que pululavam os casuísmos, e no qual a verdade e a mentira confundiam-se na mesma versão deformada da realidade comprometedora.” (p. 89)

O reconhecimento da República Popular da China:

“O choque de valores culturais entre as duas nações, a ingerência chinesa, mais ou menos velada, de acordo com a conjuntura internacional, na política de outros países e a obstinada e impertinente exigência do rompimento com a China Nacionalista, provocando um problema com Formosa, com quem mantínhamos excelentes relações – comerciais e políticas – mereceram especial atenção.” (p. 98-99)

Parecer de Frota sobre as relações diplomáticas com a China comunista: “Com base neste longo e profundo estudo, não poderia ser outro o parecer do Chefe do Estado-Maior do Exército, condensado em apenas quatro folhas e contrário, na conjuntura em que vivíamos, à proposta do Ministro das Relações Exteriores.” (p.99)

“A extensa rede marxista descoberta na Polícia Militar do Estado de São Paulo, enredando nas malhas da Lei de Segurança, mais de sessenta militantes, entre os quais se citavam muitos oficiais, não trouxe a ilusão de que as recomendações do MCI [Movimento Comunista Internacional] e de Havana tivessem caído em ouvidos moucos.”

“Naquele mês de julho, ao correr de um despacho, abordando os problemas de repressão, expressou o presidente o ponto de vista de que nós militares estávamos errados no combate à subversão, pois procurávamos o auxílio da direita para combater o comunismo. É um erro, repetiu enfaticamente. Pegando então de um lápis traçou numa folha de bloco de papel um segmento horizontal de reta. Marcou a extremidade direita deste segmento com um D (direita) e a extremidade oposta com um E (esquerda). No meio do segmento colocou um C (centro).”

“Disse-me, depois, com toda a firmeza – nós devemos nos aproximar da esquerda. Traçou a seguir sobre a figura uma elipse, envolvendo as letras C e E, como a incluí-las na mesma área.”

Fiquei atordoado com o que ouvira e, mais ainda, pela convicção com que foram ditas aquelas palavras. Fixei o presidente e perguntei, vagarosamente, porém com visível repúdio pela asserção:

– O senhor acha que nós devemos ir para a esquerda?

Nada me respondeu. Arrancou a filha do bloco, dobrou-a, rasgou-a e colocou os pedaços do papel no bolso direito de seu casaco.” (p. 133) O presidente citado era Ernesto Geisel.

Portanto, a leitura desta obra é importantíssima para a compreensão, repito, do que sucede na situação política atual onde presenciamos uma relação de subserviência, quase incestuosa entre o socialismo e os comandos militares. Estamos órfãos. A ideologia marxista penetrou na caserna e campeia entre os militares, assim como faz na Igreja Católica brasileira e outras Instituições. Venceu Gramsci, não pelas armas, mas pela hegemonia do senso comum modificado. (AOliynik).

 
O general Santa Rosa e a Argentina


Graça Salgueiro



Recebi no dia 02 de fevereiro, de um amigo militar, cópia da nota escrita pelo general Maynard Marques de Santa Rosa que acabou causando sua exoneração do cargo de Chefe do Departamento-Geral do Pessoal do Exército. Quando a li me assombrei, não porque estivesse em desacordo com o conteúdo, mas pela coragem e destemor em dizer aquilo que muitos dentro das Forças Armadas pensam, mas poucos se atrevem a ser tão verdadeiros.

Uma semana depois e o alvoroço já tomava conta de jornais, sites e grupos de debates na internet. O general fora exonerado de seu cargo, sob esbravejamento histérico do ministro da Defesa, Nelson Jobim, aquele que usa uniforme militar sem nunca ter sido sequer soldado raso. Não foi surpresa, tendo em vista que, como comunista politiqueiro e fraudador da Constituição, este senhor sempre agiu de forma dúbia tal qual o morcego que morde e sopra. Fingiu defender os militares, quando foi publicado o Plano Nacional de Direitos Humanos III (PNDH III), porque no documento excluía-se os mesmos do benefício da lei de Anistia. Com seu papel bem ensaiado numa ópera bufa, pôs seu cargo à disposição sendo – naquela ocasião – aplaudido pelos militares e garantindo, com o gesto hipócrita, amealhar votos à sua futura candidatura, que ainda não se sabe bem para qual cargo.

Então leio no jornal O Globo do dia 10.02, uma declaração do ministro Jobim acerca do que se passou. Diz ele: “Acabei de enviar ao presidente da República a exoneração do general Santa Rosa da chefia do Departamento-Geral do Pessoal. Pela manhã, conversei com o comandante do Exército, general Enzo (Martins Peri), e pedi a ele providências imediatas tendo em vista as notícias que haviam circulado. Ele confirmou a notícia e disse que sugeria a exoneração, o que já foi enviado agora para o presidente”.

Este fato me remeteu a outro bem mais antigo contra o general Sylvio Frota, Ministro do Exército do governo Ernesto Geisel, também vergonhosamente traído por seus pares por ser anti-comunista ferrenho e convicto de suas funções como militar. O caso está bem documentado no livro de sua autoria, intitulado “Ideais Traídos”, cuja leitura neste momento vale a pena. Esta era a hora de o general Enzo, como comandante do Exército, apoiar o general Santa Rosa porque o que ele disse expressa fidedignamente tudo o que pensam os verdadeiros militares da ativa e da reserva, ademais de civis patriotas que prezam a verdade e abominam o comunismo. Mas a tibieza e covardia do general Enzo se manifestam há tempo, sempre cedendo aos caprichos lulo-petistas, quando, por exemplo, deixou entregue à própria sorte o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra no processo que querem, a ferro e fogo, rotulá-lo como torturador, mesmo que para isto se utilizem testemunhas e testemunhos falsos.

Omitiu-se e escondeu-se quando do lançamento do PNDH III, que aviltava não só os direitos e a honra dos militares que combateram contra o terrorismo dos anos 60, como acobertava uma mentira e seus criminosos autores. “Acompanhou” o pedido de demissão do comunista e demagogo Jobim porque não lhe restavam muitas opções, e agora concluiu seu trabalho de lacaio pedindo a exoneração de um brilhante militar que só disse a verdade, nada mais que a verdade. Entretanto, o general Santa Rosa não está só, porque ouviu-se o brado de indignação por tamanha ignomínia de todos os cantos do país, tanto de militares como de civis que sabem distinguir a verdade da mentira, aos quais me somo.

E o que tem a ver a Argentina com o general Santa Rosa? Desde 2004, tento alertar os militares de que estava sendo urdido pelo Foro de São Paulo um plano para destruir as Forças Armadas do continente, e apontei o que vinha ocorrendo na Argentina governada então pelo “ex” montonero Néstor Kirchner. Em sua gestão, a primeira providência tomada para destruir os militares foi desvinculá-los da Lei de Anistia – exatamente como quer o fraudulento PNDH III -, sobretudo nos capítulos “obediência devida” e “ponto final”, que salvaguardava as ações cometidas contra terroristas em estrito cumprimento do dever de defender a Pátria.

A ministra da Defesa argentina, nomeada por Kirchner e que permanece até hoje no governo de sua esposa Cristina, é uma “ex” montonera, Nilda Garré, uma espécie de Dilma Rousseff portenha. Por ordem desta senhora, foram abertos processos contra todos os militares vivos que combateram nos anos 70-80, dos quais 600 foram julgados e condenados a penas longuíssimas e até prisão perpétua. A maioria septuagenária e octogenária está encarcerada no meio de presos comuns que, instigados por “defensores de direitos humanos” que visitam os presídios, são espancados e insultados continuamente. Desses 600 militares, 80 já morreram na prisão por falta de atendimento médico, maus tratos e envenenamento.

O mesmo está ocorrendo no Uruguai, e no Chile as coisas não tomaram o mesmo rumo porque os militares se rebelaram e deram um basta, apesar de haver alguns deles presos. No livro “El Foro de Sao Paulo contra las Fuerzas Armadas”, escrito por militares de vários países da região, que pode ser descarregado neste link, estão as explicações para tudo isto que estamos vendo ocorrer no Brasil hoje. Nesta vergonha e covardia não estamos sós. Entretanto, eu pergunto: até quando vamos esperar? Até vermos esta escória da humanidade encarcerar todos os nossos bravos soldados até não haver mais nenhum para defender a Pátria, e o Brasil se tornar uma Cuba continental como tanto sonha o insepulto morto-vivo Fidel Castro?